Bastidores: entrevista com Ricardo Rocha

Ricardo Rocha, professor de música em Arcos de Valdevez, membro de bandas de referência regional e nacional, como os BD e Sinal, entre outras, esteve à conversa com o Jornal AVV sobre a sua carreira na música e do seu projecto enquanto produtor.

Um dos seus mais recentes trabalhos enquanto produtor foi o álbum de Jorge Nande (ex-vocalista do grupo Roconorte), apresentado no dia 9 de Junho na Casa das Artes.

Os BD começaram na tua adolescência. Conta-nos como foi tudo isso.

Sim. Tinha 16 anos, em 96. A primeira actuação lembro-me perfeitamente que foi no dia 3 de Junho de 97, na Feira do Livro aqui dos Arcos. Ainda há pouco tempo falei nisso, portanto isto está tudo aqui muito vivo. Lembro-me de termos ido para o palco começar a tocar e eu tinha uma corda da guitarra desafinada. Tentei afina-la enquanto os meus colegas continuaram a tocar, mas na tentativa rebentei a corda e aquilo foi um desastre total (risos). Depois acabou por se resolver o problema. Tínhamos lá muitos amigos.
Lembro-me de no dia seguinte entrar na escola e a malta toda comentar: “Eh pá, que espectáculo!”

AVV – A música chegou à tua vida a partir de casa?

RR – Sim, o meu pai também era músico, tinha um irmão mais velho que ouvia música, uma prima nossa, mais velha, que acabava por nos influenciar a ouvir e quando demos por ela estávamos todos envolvidos naquilo, era uma época em que toda a gente ouvia música. Eu comecei a dar os primeiros toques de guitarra com 14 anos, mais ou menos…

Mas porquê a guitarra?

Sinceramente, não sei. Eu tinha um fascínio muito grande pela bateria quando era miúdo, como acho que quase todas as crianças têm. Aquela coisa de termos baquetas nas mãos e andar ali a bater com elas acho que fascina qualquer criança. Eu na altura fazia isso com baquetas partidas que o meu pai trazia para casa, porque eu pedia-lhe e assim podia juntar uma meia dúzia de caixotes no sótão e tocar. Tinha um gravador pequenino onde punha músicas dos Xutos e Pontapés, que na altura era o que eu ouvia (risos) a tocar e batia nos caixotes a fazer de conta que aquilo era uma bateria.
Na altura ouvia Xutos essencialmente pelas canções em si, cantavam em português e havia a facilidade de entender a mensagem, isso fez com que fosse grande fã. Quando eles vieram tocar aqui aos Arcos, o meu pai levou-me a vê-los e foi a loucura! Depois, a minha prima de que falei, tinha um triplo álbum ao vivo deles e ela gravou aquilo tudo para duas ou três cassetes, que eu passava a vida a ouvir no Walkman enquanto andava de bicicleta e fora de casa.

Ricardo Rocha no III concerto MUSIC SQUARE. Foto © DR

Ainda assim, depois passaste para a guitarra…

Resolvi começar a tocar guitarra porque a bateria era muito grande, muito barulhenta e se calhar era mais difícil, mesmo a nível económico, comprar uma bateria para ter em casa. Não é que nos faltassem coisas, mas a verdade é que o investimento numa bateria na altura era sempre muito maior do que numa guitarra, e acima de tudo foi porque havia uma guitarra lá em casa. Era do meu avô… aliás, a guitarra antes de ser do meu avô penso que era do meu bisavô!, portanto já deve ter mais de 100 anos. Acho que foi nessa guitarra que eu comecei a dar os primeiros toques.

Referiste que o que o que ouvias para a bateria eram os Xutos. E para a guitarra, quem é que te inspirou, no início?

Olha, é uma questão interessante porque eu não comecei a tocar guitarra por fascínio a este ou aquele guitarrista, só depois de ter explorado o que é a guitarra – porque comecei a tocar de ouvido – é que comecei a prestar atenção aos guitarristas. Comecei a ouvir coisas como Pink Floyd, Dire Straits, gostava muito do estilo e do som do Mark Knopfler, e acho que na altura não abria os horizontes para muito mais.
Na nossa altura da adolescência acho que nos fixávamos muito em dois ou três artistas de que gostávamos muito e comíamos aquilo até à exaustão! Aconteceu um bocado isso com Pink floyd e Dire Straits. Depois descobri o grunge e passei a ouvir imenso Pearl Jam, Nirvana, Alice in Chains, Soundgarden, eram estas as bandas que eu ouvia nos meus 16 17 18 anos.

E é nesta fase que crias empatia com outros músicos com os quais foste tocando. Como é que se formava a química entre adolescentes para começar a tocar e fazer as chamadas bandas de garagem?

Acho que acima de tudo era quem tivesse instrumentos juntava-se (risos). Era um bocado assim “Tens uma guitarra? Então vamos tocar”. Foi desta forma que se juntaram os BD. Eu não conhecia mais ninguém que tivesse uma bateria a não ser o Pedro Cunha, portanto foi o Pedro que veio tocar connosco. O Hugo Costa tinha uma guitarra eléctrica, ouvia a mesma coisa que eu, portanto foi facílimo aproximarmo-nos e acabamos por ficar grandes amigos. Apesar de a distância nos afastar bastante, ainda hoje somos muito amigos.
Na altura, o Cláudio Neiva foi o nosso primeiro baixista por duas razões: primeiro porque tinha um irmão mais velho, o Rui, que também era baixista; segundo porque o Neiva tinha um à-vontade para fazer tudo o que fizesse falta impressionante. Para nós era importantíssimo ter uma pessoa na banda que furasse por onde fizesse falta.
Nós fizemos coisas que hoje, olhando para trás, questiono-me como houve coragem! Fizemos um empréstimo bancário para comprar material de música sem eu ter dito nada aos meus pais. Quando cheguei a casa foi: “Olha, fizemos um empréstimo. – E agora, para pagar isto?” Mas isto fez com que pelo menos aí durante dois anos ou três nos safássemos, precisamente pela responsabilidade do Neiva, porque ele furava tudo, arranjava actuações em todo lado.
Depois a dada altura, ele acabou por sair da banda e entrou o outro elemento que é um excelente músico e excelente pessoa também, o Carlos Trancoso, que entrou para tocar baixo e ele nem sequer era baixista. Isso foi muito engraçado porque ele também já tinha tocado numa banda precisamente com o Cláudio Neiva, mas era baterista, na altura. Eu vi-os tocar e andava com vontade de tocar com eles, queria estar envolvido numa banda, mas na altura não tinha banda, não tinha nada.

Já conhecia o Carlos Trancoso desde criança mas éramos simplesmente conhecidos e numa altura, em brincadeira lembro-me de o ver fazer um ritmo meio samba com um apito, e pensar: “este gajo é músico!”.

Quando tivemos necessidade de arranjar um baixista, depois do Neiva ter saído da banda, lembrei-me logo do Carlos. Ele também dava uns toques de guitarra e foi fácil adaptar-se ao baixo, sendo ele o músico que era e que ainda hoje é, porque toca muito.

Foi neste contexto apareceu a Sílvia Mota.

Quem a tinha trazido para os BD, salvo erro, acho que foi o Neiva. Ele já a conhecia há algum tempo e ao ouvi-la cantar na escola, convidou-a para vir cantar connosco.

Era a mais nova da banda, tinha para aí 14 anos, mas cantava muito bem. Nós não tínhamos vocalista, então acabou por ser ela. Tivemos que adaptar muito do repertorio que tocávamos à voz e ao estilo dela e àquilo que ela ouvia na altura, mas ela ouvia boa música, foi fácil conciliar as coisas.
Éramos uma banda de covers, na altura tocávamos Alanis Morrissete, Cheryl Crow, Rádio Macau, GNR… Eram coisas que facilmente se adaptaram à voz dela e fáceis de tocar, porque não podíamos tentar tocar coisas muito complicadas, ainda estávamos num processo de aprendizagem.

E a banda ainda durou… pelo menos quatro anos teve que durar, porque tínhamos o empréstimo do banco para pagar. Depois penso que começamos a relaxar-nos um bocadinho, também por força da necessidade de ganhar algum dinheiro, acabamos por tocar também em grupos de baile e a banda acabou por desaparecer, mas continuamos todos amigos, apesar de ter perdido o rasto ao Cláudio Neiva. Gostava de o ver, gostava de o contactar mas não está muito fácil.

Foi neste período que decidiste que o que tu querias fazer teria que envolver a música?

Não, muito depois disso. Eu na altura não olhava para a música de uma forma muito séria. A partir dos meus 14 anos tinha o desejo de ser professor porque a minha mãe também era, os meus tios também são quase todos professores, portanto eu também tinha esse desejo, só não sabia muito bem de que área.
Gostava muito de desporto, então decidi que queria ser professor de Educação Física. Só a dada altura dos meus estudos percebi que, se em vez de ser professor de Educação Física, fosse professor de música, seria muito mais fácil porque gostava de música e tinha alguma facilidade em aprender. A partir daí foi fácil, eu não via o estudo da música como uma tortura como senti até ao meu 12º Ano, em que andei a estudar disciplinas de que não gostava, tal como qualquer outro adolescente: As matemáticas, a Química, a Física… Se calhar hoje em dia até olho para essas disciplinas com outra graça, mas só de vez em quando!

Após os BD foste coleccionando outras experiências, porque a dada altura começamos a ver o Ricardo a aparecer em coisas com projecção nacional. Como aconteceu essa progressão?

Tive ali uma fase, enquanto estive a estudar na universidade, em que praticamente só tocava em grupos de baile. No meu último ano da universidade por obra do acaso conheci um rapaz, chamado Miguel Oliveira…

Ele na altura era professor de música?

Dava umas aulas de música mas ele é professor de inglês-português. Na altura já não lembro o que estava a fazer, mas estava em estúdio no Dêdê Música e ele apareceu lá, foi-me apresentado.
Ele tinha sido concorrente do “Chuva de Estrelas”, finalista ou semifinalista, por aí, e andava a fazer bares, voz e guitarra. Tinha alguns originais que me mostrou e eu tinha alguma curiosidade em trabalhar em temas originais, algo que só tinha feito com um primo que residia nos Estados Unidos. Aquilo acabou por funcionar, mais como uma maneira de testar as nossas capacidades de compor. Acabamos por compor juntos durante algum tempo, até que eu entretanto acabei os estudos e começamos a tocar, sendo ele o frontman. Eu, o Miguel Fernandes, que era baterista e o Rui Dantas de Ponte da Barca, que era o baixista, começarmos a tocar sendo a banda do Miguel Oliveira. Ele dava se bem com o Edu Krithinas, que na altura era guitarrista e produtor dos Anjos, mostramos-lhe uns temas que tínhamos feito.
Entretanto deu os temas a conhecer ao Manuel de Oliveira, que na altura trabalhava no grupo Média Capital, um dos melhores guitarristas portugueses que tive oportunidade de conhecer. Ele estava na editora Farol.
Inicialmente foi proposto um contrato de publishing, em que compúnhamos temas para outros artistas. Lembro-me de compormos para a Diana Lucas que foi semifinalista do “Ídolos”, se não me engano. Compusemos também para uma girls-band que apareceu nos “Morangos com Açúcar”, que eram as Just Girls; para o Vintém (ex-D’zrt)…

Então vocês funcionavam de suporte para outras bandas.

Inicialmente foi essa a proposta que nos foi feita, mas a dada altura surgiu a oportunidade de fazer um disco de originais já como banda, com os “Sinal”. Chegamos a ter alguns singles a tocar nas rádios nacionais, inclusive tivemos um tema nos dez primeiros lugares do “Todos no Top” da Rádio Comercial.

Alguns desses temas começaram a passar na TVI, que a partir dai passou a funcionar também como meio de divulgação do nosso trabalho, porque os temas começaram a ser incorporados nas telenovelas.

Quando começamos a pensar em fazer tournée tínhamos apenas 12 temas, que davam para aí para uma hora, se calhar nem tanto, era preciso esticar o tempo de concerto. Então, como gostava muito de um tema interpretado pela Lena d’Água, disse ao Manuel de Oliveira, que na altura ficou como produtor artístico da banda: “Vou fazer um cover do “Sempre que o amor me quiser”, da Lena d’Água”. Ele riu-se e respondeu: “Olha, nem por acaso, eu estou a começar a trabalhar com ela também, a ver no que dá”.
Então fui para casa, peguei na guitarra fiz o cover do tema e ele ouviu, gostou e mostrou à Lena d’Água. Ela adorou e perguntou se podia participar (risos).

Portanto, ela perguntou se podia participar na cover da sua própria música?

Exactamente! E fomos para estúdio com ela, gravamos em dueto. Esse tema chegou a estar em segundo lugar no Todos no Top e fez parte da nossa tournée. Entretanto os Sinal abrandaram um bocado, apesar de eu e o Miguel continuarmos a compor. Temos dezenas e dezenas de temas gravados em pré-produção para um disco. Ainda não surgiu a oportunidade para fazer isso, nem sei se irá surgir. Neste momento não temos datas mas está tudo aqui, se um dia der deu, se não der, paciência.

Falando na composição, como é o teu processo criativo? Como passas de uma melodia para uma letra, como é que nasce uma canção nas vossas mãos?

Não gosto muito de escrever, apesar de ter algumas coisas escritas por mim, não é o que mais gosto, prefiro compor. A forma como componho a parte musical, normalmente passa por pegar na guitarra, onde toco a sequência de acordes que me ande a bater na cabeça. Pego no telemóvel, ponho a gravar e toco aquilo que antes que me esqueça. Tanto acontece com as harmonias como com as letras. Um pequeno trecho, uma pequena letra que martela na cabeça. Isso até é bastante perigoso, porque às vezes andas com canções no subconsciente que até nem sequer são tuas. Vimos isso acontecer há muito pouco tempo com o Diogo Piçarra. Não tenho a certeza se foi isso que aconteceu, mas quando surgiu aquela polémica, revi-me na situação, porque muitas vezes andava com uma melodia qualquer na cabeça e não sabia de quem era. Se entretanto não aparecesse [a melodia associada a outro autor], partia do princípio de que era minha e tentávamos compor um tema a partir dela.
Eu fazia uma porção de uma sequência, envia-lhe e ele ia ouvindo. Nessa altura tinha um horário de trabalho muito estranho, só dava aulas à tarde e à noite estava sempre a tocar e a gravar. As vezes via o dia nascer a acabar um tema qualquer, que enviava ao Miguel para ele ouvir e começar a escrever letras e melodias. O Miguel ia para a escola para trabalhar a ouvir os temas, fazia isso durante algum tempo, escrevia por cima daquilo e no fim-de-semana a seguir vinha à minha casa onde eu tinha um pequeno estúdio e gravava a parte dele. Quando dávamos por ela, tínhamos temas feitos assim.

No processo de criação entra muito em jogo a química entre quem está a compor?

Sim, bastante. Entre mim e o Miguel as coisas funcionaram. Havia sempre arestas a limar, não era coisa que saísse sempre à primeira. Às vezes podíamos ter um desacordo em relação às tonalidades, partes de temas que não faziam sentido, ou que pensávamos que podiam ser diferentes aqui ou ali, mas existia uma proximidade que fazia com que trabalhássemos bastante bem.

Para além de músico, és professor de música. Como vês o ensino da música nos dias de hoje e a evolução que teve ao longo dos anos?

A maior dificuldade que tenho ao ensinar música a crianças é trabalhar com turmas grandes. É por isso que se acaba por optar pela flauta, é um instrumento que se compra por seis ou sete euros. É uma peça de plástica única, é fácil de transportar e serve para eles terem algumas noções do que é a música. Não é o instrumento ideal para começar, que seria o piano, ou os instrumentos de cordas, percussões e por aí fora. Já se começa a ver alguma mudança nesse sentido, mas ainda há um caminho a percorrer.

O que achas da forma como as crianças são expostas à música?

Por parte dos professores de música existe essa preocupação, não me parece que exista por mais alguém, excepto um pai ou outro que se calhar também tem o mesmo entusiasmo pela música que o professor. Nesses casos, os filhos têm oportunidade de ouvir música em casa porque os pais gostam e preocupam-se em dar diversidade aos filhos. Infelizmente, a música não tem um papel assim tão preponderante na nossa cultura como tem se calhar noutros locais, no entanto, estamos no bom caminho.

Há quem diga que nunca tivemos tantos talentos a surgir em áreas como a música clássica como hoje em dia…

Está-se definitivamente no melhor caminho. Eu não sou exemplo para ninguém porque quando era jovem, quando devia ter aprendido música, fugia de tudo o que fosse teoria. Só queria pegar na guitarra e dar uns toques. Acabei por fazer o percurso um bocado ao contrário; primeiro descobri a música e fascinei-me por ela e só depois é que eu fui aprender a teoria musical. Foi um pouco “Afinal isto soa assim porque é escrito desta forma”.
Pegando na tua questão, hoje em dia existem muito mais oportunidades do que as que existiam e a verdade é que a arte é hoje ensinada de uma forma completamente diferente: Antes começavas pelo solfejo e andavas de solfejo semanas, se calhar, e só depois é que se pegava no instrumento. Hoje tens que aprender a teoria, mas pegas logo no instrumento e começas logo a tocar nem que sejam coisas muito simples.
Aqui nos Arcos, há 20 anos só existia uma ou duas escolas de música, hoje existe infinidade de escolas e de escolhas desde o pré-escolar, onde os miúdos têm oportunidade de ter algum ensino de música também através da expressão musical nas actividades de enriquecimento curricular. Quando entram no preparatório, tem a opção de seguir para o ensino articulado, que é basicamente a uma substituição da disciplina de Educação Musical por uma disciplina mais completa onde eles recebem a formação e instrução musical numa escola paralela. Isso já existe aqui nos Arcos, com um custo associado, mas já existe.
Para além disso, existe a escola chamada Music Square, que é a minha, mas há também o Coral Himalaya, a Associação Musical Meninos do Vez, que fazem um trabalho fantástico, e muitos mais. Estamos numa terra de músicos, não faltam aí grupos e gente da terra a tocar.

Já houve tempos em Arcos de Valdevez em que, mesmo sem haver tanto sitio onde aprender, as bandas de garagem apareciam em todo o lado…

Em relação a isso, noto que tem havido um fenómeno aqui nos Arcos, nos últimos anos. Falo por aquilo que tenho visto dos miúdos que saem daqui, alguns deles vem aprender a tocar instrumentos, passados dois ou três anos conhecem outros miúdos aqui na escola que estão a aprender outros instrumentos, juntam-se e fazem uma banda.

Na verdade, é um processo muito semelhante ao de outras gerações, mas com melhores bases…

Concordo, e é o facto de haver aqui tantos músicos, que tornam o fenómeno um pouco hereditário. Nós vemos isto de geração em geração. O meu pai é músico porque o meu avô também o era. Para além disso, o facto de os colegas notarem evolução, traz entusiasmo e mais gente com vontade de aprender. É assim que se cria uma comunidade com interesse pela arte.
Para além disso, existem os grupos de baile, que acabam por dar oportunidade a que essa malta que anda a aprender música de forma mais informal possa enquadrar esse gosto de uma forma profissional. E juntar o útil ao agradável, porque acaba por ser um segundo emprego…
A par disso também existe um ensino mais clássico, refiro-me à escola da sociedade musical e a orquestra da banda que atravessa já muitas gerações e que tem tido uma figura preponderante que é o senhor João Costa, e que tem solidificado o ensino mais clássico nos Arcos.

Para além de tudo isso, há uma movida cultural diferente em Arcos de Valdevez. Estou a lembrar-me dos Sons do Vez, o concurso de jovens talentos…

É verdade, e o centro jovem tem criado uma tradição com esse evento. Há uma séria possibilidade de pegar nos miúdos e fazer um concerto, à imagem do que faz, por exemplo, a Escola do Rock de Paredes de Coura.
Mas há uma pessoa que também é muito importante, já que falaste no Sons de Vez, que é o doutor Nuno Soares, Director da Casa das Artes de Arcos de Valdevez.
Muita coisa se tem feito na Casa das Artes, chegamos a um ponto em que, ao contrário do que acontece em concelhos vizinhos, dificilmente se ouve a frase “aqui não se passa nada”: Todos os fins-de-semana temos, ou uma peça de teatro, ou um concerto, cinema, exposições, o que quer que seja. Estamos de tal forma habituados que já sabemos que no fim-de-semana há sempre alguma coisa a acontecer ali no auditório, muito por influência directa do Dr. Nuno Soares. Desde que veio para os Arcos, tem feito milagres pela exposição de diferentes formas de cultura e ajudou a pôr Arcos de Valdevez no mapa. O Sons de Vez tem uma cobertura a nível nacional, por exemplo.

O facto de se apostar na cultura ajuda no combate ao despovoamento do interior?

Não me parece que haja uma ligação directa. Não tanto como a criação de emprego, porque se as pessoas não estiverem emprego não vão ficar aqui. A fixação de pessoas no concelho tem mais a ver com a indústria, mas ajuda a melhorar a vida das populações e ajuda a que pessoas de fora queiram vir para cá. Tenho o exemplo de uma aluna, que é natural de Viana do Castelo, que anda a pensar mudar-se para cá. Há tempos disse: “Sinto que a vila de Arcos de Valdevez é muito inspiradora”.

Para fechar, o que planeias para o futuro…

Vou apostar cada vez mais na parte da produção em estúdio, quero investir financeiramente nessa área, apostar forte no estúdio, na produção e composição, quer para mim, quer para outros.

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