A Casa da Caixa

Em cada esquina te dobro, em cada esquina te encontro.

Falo da terra onde nasci e onde vivi durante vinte anos. Uma terra que revisito sempre que posso e onde deixei memórias felizes de uma infância e de uma juventude que, ainda hoje, partilho com a minha descendência. Ir aos Arcos é dia de festa.

Foi nesta casa que nasci. A esse tempo, a dependência da Caixa Geral de Depósitos funcionava no rés-do-chão e no primeiro andar morava a minha família, tendo por patriarca meu avô Jorge de Sousa Lobato, gerente da agência. Era o procedimento habitual das várias dependências que foram sendo construídas pelo estado novo.

Fotografia de Júlio Coutinho.

JSL iniciou as suas funções na CGD, em Melgaço, tendo-se deslocado para Arcos de Valdevez em 1929.
A agência dessa época, criada em 1927, funcionava no rés-do-chão das escolas primárias e na Praça Municipal, em imóveis alugados. JSL toma posse da chefia em 1929, cargo que tinha sido de Alberto Fontinha Alves Carrêlo desde a sua fundação.

Uns anos mais tarde, tendo conhecimento de um edifício que se encontrava à venda na referida praça, JSL enceta negociações com os então proprietários e apela à administração central no sentido de se construir, naquele espaço, o edifício-mãe.

A fotografia seguinte, obtida no Arquivo Municipal de Arcos de Valdevez, revela parte dessa casa. A sua datação será anterior a 1940, ano em que a CGD adquire o imóvel por escritura de 5 de março.

A agência sofreu várias modificações no rodar dos anos, como escreve JSL. E diz ainda:

A Agência era muito boa tanto para dois ou três ou quatro empregados, onde trabalhavam à vontade. Agora, com o desenvolvimento financeiro e social da população deste concelho, é bem pequena para os empregados que o serviço requer. Torna-se, por isso, necessário um edifício maior. Até para a espera reservada ao público. Qualquer pessoa o verá em certos dias… (datação pouco legível)

Havia ainda, no rés-do-chão, uma pequena sala para reuniões e o gabinete do gerente, que JSL mantinha vazio de seus pertences, já que os chocolates que ele ia dando aos netos os guardava na secretária que usava ao balcão, no atendimento público.

Quando, à tarde, eu lhe levava a merenda, então, sim, ia para o gabinete. Abria a pequena cesta de palha, estendia o pano sempre lavado e bebia uma chávena de leite com canela acompanhado de uns pequenos biscoitos, também eles com um leve travo a essa especiaria, em forma de caracol e que eu nunca mais vi. E o perfume daquelas merendas ficava no ar…

Jorge Lobato (segundo a contar de cima) com familiares na entrada da residência, 1953

JSL deixou a gerência a 24 de fevereiro de 1971 quando completou setenta anos de vida, tendo falecido em 1994.

Outras memórias ficaram sobre aquela casa. Permanecem no ar, nos quartos, no grande quintal, na escadaria de pedra, nas ruas circundantes, na praça.
No toque das ave-marias, no mês de maio, no cheiro a rosas da festa do Castelo, quando as janelas se enfeitavam com colchas acetinadas.

De canela e cetim eram feitos os meus dias. Dobram-se as memórias e nelas me encontro.

Recomendado:

0 comentários