PS/ A construção de uma consciência política

Um dia quis saber o que era ser de esquerda ou de direita. Que arbitrariedade era essa que dividia pessoas entre os da esquerda e os da direita, mais os da esquerda radical e os da direita reacionária, e os do centro e os do resto todo e os da beira da estrada. Eu que, por vício de profissão, estranhava uma divisão tão primária do Mundo, e duvidava que a verdade das coisas tivesse inclinações, entendia que ter um punho esquerdo é tão natural como ter um punho direito. Não ter qualquer um destes membros, no meu ofício, chama-se amputação. E apesar de me terem ensinado as diferenças entre o hemisfério esquerdo e direito do cérebro humano, também não é aí, pelos vistos, que se encontra a diferença entre o pensamento de esquerda e de direita. Ser de esquerda é outra coisa.

Alimentei esta dúvida durante anos e ainda demorei algum tempo até ter a veleidade de investigar. Foi enquanto procurava as diferenças entre esquerda e direita que descobri as subtilezas da vida. Descobri como os acasos iniciais se multiplicam como efeito borboleta e atravessam os séculos. E como, no produto final que nos chega desse bater de asas já pouco se percebe do movimento original. Percebi que estar à esquerda é muito mais a minha posição perante o próximo e perante a sociedade do que o lugar onde me sento numa bancada.

Na França da Revolução do Séc. XVIII[, os séquitos de maior fidelidade à monarquia absolutista, defensores dos privilégios feudais, aristocráticos e religiosos sentavam-se à direita de quem entra no parlamento francês da época. Eram aqueles que lutavam na assembleia pela manutenção da monarquia e dos privilégios reais à custa de um direito que lhes era concedido por herança, por apelido ou por descendência, sem mérito e sem valor e sentavam-se à direita do rei porque essa posição estava conotada com um suposto estatuto superior. Os da esquerda eram aqueles que não alinhavam com o status quo e reclamavam uma mais justa distribuição de regalias, um Estado Democrático e Constitucionalista, defensores dos ideais de Igualdade, Liberdade e Fraternidade da Revolução Francesa. Foram estes ideais que inspiraram as sociedades modernas na procura de maior justiça e equidade e, em conjunto com a Independência dos Estados Unidos da América, contagiaram os povos do Velho Continente na construção da Democracia.

A noção de esquerda e direita actual já pouco tem a ver com esta primeira catalogação ocorrida há mais de duzentos anos.
Hoje em dia, em pleno séc. XXI, esquerda e direita baralham-se nos símbolos e nos substantivos. Por exemplo, o símbolo do PCP é um punho direito cerrado, o do PS é um punho esquerdo cerrado, no entanto, são ambos associados à esquerda portuguesa. Para um norte-americano, socialismo e comunismo são praticamente sinónimos. Do mesmo modo, na antiga União Soviética, a sigla completa que a denominava era URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e era tão (ou mais) totalitária e déspota como a Monarquia Absolutista Francesa. Portanto, se olhássemos só à palavra e à sua origem, iríamos descobrir socialismo em todo o espectro político português, desde os óbvios PCP e BE, passando pelo PPD-PSD e até pelo CDS-PP (Centro Democrático e Social – Partido Popular).

A confusão aumenta quando comparamos a realidade política nacional com a europeia. O PS é, no Parlamento Europeu, pertencente à bancada dos “socialistas e democratas” ou “sociais-democratas”, enquanto que o PSD, (que é o partido português que tem “Social Democrata” no nome) pertence na Europa ao PPE (Partido Popular Europeu) em conjunto com o CDS-PP e os restantes partidos democratas-cristãos.

Parece um contrassenso, mas é fruto da história e da génese destes partidos. Quanto ao PSD a explicação é simples. O partido fundado por Sá Carneiro chamou-se PPD (Partido Popular Democrático) porque na febre político-partidária de 1973-76 outros partidos que nasceram e morreram em poucos meses, já tinham “registado a patente” de partidos social-democratas ou suas variações no nome e, só com a extinção destes em 1976 é que o PPD conseguiu alterar o seu nome para a intenção original dos seus fundadores.

De todas as descrições de esquerda e de direita que li, houve uma que me atraiu mais que todas e entronca com as razões mais humanas e primitivas para as posições sociais que os indivíduos assumem. É uma explicação mais sociológica do que política. Não tem a ver com partidos, mas sim com a condição humana e é, como todas as boas explicações, uma explicação simples. Tenta, se tal for possível, explicar a perspectiva do Ser Humano perante o próximo:

Ser de esquerda é acreditar que o Homem nasce livre e intrinsecamente bom, sujeito à sua circunstância, mas apto a desenvolver as suas capacidades se lhe forem concedidas as oportunidades. Ser de esquerda é acreditar no Progresso e lutar por ele. Ainda mais que isso, é garantir que, na busca pelo Progresso, ninguém fica para trás.

Escolhi o meu caminho. Vou pela esquerda.

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