O (Des)Cubismo de Mutes e a arte que não se vende em “feiras com comida”

Há uma fome de arte que não se mata com a “cultura do garrafão, do chouriço e do acordeão”. César de Barros Amorim é o “Mutes” de que já muitos ouviram falar e lhe conhecem a obra.

Nasceu em França em 1976 e levou com um país em remodelações em 1986, quando se mudou para Arcos de Valdevez, terra dos seus pais. Autodidacta, enquanto pintor é o pai do (Des)Cubismo, embora negue a proeza ou mesmo que a “criança” exista, mas foi em conversa com a sua filha, enquanto lhe tentava explicar a sua inspiração artística, que o conceito nasceu. E assim ficou até porque, “se procurar no Google” a palavra que desmonta o movimento artístico fundado por Picasso, é a Mutes que o motor de busca lhe recomenda que vá pedir contas.

Pela extensão da obra criada ao longo de 18 anos, mas também em jeito de catálogo, o pintor lançou o livro “RETROSPECTIVA 2000-2018”, apresentado na Casa das Artes de Arcos de Valdevez no dia 28 de Abril, a par de uma exposição que mostrou as suas obras mais conhecidas.

Antes dos seus considerandos sobre as telas repletas de cores e movimento, de linhas que negam entrar nas “caixas” que já existem para arrumar a arte, quisemos saber quem é o César Amorim que se veste de Mutes quando chega a casa depois do trabalho.

Foto © Mutes

O primeiro choque da chegada a um país diferente começou no televisor de uma tia. Em França, César viveu a sua primeira década olhando para um televisor “grande, a cores”, acreditando que toda a gente já via o mundo assim. Por cá era bem diferente: Além de pequena, a televisão era a preto e branco, com um inusitado filtro que distribuía as cores pela tela em barras de azul, amarelo ou vermelho, transformando qualquer personagem da novela da noite num género de pintura de Rothko (já que de pintura se fala), se algum dia o artista se lembrasse de introduzir figuras humanas às suas obras.

O estilo ‘rock n’roll’ também já lhe estava no sangue desde cedo. “Na escola eu era aquele aluno que só tinha um caderno, que estava sempre todo sarrabiscado, e os livros ficavam na sala, nunca perdi muito tempo a andar com eles de um lado para o outro”, confessa.

Mutes junto à tela: As mãos que dançaram, Acrilico s/ tela, 270 cm x 90, 2016. Foto © Rosa Barros.

Mais tarde “em finais de 90, depois de ter estado cinco anos a trabalhar em Guimarães”, César Amorim sente-se tentado a pintar depois de ver um filme sobre Jackson Pollock, o pintor americano que utilizava a técnica do drip painting e que passou a usar nas suas primeiras experiências.

Trabalhava numa instituição de cariz solidário quando fez a sua primeira venda e percebeu que a sua arte podia ser mais do que hobby ou decoração. Pintava sobre madeira, “os restos que havia por lá”, e ainda a tinta estava a secar quando uma professora viu os quadros e disse: “Compro-tos todos”. E assim, balançado pelo início da sua actividade enquanto pintor e pelo início do euro, pediu 600 euros. Seria 2001, mas a sua primeira venda, logo em euros, impressionou César Amorim.

Não podemos esquecer a música. Começou cedo a gostar de Rock, num tempo em que “felizmente ouvia-se música a sério, não havia reggaeton”, e ingressou nos Primitive Noise, ali a meio da década de 90.

Vingar na música, no entanto, era um exercício difícil. Havia os concertos de música moderna, mas tudo era mais complicado, inclusive arranjar material para poder sair à rua para tocar. “Estava a acabar umas disciplinas do 12º ano e a trabalhar numa fábrica à noite, para poder comprar o meu primeiro baixo e um amplificador”, recorda. Depois comprou um Super 5, mas essa história ‘já é outros quinhentos’.

Mutes no atelier. Foto © Inês Amorim.

Hoje, da música só as memórias: Das fanzines de música; das colectas com o grupo de amigos para juntar dinheiro e comprar o CD, que depois gravavam para todos; dos mais de 700 BLITZ [à altura jornal, sobre música] e do fascínio pelos discos em vinil, que ainda hoje guarda religiosamente no espólio de 6500 que foi construindo ao longo dos anos.

Ainda tem os instrumentos, mas não o tempo. “Tenho um trabalho de sete horas por dia, chego a casa, meto-me na pintura. Tenho quase mensalmente uma exposição, estou em várias exposições colectivas, nem tempo nem espaço, porque tenho as telas encostadas às paredes”, conta o artista.
Agora, o exercício é todo em torno das telas, que é quando César Amorim se transforma no Mutes que aperfeiçoa a sua desconstrução cubista.

“Todos os dias pinto um bocadinho. Já tive mais de cem telas pintadas, hoje tenho quarenta, mas não me importa se tenho muito stock, pinto sempre. Nas exposições anuais tenho de apresentar sempre algo novo. Ser pintor não é pintar dez ou vinte quadros e depois andar aí cinco ou seis anos com aquilo”.

Sobre o interesse pela arte nas suas diferentes manifestações, Mutes recordou as tertúlias aos fins de tarde na Casa das Artes, onde se reunia “série de pessoas a fazer coisas” nas artes, da pintura às performativas.

“Hoje existe essa fome e não há quem a mate, porque há pessoas a fazer, mas não há um espaço onde as pessoas possam juntar-se, tipo uma casa de artistas, uma oficina, uma casa para fazer coisas. Hoje em dia, tudo o que se faz aqui nos Arcos é muito individual e tem de estar tudo relacionado com a cultura do garrafão, do chouriço e do acordeão. Temos pessoas que trabalham com materiais, coisas interessantes, que são vendidas em feiras com comida”.

Mutes recusa vender arte “a granel” em contexto de festa gastronómica. “Eu se fosse para essas feiras pintar telas pequenas com as igrejas das freguesias todas, se calhar vendia aquilo a granel. Punha-me a pintar umas vaquinhas, umas igrejas ou um acordeão, vendia quadros a pontapé, mas eu faço arte, não faço decoração. Trabalhei muito e continuo a trabalhar, para ter dado o salto”.

Já expôs em Guimarães, no Mosteiro dos Jerónimos (Lisboa), em Espanha, Suiça, França, Londres e Suécia, sobretudo em exposições colectivas que lhe tem merecido credibilidade e prémios junto dos apreciadores de arte estrangeiros.

Mutes no Rio Vez. Foto © Jorge Silva.

Diz que “também há máfia na arte” e as incertezas relativamente ao sucesso de uma exposição são muitas, no entanto reconhece que “as galerias continuam a ser um belíssimo sitio para vender”. Além do reconhecimento que as melhores galerias podem trazer ao artista, pela carteira de clientes que têm, Mutes diz que é na galeria onde as telas “respiram” melhor. O autor, que pinta “três horas por dia”, também.

“Os quadros precisam de espaço entre eles, para respirar. O pintor também precisa de espaço entre obras para respirar, para pensar. Não tenho pressa. Gosto de pintar a crítica social e não me faltam elementos para poder pintar, mas a pintura não é produção em série. Quando queremos fazer a critica, colocar o dedo na ferida e fazer as coisas bem, temos de pensar bem o que vamos fazer. É o que define aquilo que é arte daquilo que é um adorno de decoração”.

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