Limpeza nas margens do rio Vez arrasa habitat de várias espécies

Ataque à biodiversidade ou gestão de espaços verdes?

A recente limpeza das margens do Rio Vez, na zona urbana de Arcos de Valdevez, está a indignar os internautas que, através das redes sociais, têm manifestado o seu descontentamento pelo “corte indiscriminado” da vegetação.

Bernardete Amorim, professora do Agrupamento de Escolas de Valdevez, coordenadora da rubrica Biodiversidade do Vez no Jornal AVV e administradora do grupo com o mesmo nome na rede social Facebook, denunciou através daquela plataforma a “irresponsabilidade” dos responsáveis pelo serviço de limpeza deste espaço verde.

“Tinha prometido não voltar a criticar, mas vejo tanta irresponsabilidade que me custa um bocadinho”, apontou a professora e defensora da biodiversidade das margens do Rio Vez, pedindo especial atenção para o troço do rio que alberga espécies que têm o rio como habitat. A biodiversidade neste contexto tem sido o foco do seu trabalho fotográfico, divulgado nas redes sociais e apresentado pelo AVV desde o lançamento da edição.

 

“Um dos poucos exemplares do Lírio-amarelo-dos-pântanos todo mutilado…, dia 6/6/2018. Foto © Bernardete Amorim

 

Lírio-amarelo-dos-pântanos no dia 27-05-2018. Foto © Bernardete Amorim

 

Bernardete Amorim diz que é tempo para o serviço de gestão dos espaços verdes “repensar as coisas melhor” no momento de fazer limpeza das margens, notando que o corte “em alturas do ano que não fazem sentido”, nomeadamente na Primavera, estação em que há reprodução das espécies. “Cortam tudo até á água, indiscriminadamente”, acusa.

“Eu não quero entrar em políticas, apenas vou manifestando a minha preocupação. Se queremos ver a vila sem biodiversidade e sem vegetação, rodeamos tudo de cimento e deixamos de ter essa preocupação”, sublinhou.

 

Bernardete Amorim fotografou há dias um Lagarto-de-água, um dos primeiros que viu este ano… A limpeza destruiu todo o seu habitat.

 

Lagarto-de-água fotografado dia 1 de junho por Bernardete Amorim.

 

Sobre o controlo de vegetação nas margens, Bernardete Amorim diz que é possível um controlo mais atento aos avanços da natureza, sem o impacto visual e de agressão à flora do rio que a limpeza efectuada representa. “Não podemos deixar a natureza proliferar a seu bel-prazer, eu entendo, mas as intervenções que são feitas têm de assegurar a biodiversidade da zona, na minha opinião. Cortem em alturas que não põe em causa a biodiversidade, que não esteja em causa a reprodução das espécies. Desta forma, mal cresce uma planta e está cheia de flor, cortam logo tudo. Só ficam as árvores”.

Contactado pelo AVV, Luís Macedo, responsável pela Divisão de Ambiente e Serviços de Gestão da Câmara Municipal de Arcos de Valdevez, esclarece que a área intervencionada pelos serviços de limpeza da autarquia – que não depende da Divisão que representa – é tratado como “jardim numa área urbana, não há espécies protegidas. O troço que atravessa a zona urbana é uma área artificializada, não é da galeria ripícola do Rio Vez, cujas margens têm sido conservadas e até tem estado receber acções de reforço dessa galeria”.

O responsável da Divisão de Ambiente nota que há uma exclusão do troço urbano do rio, que coincidirá entre a zona do Ribeirinho (Parada) e o Parque de Exposições (Guilhadeses), onde a gestão das zonas verdes, inclusive as que ladeiam as margens “são tratadas como jardins e aquilo que se faz é o corte da relva e infestantes”.

“Já não há habitats considerados importantes como há no resto do rio, onde a galeria ripícola tem sido conservada”, frisou o engenheiro. Uma gestão diferente da que terá o restante troço do Rio Vez, considerado Sítio de Interesse Comunitário da Rede Natura 2000.

Margem esquerda do Rio Vez, dia 6/6/2018. Foto © Bernardete Amorim

Também ouvido pelo jornal AVV, João Manuel Esteves, presidente da Câmara Municipal de Arcos de Valdevez, manifestou a sua preocupação com as “diferentes percepções” acerca da biodiversidade nas margens do Vez, assegurando que a galeria ripícola está acautelada.

“Percebo algumas preocupações, partilhamos das mesmas preocupações, e temos de ter o cuidado de que quando se fazem as limpezas se preserve o meio ambiente”, ressalvou o autarca, alegando no entanto não ter conhecimento do tipo de limpeza efectuada nas margens e eventual gravidade da intervenção.

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