A “parafernália” arquitectónica: Há um ‘feísmo’ generalizado a que só o tempo pode decretar o fim

Fernando Cerqueira Barros

Fernando Cerqueira Barros, de 31 anos de idade, natural do Lugar de Penacova (Vale, Arcos de Valdevez) e a residir no Porto, conhece o território e as diferentes heranças culturais e de desenvolvimento económico do concelho como poucos.

Depois do mestrado em Arquitectura e pós-graduação em Estudos Avançados do Património Arquitectónico pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, é doutorando em Arquitectura e Investigador no Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo no grupo PACT (Património da Arquitectura, da Cidade e do Território), na mesma universidade.
Desenvolve estudo sobre o território e o património arquitectónico da zona transfronteiriça, entre o Norte de Portugal e a Galiza, onde procura compreender os processos de construção do território “no designado ‘tempo longo’, conceito que se aplica sobretudo às culturas tradicionais que se desenvolveram numa matriz rural, pré-industrial, e por isso mesmo com uma série de pressupostos relacionados com as condicionantes locais, sociais, tecnológicas ou económicas”.

Já muito mudou no torrão minhoto, território integrado na vasta região genericamente conhecida como noroeste peninsular, “fortemente influenciada, a partir dos séculos XVI/XVII pela introdução do cultivo do milho maiz, vindo das Américas”, como esclarece o jovem arquitecto. Hoje, a agricultura (já menos o milho, cada vez mais o vinho) ainda são parte da economia regional, mas à luz do cultivo para sobrevivência de outros séculos, no país (e no mundo), já se alteraram bastante as práticas de produção, integradas numa economia cada vez mais global.

Poderão práticas ancestrais estar em desuso, ou o Norte do país e o concelho arcuense em particular é um dos últimos redutos onde o legado histórico ainda faz sentido como prática? Para Fernando Cerqueira Barros, os hábitos de cultivo e criação de gado ainda em prática no território são “a sua grande particularidade cultural e paisagística, no contexto regional, sendo estas atividades do sector primário importantíssimas na manutenção das paisagens, entendidas não apenas como componente estética, mas sobretudo como manifestação cultural da relação do homem com o meio, embora compreendendo as necessárias adaptações dos regimes agro-pastoris às diversas condicionantes da contemporaneidade”.

Tal como os concelhos vizinhos de Melgaço, Monção, Ponte da Barca, Terras de Bouro ou Montalegre, onde o uso sazonal do território, materializado “na relação entre aldeias – ou inverneiras, em algumas comunidades – e brandas, ou currais, baseada numa cultura transumante” deixou traços característicos na paisagem, também Arcos de Valdevez se transformou no último século.

“Se pensarmos no que era viver num território como Arcos de Valdevez há 50 ou 100 anos e o que é viver hoje em dia, estamos perante duas situações praticamente incomparáveis. Marcas culturais e tecnológicas como as estradas e os meios de transporte, que trouxeram uma lógica diferente na mobilidade; a electricidade, a televisão, ou mais recentemente a internet alteraram profundamente o modo de vida das pessoas, na sua relação com o mundo. Em sociedades tradicionais e pré-industriais, nomeadamente nas aldeias mais remotas, à chegada dessas “novidades” somam-se ainda todos os efeitos culturais da emigração, que de repente conecta uma aldeia remota com Paris ou Nova Iorque, e que como todos sabemos, pelo menos desde o período dos descobrimentos, transformou Portugal num dos pioneiros da globalização”.

Mas a evolução, concretizada no acesso a cultura e educação, higiene e saúde, mobilidade e conforto que a segunda metade do século XX trouxe ao mundo, não veio para todos do mesmo modo. “O resultado actual dessa evolução não é igual em todo o território, porque as próprias condicionantes iniciais eram distintas”, indica Fernando Barros.
As áreas industrializadas, “localizadas preferencialmente na zona de vale” pela facilidade de acesso e circulação, terão sempre como complemento as áreas de montanha, vocacionadas sobretudo para atividades como pastorícia e a pecuária, a agricultura, e outras funcionalidades compatíveis, nomeadamente a conservação da natureza, ou o turismo, o que não tem necessariamente que representar um “desequilíbrio” na vida económica e social do concelho.
“São realidades distintas, não sei dizer se a expressão correcta será desequilíbrio, ou antes diferenciação. São tipos de vida e actividades profissionais diversas, num entorno geográfico também diferente. Não necessariamente um melhor do que o outro, até porque actualmente, quer em termos económicos, quer em termos de acessibilidade, as distâncias encurtaram-se muito. Preocupa-me mais a quebra demográfica, e o facto da resposta do Estado ter tido como consequência o desinvestimento em áreas como a saúde ou a educação, o que retirou das áreas rurais uma série de valências (como por exemplo as Escolas), ou que diminuiu a proximidade a serviços de saúde”.

Em termos arquitectónicos, que concelho temos hoje? As casas de pedra granítica, recurso que brotava da terra e foi base das construções minhotas durante séculos, foram sendo tomadas pelos materiais que a evolução, o conhecimento de quem emigrava e a economia permitiu experimentar. Talvez por toda essa vantagem, hoje há um “feísmo” generalizado a que só o tempo pode decretar o fim por mudança de gostos e ‘modas’ arquitectónicas, como nota Fernando Barros.

“Aquilo que se observa no concelho é o que se observa um pouco por todo o país (excepção feita talvez ao Alentejo), até porque muita da construção que se fez nas últimas décadas, pelo imediatismo das soluções, e por uma certa ausência de reflexão, não está propriamente dentro do alcance disciplinar da arquitectura; estou a falar de casos de construção por vezes desregulada, alguma auto-construção, transformações e adaptações sem critério, ou de novos edifícios que não apresentam grande relação com o local, nem com a envolvente, num processo generalizado de rejeição das formas tradicionais de fazer arquitectura que terá, sensivelmente, cinco ou seis décadas. O que na Galiza chamam de “feísmo”, que deve ser analisado sob um ponto de vista abrangente, mais social do que estético, e que no Norte de Portugal também prolifera”.

Adrão (Soajo), Arcos de Valdevez. Foto © Fernando Cerqueira Barros, 2018

O abandono da pedra e da madeira nas construções e a adopção “pouco cuidada de uma série de materiais industriais, que retiraram a identidade à arquitectura local” anarquizou o processo de construção de um lugar para viver, facilitando a possibilidade de arriscar “volumetrias” e materiais com os quais a natureza não consegue formar um padrão harmonioso. “Coisas por vezes estranhas e desconexas, bizarras até, que associaríamos inicialmente ao chamado fenómeno da ‘casa do emigrante’ (que no fundo embora a outra escala, não é muito diferente da rejeição, à época, que tiveram as chamadas “Casas de Brasileiro”), mas que de há muito ultrapassaram essa camada social e se generalizou a todo o processo construtivo corrente. Com toda essa parafernália, perdeu-se um pouco aquela ideia de homogeneidade que sobretudo os núcleos rurais tinham e lhe davam uma certa ideia de unidade, identidade e relação cuidada com o território”, apontou Fernando Barros.

A razão pode estar em parte no modo como fizemos a integração Europeia, mas ainda há esperança para o edificado arcuense (e do país em geral), se quisermos olhar para o edificado com melhores olhos. “Em Portugal acabamos por adoptar muitas normas técnicas e regulamentares desenvolvidos para o Centro e Norte da Europa, que não estão adaptados à nossa realidade social e climática, e que acabaram por ditar a extinção de muitas tipologias e técnicas tradicionais de construção. Ao mesmo tempo, em poucas décadas, o país recuperou um atraso secular em termos infraestruturais, o que originou desequilíbrios na aparente harmonia formal de um território que até então mudava lentamente. Era importante fazer o caminho inverso, de reaprendizagem de certas lógicas do passado, porque acredito que há muitos valores que lhe estão associados e que seriam importantes para a arquitectura do presente e do futuro, e também para que a intervenção no edificado existente fosse feita com mais critério”, considerou ainda Fernando Barros.

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