O século XIX e a Imprensa Arcuense

O Rotativismo, As Invasões Francesas, a Coroa no Brasil.

Replicado daquilo que, poucos anos antes, fora idealizado em Inglaterra, o rotativismo começou a ser seguido no ordenamento político português como panaceia para todos os males que nos afligiam, como remédio santo para as incongruências de uma monarquia decadente, como bálsamo para as chagas de uma nação apodrecida pela inanição, irremediavelmente arredada dos ventos de mudança e modernidade que sacudiam a Europa da época.

Durante cinquenta anos bem medidos, de 1851 a 1903, altura em que um dos partidos da alternância governativa — o regenerador — se esboroou em insanáveis dissidências, que Portugal viveu sob a batuta de dois partidos hegemónicos, o regenerador e o progressista, permutando entre si os lugares dos ministérios, enredando-se à vez nas mordomias do poder, locupletando-se com os resultados de voraz corrupção, mostrando-se incapazes de superar os problemas vividos pelo país, particularmente os deste seu povo, desde sempre martirizado e mergulhado na mais aviltante penúria.

Mas o que é o rotativismo? Qual a sua influência na realidade do país e de que forma os efeitos dessa corrente política supostamente redentora se reflectiram na vida da comunidade arcuense e em particular na imprensa desta terra?

O ROTATIVISMO

De forma a ultrapassar os frequentes becos sem saída em que o sistema politico português se via enleado, as forças que comandavam os jogos do poder, com o beneplácito óbvio do monarca, resolveram introduzir no normativo político português o rotativismo, que mais não era que uma cópia do sistema adoptado em Inglaterra.

E em que consiste o rotativismo? Baseia-se na existência de dois partidos hegemónicos (Regenerador e Progressista), os únicos que passam a governar, alternando-se no poder.

Todos os restantes partidos passam a desempenhar um papel meramente simbólico e decorativo, remetendo-se à tarefa de doutrinamento dos seus militantes.

A corte no Brasil

O século XIX começara com os exércitos napoleónicos a arremeterem-se, decididos, pelas nossas desguarnecidas fronteiras adentro (30 de Novembro de 1807) e, ante a iminência da derrocada da soberania portuguesa, já a Coroa, um dia antes, em estupendo e aplaudido lance antecipatório, achara bem avisado mudar-se com armas e bagagens para a colónia do Brasil, onde haveria de chegar a 23 de Janeiro de 1808. Era perto de uma trintena de navios, naquela que fora a maior onda migratória jamais vista pela humanidade.

Depois de uma escala de um mês em Salvador da Bahia, o numeroso préstito assentou arraiais no Rio de Janeiro, com uma rainha louca à cabeça, um príncipe regente doido por coxas de frango, sessenta mil livros e um séquito de umas quinze mil pessoas originárias da mais irretocada fidalguia, do clero mais arrivista, da mais garbosa plebe, sempre disponíveis, diga-se em abono da verdade, para satisfazerem os desvarios de tão aristocrático conclave. Para trás tinham ficado, entretanto, uma medonha praga de piolhos vorazes, uma colónia de esfaimadas ratazanas, que, com o beneplácito não se sabe bem de quem, conseguiram concertar esforços para infernizar a vida à comitiva real, durante os cinquenta e cinco dias que durou tão atribulada viagem.

Com esta rocambolesca e dispendiosa manobra dissuasória, desta intromissão aventureira por terras do Atlântico Sul, evitou a Coroa real portuguesa que Bonaparte, apesar de três tentativas frustradas, içasse a bandeira imperial no Terreiro do Paço em Lisboa, e os nossos aliados e amigos ingleses se viessem a assenhorear do Brasil, empreitada que andavam a cerzir havia já algum tempo.

Da revolução às guerras liberais

Em 1820 eclode na cidade do Porto a Revolução Liberal. Impulsionada pelas ideias emancipadoras do iluminismo, tinha como objectivo pôr termo ao absolutismo em Portugal e proceder à instauração do liberalismo. D. João VI, agora rei por morte de sua mãe, colocado diante desta inopinada perspectiva, temendo que eventuais mudanças pudessem reflectir-se no seu estatuto de privilégio e lhe virassem o reino do avesso, resolve retornar à metrópole na tentativa de pôr um ponto final à insurreição.

Só que a dinâmica da revolta tornara-se já imparável. As ideias inovadoras de que o movimento se reclamava e os resultados que prometia, eram demasiado apelativos para que o povo não deixasse de se assenhorear desse legado e ajudasse a engrossar o caudal de um rio que se vinha tornando, a cada dia que passava, numa torrente incontrolável. O absolutismo foi então abolido, o liberalismo instaurado e a primeira Constituição do país ratificada. Estávamos em 1822.

Quando se pensava que a situação política do país decorria, finalmente, em mar de calmaria, eis que em 1826 a morte de D. João VI vem lançar Portugal numa grave crise dinástica, em que seus filhos, D. Pedro e D. Miguel, se digladiam pela sucessão ao trono.

Com visões políticas antagónicas — o primeiro defendendo o liberalismo, o segundo, apoiado pelos senhores da terra e pela igreja católica, do lado da monarquia absolutista —, não demoram a iniciar a contagem das pontas das baionetas, entrarem em conflito aberto e lançarem Portugal numa guerra fratricida que dizimou o país entre 1828 e 1834, os seis anos que durou o conflito, mas que veio permitir à corrente liberal assumir as rédeas do poder.

Pode pois dizer-se, com propriedade, que, com a instauração do liberalismo, o século XIX abriu, embora timidamente, os caminhos da modernidade ao país, muito embora com elevados custos. Os franceses, protagonistas da invasão mais devastadora que Portugal sofreu em longos séculos de História, delapidaram grande parte das nossas riquezas; a mudança da Corte para o Brasil levou-nos por igual caminho e a guerra civil foi o remate cruel para mais de trinta longos anos de infortúnio, que resultaram na exaustão do nosso tesouro, de muito do património nacional e de incontáveis vidas humanas.

Do fontismo ao ultimato inglês

Foi, contudo, durante o reinado de D. Maria II (1826-1853) e a regência do seu viúvo D. Fernando II, através da visão inovadora de António Maria de Fontes Pereira de Melo que se referia a Portugal como sendo um país no qual as povoações não se comunicavam e os seus habitantes não conviviam — sintetizando nesta frase todo o atraso em que Portugal vivia mergulhado e a abissal distância que nos separava da Europa desenvolvida —, que se deram as transformações mais radicais na rede viária e ferroviária do território, arrastando atrás de si o fomento agrícola e o arranque de uma indústria nascente, projectando o país na via de um desenvolvimento acelerado.

Haveria de ser através dessa dinâmica que o governo de Fontes Pereira de Melo começou a gerar no país o clima de mudança e de modernidade, que nos permitiu aproximar de uma Europa com a qual nunca nos fora consentido comparar.

Foi durante esses tempos, principalmente nas duas últimas décadas do século, que os Arcos viram, literalmente, o progresso entrar-lhe pelas portas dentro. Foi por essa época que o centro da vila ganhou os contornos que actualmente tem, que daquilo que eram quintais agrícolas se criou o Campo do Trasladário, se abriram ou alargaram novos arruamentos, se reconstruiu o edifício dos Paços do Concelho, se edificou o teatro Teixeira Coelho e o hospital de S. José, que se substituiu a velha ponte medieval por uma nova travessia. Foi ainda por essa altura que se inaugurou a estrada que liga os Arcos a Ponte da Barca. Enfim, acompanhando o país, a vila, também ela se transformava, se alinhava com os novos ventos que sopravam.

Os abalos da monarquia

Muito embora os factos relevantes que o país experimentou não se possam resumir ao que atrás fica descrito, acontecimentos houve, a partir da década de quarenta do século XIX, que vieram abalar os alicerces do sistema monárquico: O primeiro aconteceu em 1846 e teve que ver com a proibição dos enterros nas igrejas por determinação do gabinete de Costa Cabral. Este facto, que punha em causa um negócio viçoso da igreja católica, levou-a a apoiar — se não a acicatar — a violenta contestação popular que se seguiu, particularmente na província do Minho, e que acabou por se traduzir naquilo que ficou conhecido como a Revolta da Maria da Fonte, originando séria repressão das forças da ordem e acabando por se constituir um motivo de forte contestação ao governo e à própria monarquia.

Em 1851, como medida tendente a minorar a instabilidade governativa e evitar a frequente queda dos executivos por motivos eventualmente fúteis, que escondiam, muitas das vezes, inconfessados interesses das elites que gravitavam em torno do poder, foi instituído o rotativismo, sistema baseado na prática inglesa que consistia em serem escolhidos os dois partidos de maior representatividade para se permutarem no governo. Este sistema, pela prática ter provado ter mais inconvenientes que vantagens, viria a ser abandonado em 1903 pelas razões atrás aduzidas.

Um outro acontecimento que veio influenciar qualitativa e quantitativamente o status quo da sociedade portuguesa, foi o Acto Adicional de 1852 que passou a estabelecer o sufrágio directo, permitindo que um número muito superior de eleitores participasse nos sufrágios e possibilitando, dessa forma, que a correlação de forças até aí existente viesse a ser alterada.

Já perto do fim do século, em 1890 — e depois do Conferência de Berlim (Novembro de 1884/Fevereiro de 1885) em que Portugal participou ajudando a esquartejar o continente Africano e participando na sua divisão a régua e esquadro pelas principais potências europeias — o rei D. Carlos I, numa medida que mereceu o imediato repúdio generalizado da população portuguesa, capitulou em toda a linha perante o Ultimato Inglês que exigia que as forças expedicionárias portuguesas abandonassem os territórios situados entre Angola e Moçambique e que o Reino Unido reclamava como seus.

Apesar do rude golpe que essa retirada do apoio popular representou para um sistema que agonizava, a monarquia ainda resistiria a uma revolta republicana no Porto, a 31 de Janeiro do ano seguinte, que, parca de efectivos e parca de estratégia, não reunia condições para vingar. Ficou, contudo, esse aviso de que o descontentamento estava presente nas massas populares, só faltando quem as guiasse. Seria necessário esperar 17 anos para que tudo se precipitasse. Com o assassinato do rei, a 1 de Fevereiro de 1908, estava dada a machadada final na monarquia. Que demoraria ainda mais 2 conturbados anos a ser enterrada. A 5 de Outubro de 1910.

A imprensa nos Arcos e o rotativismo

O primeiro jornal de que há notícia a ser impresso nos Arcos, provavelmente saído do prelo mandado fazer por Francisco Xavier Monteiro, foi o Sentinela do Vez, fundado em 1862, e de cuja existência não se registam provas materiais, apenas as referências que a ele faz José Cândido Gomes no seu livro As Terras de Valdovês, vol. II, pp.108-116.

Por essa razão de ordem prática se passou a considerar O Atalaya do Vez, por que dele sim, existem exemplares na Biblioteca Nacional em Lisboa, o primeiro jornal da nossa vila. O seu número 1 viria a sair para a rua em 12 de Junho de 1870.

Ao avançar com este longo enquadramento histórico, que não deixa de ser uma breve síntese dos acontecimentos mais relevantes para o nosso país ocorridos num século tão dinâmico, tão intenso e tão cheio como o XIX, mais não se pretende que estabelecer uma espécie de movimento sincrónico que venha emparedar — a partir do momento em que isso se torna possível — a história do nosso país com a neófita imprensa arcuense.

E se se insiste em invocar o rotativismo como hipotético sistema redentor da convivência parlamentar em Portugal, com reflexos na própria governação (e o seu falhanço não virá agora a propósito discuti-lo, nem, particularmente, apontar as suas gritantes fragilidades), é porque este sistema de alternância do poder entre as duas forças mais representativas da sociedade veio criar uma dinâmica tão poderosa na vida local, que a sua imprensa, teve necessariamente de navegar nas águas agitadas dessa mesma prática, vindo a resultar daí um período de discussão fecunda entre os membros mais destacados da comunidade.

Coincidente com o último período do rotativismo (1878-1903), destaca-se, nos Arcos, a existência de dois jornais representantes das duas tendências da alternância governativa: por um lado, o jornal O Arcoense (1886-1910) órgão oficioso do Partido Progressista, e, do outro, o Jornal dos Arcos (1896-1903), defensor das ideias regeneradoras.

Investigar e estudar a imprensa arcuense, o percurso destes dois jornais em particular, a sua linha editorial, os seus textos e até o percurso dos seus colunistas, neste período tão rico e simultaneamente tão conturbado da vida portuguesa, pode dar-nos a consciência plena do valioso contributo que trouxeram ao enriquecimento da sua terra e das suas populações.

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