Uma história d’água: ou como vender a Água Pública em dois tempos

Jean-Luc Godard e François Truffaut realizaram em conjunto uma das mais belas e revolucionárias curtas-metragens do cinema, “Une Histoire d’Eau” (1958), sendo um dos filmes percursores da chamada Nouvelle Vague (Nova Vaga) que revolucionaria o cinema francês e europeu, bem como muitas mentalidades dos anos sessenta até aos dias de hoje em virtude do seu caráter contestário e favorável à libertação do amor. Em “Uma História d’Água” – a sua tradução para português – Godard e Truffaut aproveitam uma inundação provocada pelo Rio Sena em Paris, inundações que são recorrentes ainda na atualidade, para contar a história de uma estudante que sai de casa e atravessa Paris por entre pontes de tábuas e assentes em barris, e muita água, até que encontra um jovem que a seduz e acaba por levá-la a passear de carro por caminhos enlameados e alagados em busca de um momento adequado para um beijo. Toda a história é narrada pela própria estudante sem recorrer ao discurso direto, e por isso, também, inovadora e revolucionária no cinema da época.

Mas o que me fez ocorrer esta curta metragem não foi o cinema, nem o amor, mas sim a própria água, em primeira e última instância a génese e o hiperónimo de Vida, e foi essa de que se tratou nos dias mais recentes no concelho em que vivemos, Arcos de Valdevez, onde se abriu mais uma vez a comporta da privatização da água – depois da concessão da água em alta no mandato anterior – dando azo à possibilidade de que ela nos seja retirada através de um processo cheio de fintas e dribles que levam à concentração de poder sobre a água em mãos alheias à esfera pública, retirando poder de decisão às Assembleias Municipais e de Freguesia e, por evidente consequência, retirando-a das mãos de todos nós, como aconteceu já com a saúde e outros serviços que tendem a desaparecer do concelho em que vivemos, houve, felizmente, outra visão do assunto da água nos nossos caros vizinhos de Ponte da Barca.

Ora aparenta-se muito simples e fácil o lavar as mãos da responsabilidade da autarquia no respeitante ao abastecimento e controle da água que a todos nós deve pertencer, dando o passo decisivo para a privatização, ao entregar 51 % do capital ao Grupo Águas de Portugal, SA – empresa detida em 81% pela Parpública – Participações Públicas, SGPS, S.A. sendo esta uma sociedade gestora de participações sociais de capitais exclusivamente públicos, que atua em processos de empresas que estão a ser privatizadas e acompanha a reestruturação de empresas que tenham sido transferidas para a sua esfera; além disso, atua na gestão imobiliária e também na promoção de parcerias público-privadas em diversos sectores de atividade, apoiando os processos de privatização, no quadro aprovado pelo governo, acresce que as missões cometidas à PARPÚBLICA pelo diploma que a constituiu desenvolvem-se através dos mecanismos próprios de uma SGPS, ou seja, da sua carteira de participações e através da prestação de serviços à tutela – e pela Parcaixa (via CGD) que detém 18% do capital e creio não justificar demais esclarecimentos sobre a mesma.

Ora, posto isto, creio que para bom-entendedor meia-palavra deveria ter chegado para impedir a aprovação em Assembleia Municipal deste projeto que faz da Água Pública história, clarifico, com esta votação a Água Pública Arcuense e dos demais concelhos aderentes a este engodo privatizante, passou à história. Ou seja, insistindo com aqueles que ainda não perceberam, a Assembleia Municipal de Arcos de Valdevez, através da sua maioria absoluta PSD e com a conivência e apoio do CDS (que conveniente), aprovou no passado dia 29 de junho uma minuta de contrato em que vendeu a água que é de todos nós a uma empresa que retalha e privatiza empresas de Estado. Há alguém que ainda não tenha percebido?

Bom, como se isso não bastasse, terem concessionado aquilo que pertence a todos nós, mamíferos, peixes, aves, plantas e árvores, cães e gatos incluídos; foram gritantes as incongruências diversas das declarações da Presidência da Câmara enquanto se debatia com imensas dificuldades em inundar, ou por outra convencer, dentro da maioria que a suporta e com a real soberba dos 42 anos de maioria PSD – quase sempre absoluta – aqueles que menos incautos e menos ingénuos hesitaram em, ou se opuseram terminantemente a dar o seu aval a tal ventura do capital. Infelizmente, e, como não poderia deixar de ser num concelho em que sobrevive o cavaciquismo, e salvo algum ato de consciência de última instância e emancipação de cidadania dos arcuenses, até ver, venderam a nossa água de beber e fica tudo, ou quase, passivamente quieto e calado.

Mas que importa, quando não tivermos água, ou dinheiro para a pagar, podemos sempre ver “Une Histoire d’Eau” no Youtube gratuitamente, mesmo sem legendas, e ter aquela sensação de quem se sente inundado de coisas belas, sem nos molharmos com a água que se mete pelos canos da política arcuense.

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