Entrevista a Alberto Silva: “Ainda temos muitas ideias para concretizar” na Rádio Valdevez

A história da Rádio Valdevez passa, naturalmente, por ele.
Com 50 anos de vida e 30 de radialista, Alberto Silva é hoje um importante promotor do sentimento de ser arcuense de uma comunidade que vibra com as transmissões festivas e com o futebol distrital ao fim-de-semana e é um sentimento que chama a si próprio, embora seja natural de Águas Santas (Maia).

Longe da terra-mãe, já palmilhou milhares de quilómetros de território alto-minhoto e admite ainda ter o mesmo fascínio pela actividade que tinha nos seus primeiros dias de rádio. Por isso após o período de ausência a que se viu obrigado por motivos de saúde, promete voltar às emissões abrindo “as portas às nossas comunidades espalhadas pelos quatro cantos do mundo e às nossas associações”.

À sua maneira, será uma forma de a Rádio Valdevez, sua casa desde finais dos anos 80, agradecer a onda solidária que as associações e comunidades da diáspora manifestaram quando uma intempérie tentou ‘calar’ a rádio.

Alberto Silva entrevista Cesária Évora (2009). Foto arquivo Jornal AVV © DR

Quisemos conhecer melhor o homem por detrás da voz inconfundível da Valdevez e certificar-nos de que, apesar do período de ausência forçada, há projectos para o seu regresso à rádio… E que, contrariamente ao que vaticinava a canção dos “The Buggles”, nem o vídeo nem a internet ‘killed the radio star’.

Jornal AVV (AVV) – Como começaste a trabalhar em rádio?

Alberto Silva (AS) – Tudo começou como penso que acontece com todas as pessoas quando se agarram a um sonho. O ‘bichinho’ da rádio já nasceu comigo, pois um dos primeiros presentes que tive enquanto criança foi mesmo um transístor, e mal eu sabia que este pequeno objecto viria a mudar radicalmente a minha vida.

O dom também já estava presente, porque os velhinhos que iam assistir aos treinos do clube da terra (Pedrouços Atlético Clube) solicitavam-me para fazer os relatos dos treinos, porque achavam-me piada. E assim foi. Eu devorava relatos de futebol e especialmente os relatos de hóquei em patins, que naquela altura que se jogavam às noites.

AVV – Ainda tens alguma memória do dia em que começaste, que programa ou emissão fizeste?

AS – Muito dificilmente. Comecei com 12 anos, em brincadeira, a fazer relatos de Hóquei quer no Porto, quer na Amadora.

AVV – Nem a propósito, antes da rádio e dos jornais, passaste pelo Serviço Militar. Isso ajuda-te a manter o espírito de sacrifício em prol de uma causa, ou o que significou a vida militar para ti?

AS – Passei pelos Comandos, uma tropa de elite que infelizmente continua nas bocas do mundo pelos maus motivos, mas recordo que só vai para lá quem quer. Isso são contas de outro rosário, como se costuma dizer, mas ter passado por lá ajuda a ultrapassar muitas barreiras, e essa foi uma delas.

Alberto Silva a entrevistar António Costa. Foto arquivo Jornal AVV © DR

AVV – Como é que surge a Rádio Valdevez no teu percurso pelo Alto Minho?

AS – Surgiu um convite para a Rádio Valença, para fazer um programa nocturno, musical, com um conteúdo super romântico… e colou. A voz não era má e gostaram de mim, até que a Rádio Ecos da Raia, de Monção, me veio contratar e onde acabei por ficar durante oito anos a fazer de tudo um pouco. O destaque era o programa da tarde, o “Ecos da Música”, que tinha na realidade muita audição. Pelo meio, e sabendo que na informação local temos de nos desdobrar em várias áreas, fui pivô das tardes desportivas, relator, enfim, foi quase a transição para um dos jornalistas a tempo inteiro na estação.

A minha vinda para a Rádio Valdevez foi muito curiosa. Tinha sido suspenso da [rádio] Ecos da Raia por ter ido trabalhar no meu dia de folga (um sábado), pois um colega que tinha entrado para a rádio há pouco tempo não estava a dar conta do recado na transmissão em directo de uma das edições do Rally Lampreia, então ligou-me e lá fui eu.
No dia seguinte, um sujeito que foi colocado pelo Comendador Gomes (Samarra) chamou-me ao escritório e suspendeu-me por ter ido trabalhar no dia de folga, tirando o valor da transmissão a quem o merecia, dizia ele

Uma semana depois, uma comitiva de Arcos de Valdevez (não sei eu porque raios já sabiam) foram propositadamente a Monção convencer-me a mudar o rumo e assim foi. Estou eternamente agradecido a essas pessoas: Ao padre Areeiro, ao João Costa, ao António Cruz… peço desculpa se me esqueci de alguém.

Alberto Silva e António Campos. Foto arquivo Jornal AVV © DR

AVV – Como é a experiência de chegar a um concelho e ter de o conhecer a partir da rua onde se pernoita pela primeira vez?

AS – É esquecer durante um par de anos a terra onde estiveste anteriormente. Amigos, familiares, ritmos, enfim, desligar um interruptor para de imediato ligar outro. Depois é uma questão de nos integrarmos na sociedade da terra para onde vamos, manter esse sacrifício de olhar em frente e pouco a pouco, abrem-se novas portas e reabrem-se as que se mantinham fechadas. Felizmente sempre fui muito sociável e as dificuldades foram bem contornadas. E obviamente que estou satisfeito com o facto de ter muita gente de bem (e não só), que gosta de mim.

AVV – Fazer rádio ainda te encanta, ou já houve momentos em que pensaste que estavas melhor a fazer outra coisa?

AS – Não, nunca me passou pela minha cabeça fazer algo diferente. Surgiu a imprensa escrita, mas é muito diferente, a rádio é a minha vida.

AVV – Ao longo dos anos já muito se vaticinou sobre o futuro da rádio, no entanto, ainda há casos de sucesso, quer a nível regional, quer nacional. Em algum momento temeste que o vídeo, ou a internet, ‘killed the radio star’ [matasse a estrela da rádio]?

AS – Não, acredita que não. Existem muitas rádios a transmitir via net mas, e como tiveste a oportunidade de testemunhar, esta onda de solidariedade deu para demonstrar o carinho que as pessoas têm para connosco.

Alberto Silva e Daniela Mercury (2009). Foto arquivo Jornal AVV © DR

AVV – Dos Discos Pedidos ao desporto, o que é que resulta melhor? A Rádio Valdevez tem sabido cativar um público mais jovem, sem perder os já fiéis ouvintes que têm na rádio uma companhia?

AS – A interacção com o ouvinte é o que dá mais resultado. Conheço casos de rádios que eliminaram das suas grelhas programas do género e acabaram por fechar portas. Temos que dar ao ouvinte o que ele quer, a rádio existe para os ouvintes. Por mim, tenho o meu “Guia do Rock”, o que já não é mau.

AVV – Já que falamos de programas míticos, os discos pedidos são uma curiosa herança que ainda tem público. As pessoas ligam realmente para dedicar canções, ou é um género chat de rede social que a população usa para falar com os radialistas e trocar cumprimentos com a comunidade?

AS – As redes sociais vieram acrescentar muito à definição e realização de muitos programas, mas as pessoas ligam na mesma, mesmo através das várias plataformas que a net oferece.

AVV – O que é que ainda te estimula mais fazer em rádio? As manhãs frias ou chuvosas de Outono/Inverno que passas em reportagem, nos jogos da Distrital, ajudam a manter a chama da comunicação activa?

AS – É muito difícil. O que mais me cativa é o que a própria rádio nos oferece. Adoro chegar ao meu posto de trabalho, verificar o que tenho para fazer durante o dia, e o bom disto tudo, é que há sempre algo diferente para fazer. Nunca existe stress nesta profissão, só se as pessoas se acomodarem a uma forma mais desinteressada de trabalhar nesta área, porque as notícias estão sempre a ser actualizadas.

AVV – Na altura em que enfrentavas um problema de saúde que urgia resolver, um raio num posto emissor soma mais um obstáculo na tua vida e da equipa da Rádio. O que é que se pensou naquela altura, ao subir a Padroso e ver a dimensão dos estragos?

AS – Eu nem precisei de subir ao local para ver o que tinha acontecido. O José Rocha e o José Manuel Aguiã alertaram-me do que tinha sucedido e pusemos mãos à obra. Com a ajuda dos nossos colaboradores, amigos, emigrantes, Juntas, empresas, deputados municipais e autarquia – com o apoio dado dentro das regras da nova lei da rádio, que muitos parasitas cá do burgo ainda não sabem – resolvemos a terrível situação. Deu muito trabalho? Claro que deu, mas fiquei satisfeito e ao mesmo tempo orgulhoso desta terra.

AVV – Além da criação de uma conta solidária, houve festas de angariação de dinheiro e uma recolha de apoios, na qual tiveste uma participação activa. Foi uma jornada custosa?

AS – Houve uma envolvente solidaria que até a mim me surpreendeu. Não os vou mencionar porque tenho medo de me esquecer de pessoas importantes para esta causa, mas tenho que agradecer a todos eles e dizer que se não tivessem esta abertura, a rádio teria os dias contados. Assim, estamos a trabalhar para um rol de ouvintes que não nos dispensam, e isso é gratificante.

AVV – Quando voltares definitivamente ao estúdio, o que é que ainda gostarias de pôr em prática na rádio ou na imprensa local?

AS – Vamos abrir ainda mais as portas às nossas comunidades espalhadas pelos quatro cantos do mundo e às nossas associações, para divulgar as suas actividades. Temos na realidade muitas ideias e se tudo correr bem, vamos concretiza-las.
Quero agradecer a este novo órgão de comunicação social, que nunca são demais, por me dar esta oportunidade e desejar longos anos ao Jornal AVV.

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