O concelho de Arcos de Valdevez, S. Bento e a Europa 

O Dia do Concelho, em Arcos de Valdevez, comemora-se no dia de S. Bento e tanta devoção é lhe prestada que temos dois – S. Bento de Ermelo e S. Bento do Cando – os quais acabam por convocar muitas outras figuras da história cristã, a qual contribui também para a construção da história arcuense. E esta é uma história que se iniciou muito antes do Recontro de Valdevez, episódio lendário no edifício da nossa identidade como pátria, mas que não consome toda a riqueza, valia e diversidade encantadoras que o nosso território e gentes têm para oferecer ao mundo.

Curiosamente, S. Bento é também o padroeiro da Europa, esse espaço cuja fronteira com a vizinha Espanha, tantos arcuenses, a salto, de carro ou de camioneta, transpuseram milhares de vezes em busca de um sonho, em busca de uma vida melhor e com eles levaram um pouco de Arcos de Valdevez.

Assinalar o dia de qualquer concelho impõe sempre que, partindo do presente, se lance um olhar sobre o passado, que é a nossa raiz, e um outro sobre o futuro. Um futuro que, in casu, transporte também em si a revisitação das raízes arcuenses, a nossa identidade, feita de mulheres e homens, que lavraram o campo, malharam o milho na eira, vindimaram o vinho, criaram a empresa, construíram escolas, protegeram as aldeias dos incêndios, ergueram igrejas e santuários, dançaram no rancho e tocaram nas bandas de música, educaram filhos e tomaram contas de netos, partiram para a capital, para o Brasil, para a Venezuela, para a França, Estados Unidos ou Canadá, que inscreveram o nome de Arcos de Valdevez na Poesia, na Literatura, no Direito, no Desporto, na Indústria, na Agricultura.

O futuro do nosso concelho constrói-se no presente e este, tal como S. Bento, é também europeu. E é europeu porque comunga dos mesmos objectivos e preocupações. É europeu, desde logo no investimento que os fundos comunitários nos proporcionam e cujos resultados em Arcos de Valdevez são bem visíveis e que visam assegurar a coesão territorial ; é europeu na implementação de uma estratégia demográfica que combata a desertificação e o envelhecimento, que preserve a memória, a história, a cultura, o saber, o conhecimento; é europeu na defesa da sustentabilidade, em especial ambiental porque se percebeu já a finitude dos recursos, a escassez dos meios e a fragilidade de algumas soluções industrial e agrícola; é europeu na solidariedade que manifesta sempre que acolhe os migrantes e reintegra os emigrantes.

Porém, ainda não é um concelho europeu, no que às boas práticas políticas de independência e imparcialidade públicas diz respeito.

Não é crível que um Europeísta, convicto e cioso do seu código de boas condutas que vigora no universo da Administração Pública da União Europeia, tolerasse que um cargo político autárquico pudesse ser ocupado por quem é, simultaneamente, responsável em instituições privadas, as quais beneficiam de subsídios financeiros atribuídos pelos primeiros; Não é crível, que um europeísta admitisse que o Presidente da Câmara ou um qualquer Vereador pudesse propor e aprovar a atribuição de subsídios a entidades privadas de cujos órgãos sociais eles próprios fazem parte. E não seria nem tolerável, nem admissível, porque entenderia estar em presença de um conflito de interesses, situação completamente inaceitável, como por tantos foi pública e recentemente denunciado perante a contratação do ex-Presidente da Comissão Durão Barroso pela Goldman Sachs. O princípio é o mesmo, os actores e o palco são diferentes. Porém, será que nesta peça, o concelho não quererá ser completamente europeu?

Recomendado:

0 comentários