A natalidade e o sexo dos anjos

A natalidade e a descentralização de poderes foram os dois temas que, conforme o Jornal AVV deu nota na altura, Francisco Araújo, presidente da Assembleia Municipal de Arcos de Valdevez, resolveu abordar, na intervenção que fez na sessão solene, um dos eventos com que a edilidade decidiu comemorar o Dia do Concelho.

Como sem natalidade não poderá haver uma verdadeira política de regionalização que se sustente, não será de grande utilidade clamar pela desconcentração de poderes se não existir população sobre quem esse benefício se vá reflectir.

O exagero é propositado, mas serve para aquilatar a dimensão que o problema poderá atingir. Aliás, o próprio Francisco Araújo não deixou de enfatizar essa nota, afirmando acreditar que sem o rejuvenescimento necessário estes territórios irão deixar de ter vida num horizonte bem próximo.

Parece que o diagnóstico está já há muito traçado, não sendo necessário ser-se um grande especialista em estatística, para nos inteirarmos da situação e da premência em invertê-la de forma radical. Bastará saber ler a crueza dos números, seguir a sua cronologia desde o primeiro censo geral da população feito em 1864 até ao que nos é revelado no último, o de 2011, colher todos os ensinamentos que eles claramente nos querem revelar e passar à fase seguinte — seguramente a mais hercúlea de executar — para que se possa ultrapassar esta complicada questão. Só dessa forma se poderá enfrentar o futuro com mais confiança e alguma serenidade. Pelo menos no que respeita a esta matéria.

Poderá perguntar-se agora: terá a população arcuense consciência da gravidade da situação? Tentou já alguma vez a autarquia, da qual não se poderão excluir as juntas de freguesias, as escolas a todos os níveis, os jornais, a rádio — tão pressurosa em transmitir directos de festivais que não nos dizem nada — sensibilizar as pessoas, os jovens, os próprios idosos, para um problema que, já se adivinhando desde a década de 60 do século passado, faz definhar a passos de gigante a comunidade e há-de conduzir, a médio prazo, ao mais completo esvaziamento do território de homens e mulheres?

Aquilo que neste momento parece assistir-se é toda a gente, onde se deverá, obviamente, meter à cabeça a Câmara Municipal, a empurrar com a barriga o problema, à espera de que esta questão se resolva por si própria e sem se perceber que o adiamento do seu remédio irá afectar a todos de igual modo, abrangendo ricos e pobres, mas principalmente os velhos, condição à qual, inexoravelmente, estaremos quase todos condenados a atingir.

Mas passemos aos números, ao que eles significam e para que realidade poderão apontar no futuro. Refira-se, entretanto, que se baseiam nos censos gerais da população efectuados no nosso país desde o primeiro ano em que foram feitos, 1864, até 2011, o último que foi levado a cabo. Estão abrangidos os 10 concelhos do distrito de Viana do Castelo, dizendo respeito à população residente na altura em cada concelho e, em tabela à parte, ao número de habitantes por grupos etários.

Com excepção de Caminha, Ponte de Lima e Viana do Castelo, todos os outros concelhos viram diminuir o seu número de habitantes desde o primeiro censo, 1864, até ao último em 2011.

Desde 1950, todos os concelhos — exceptuando Viana, que viu crescer a sua população em 18 394 habitantes —, registaram um decréscimo populacional. Que foi menor em Ponte de Lima (461) e maior em Arcos de Valdevez, que sofreu uma diminuição de 16 479 habitantes. Sem dúvida o caso mais grave em todo o distrito, a pedir um estudo rápido, com maior rigor e profundidade.

Refira-se que o concelho dos Arcos, o maior do distrito em área, 448,60 km2 é o que tem, a seguir a Melgaço, a menor densidade populacional, 51 habitantes por km2 contra 38,7, o que faz com que a desertificação se faça sentir de forma ainda mais acentuada.

Interessou estabelecer um marco no censo de 1950, para tentar verificar até que ponto o início dos ciclos migratórios para Brasil, colónias de África, Angola e Moçambique principalmente, Brasil, Estado Unidos da América e Canadá influíram na descida da população do nosso distrito. Com efeito, a partir daí, tirando os casos de Melgaço e Viana do Castelo (certamente por motivos diversos) em que, no censo seguinte de 1960, se verificou um acréscimo populacional, nos restantes oito concelhos do distrito se registaram decréscimos na sua população residente.

O caso particular de Viana do Castelo, o concelho mais populoso do distrito, onde habitavam, à altura do último censo, 88 725 pessoas, mais do dobro do primeiro censo de 1864, e 36% da população total do distrito, tem visto, de forma consistente, o aumento dos seus residentes devido a factores que poderemos associar, numa primeira fase, à actividade pesqueira, a partir de 1944 à criação dos Estaleiros Navais e desde o início do século com a criação dos diferentes pólos industriais na zonas periféricas do concelho, que absorveram parte da mão-de-obra excedentária dos estaleiros, entretanto privatizados.

Aquilo que se constata, pelas conclusões a que se pode chegar resultantes dos números trabalhados, é que a tendência é de redução generalizada (com excepção, para já, de Viana) do número de habitantes do distrito. Acentuada nos casos de Arcos de Valdevez — o mais preocupante —, Monção, Melgaço, Paredes de Coura, Ponte da Barca e Valença. Mais moderadamente como em Vila Nova da Cerveira e Caminha, e, de forma residual, como é patente na amostra de Ponte de Lima.

O Quadro II, que propositadamente restringimos a dados sobre o nosso concelho, por se nos assemelhar como o mais agudo de todo o distrito no respeitante à natalidade, ao abandono acelerado do campo e ao envelhecimento da população, evidencia uma violenta diminuição de habitantes nas três primeiras faixas etárias e um acentuado crescimento dos maiores de 65 anos.

Se, como ainda bem recentemente, a reunião em torno da questão do abastecimento de água, nos mostrou um grupo de câmaras municipais, de forma tão empenhada, diligente e célere, preocupado com a defesa dos interesses das populações, seria de toda a utilidade que o voltassem a fazer agora, não para discutirem entre elas o sexo dos anjos, mas para que constituíssem grupos de trabalho pluridisciplinares, com especialistas de provas dadas em todas as áreas envolvidas, que por momentos esquecessem os enchidos, os carnavais, as senhoras da lapa com doze dias de bombos e forrobadós, as provas de vinhos e se dedicassem com afinco, sem dribles linguísticos, sem manobras de diversão, aos verdadeiros interesses daqueles que estão cá em baixo, à espera que quem manda seja merecedor da confiança que neles foi depositada.

 

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