Que floresta queremos para a próxima década?

Espaços Florestais Multiusos

Atendendo às tão famosas e simultaneamente difamadas “Alterações Climáticas”, os Espaços Florestais irão desempenhar cada vez mais um papel mais relevante. Hoje, porque a sua destruição leva, primeiro ao desaparecimento de importante reserva e sumidouro de carbono; segundo, porque o uso do território liberto pela desflorestação é utilizado maioritariamente na produção de carne e consequentemente na produção de emissões crescentes de metano (que contribui para agravar o fenómeno); terceiro e não menos relevante, pela destruição devastadora da biodiversidade, ficando o planeta menos diverso, logo mais pobre. Mas não menos importante ainda, as florestas têm funções de protecção do solo e da água, limitando as condições do regime torrencial e aumentando a permeabilidade do solo, ou seja a acumulação de água. Em determinadas regiões onde existe perigo de derrocada ou de avalanche, a floresta desempenha enorme importância de protecção e salvaguarda dos aglomerados populacionais e das actividades económicas.

Quando o espaço florestal fruto das sucessivas e cada vez mais frequentes catástrofes naturais, é reduzido pelo efeito intempérie ou de ocorrência de temperaturas naturais anormais para a época do ano (ou para a latitude no planeta), assistimos também à redução significativa da sua área. Nuns casos são ventos ciclónicos, ou tempestades de neve, que arrancam ou derrubam enorme quantidade de árvores. Noutros, são extensões de milhares de hectares que são destruídas pelo fogo sem que o poder de combate humano o consiga suster. O que é um facto é que está a acontecer e teremos que aprender a viver com isso, sabendo olhar para a natureza não coma ideia de que a conseguiremos “domar” ou “domesticar”, mas antes que somos obrigados a aprender a com ela conviver sem a destruir ou molestar, sob pena de isso se virar contra nós mesmos.

Feitas estas considerações de princípio, passemos a analisar o papel da Floresta no contexto das sociedades contemporâneas.

Primeiro que tudo, há que clarificar á priori, que o homem não é um animal da floresta, antes da “clareira”. Logo, o homem desde que deixou de usar as cavernas como local de acolhimento e abrigo, deixou para sempre a orla florestal. O que aconteceu em Portugal e na Califórnia o ano passado e na Grécia este ano, demonstra que a floresta não é espaço onde o homem deva habitar. O habita humano precisa de espaço suficiente para salvaguardar danos causados pelos incêndios florestais.

Historicamente a floresta num País como o nosso serviu vários interesses da nação. O Pinhal de Leiria foi mandado plantar para suster as areias do litoral e simultaneamente proteger as culturas dos ventos marítimos carregados de sal. A floresta de azinho e de sobro, bem como o carvalhal, serviram a indústria naval que garantiu o trabalho da expansão marítima portuguesa. Mais tarde, o pinho e posteriormente o eucalipto serviram a implantação de uma forte indústria da celulose e papel. Hoje, a floresta de sobreiro além da tradicional indústria da cortiça, serve sofisticadas indústrias tecnológicas na área do aero-espacial ou do automóvel. Ou seja, o espaço florestal organizado em sistema de exploração industrial e de monocultura especializada, tem prestado serviços á comunidade e servido a produção de matérias-primas para a actividade económica nacional.

Esta produção quando organizada de forma eficaz do ponto vista técnico e económico ,não tem sofrido grandes acidentes provocados pelo fenómeno incêndios. Já no que toca aos fenómenos meteorológicos extremos é outra coisa, já que a sua aleatoriedade não é controlável nem prevenível. Mas esta forma de produzir apenas comtempla a presença humana como fonte de trabalho (e cada vez menos), assim como atira para segundo plano o respeito pela biodiversidade.

No entanto, a floresta pode e deve ser fruída pelos humanos, quer em termos meramente de lazer, desporto, turismo, educação ou investigação. Ou seja, a floresta além destas funções tem ainda as de produção, protecção e conservação, sem esquecer ainda as agro-silvopastoris, cinegéticas e recolectoras. Temos assim uma floresta de uso múltiplo.

Depois dos anos sessenta do século passado, a floresta estratificou-se e m floresta de produção e de conservação/protecção da natureza. A floresta de conservação passou a servir simultaneamente os interesses de lazer e turismo, que antes era ocupada pelos parques e matas urbanos.

Os parques urbanos, que tinham surgido desde o período romântico do século XIX até aos anos 40-50, como Parque da Pena/Sintra, Bom Jesus em Braga, a Mata do Bussaco ou Monsanto (por esta ordem temporal) são exemplos das primeiras tentativas de usufruto da Floresta como espaço multiusos, com a tal condição de fruição e cuidado humano. Os espaços florestais multiusos procuraram organizar novas centralidades urbanas a exemplo do Central Park em Nova Iorque inspirado também ele no Hyde Park em Londres. O jardim de Versailles para deleite e gozo das elites nobres e burguesas, perdeu requintes barrocos e democratiza-se para ser usufruído por todos. Os espaços passam a ser pensados como complexos de lagos, jardins, bosques, bosquetes e espaços de diversão que permitiam às famílias urbanas usufruir de um espaço de lazer principalmente de fim-de-semana.

Mais tarde, os grandes espaços de protecção inspirados fundamentalmente em parques pensados para protecção da fauna dos grandes mamíferos de África ou das áreas geológicas vulcânicas e geológicas como Yellowstone nos EUA, inspiraram os grandes parques nacionais. De seguida vieram as áreas protegidas de menor dimensão que procuravam conservar e proteger algumas espécies ou habitats ameaçados. Em qualquer dos casos, a convivência com o homem era sempre pensada como excepcional e periférica, ao contrário dos parques urbanos ou das matas românticas das fases anteriores.

Na contemporaneidade tenta-se recriar o espaço florestal de uso múltiplo em que se procura compatibilizar a produção florestal de material lenhoso como matéria prima, com a protecção e conservação de ecossistemas e da biodiversidade, bem como a protecção e segurança civil e ainda o usufruto agro-silvopastoril e cinegético com os usos de lazer e turismo. Volta a valorizar-se o papel do homem na centralidade da estratégia de conservação e valorização, a paisagem também como valor a preservar e valorizar. A intervenção humana é reduzida, mas essencial para tornar simultaneamente agradável ao utilizador o uso-fruto, bem como a manutenção das características identitárias tão próximas quanto possíveis das naturais. A floresta tem características de produção e até de produção certificada, ainda que não intensiva.

Os miradoiros, os pontos de interpretação da paisagem e do espaço, os observatórios de aves ou de fauna, os parques de merendas, os parques de diversões, os locais de visita arqueológica /histórica, os trilhos organizados e certificados, os hortos participados (onde se pode ser madrinha/padrinho de uma árvore, ou explorar uma pequena horta biológica); os parques de animais domésticos, etc.. são agora as principais atracções.

Estes espaços de uso múltiplo situam-se fora dos centros urbanos, mas não longe das suas periferias. São habitados, mas tem uma gestão criteriosa da sua capacidade de carga, ou seja, existe um limite para a recepção de visitantes, quer diária quer sazonalmente. Estas condição exige que além de um rigor técnico elevado, exista uma forte gestão participativa por parte dos habitantes e vizinhos.

Na próxima década muito iremos ouvir falar deles, quer pela sua condição de grande facilidade de uso, amigabilidade, proximidade aos espaços urbanos e ainda, porque libertarão as áreas protegidas da pressão do excesso de visitantes, o que lhes permitirá dar aso às suas funções mais nobres: reservar os habitats da carga turística.

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