Festas do concelho

Habituei-me a crescer em torno das festas do concelho. Desde que nasci para o mundo, desde que me conheço.

Sei que as festas eram uma vez por ano, mas sei também que elas integravam, para nós crianças, uma espécie de calendário litúrgico que começava com o Carnaval dos carros alegóricos nas ruas, dos dominós no baile dos bombeiros, e, quarenta e sete dias depois, se prolongava com a morte e a ressurreição de Cristo, pela Páscoa adentro, se espraiava, mais lá para o meio, pela época balnear do rio das nossas ilusões e fantasias, continuava com o início das aulas nos primeiros dias de Outubro, para, por último, dar os seus derradeiros suspiros ao serem avistadas as primeiras neves, lá em cima, nos cumes da serra, prenúncio do fim de ano e abertura da estação das prendas trazidas pelo Pai Natal.

Figura bonacheirona essa, refira-se, apresentada ao mundo por um líquido bom para desentupir canalizações, a Coca-Cola, e que nós descobrimos, em êxtase, como quem reinventa o caminho marítimo para a Índia, não passar da criação fantasiosa de uma civilização que se servia das suas coevas tradições pagãs para substituir um Menino Jesus demasiado precoce para entender e propagar o conceito da oferta e da partilha. Com a cumplicidade camuflada dos nossos pais, sublinhe-se.

Eram três dias de excitação pela novidade que se repetia todos os anos, em que a única coisa realmente nova eram as iluminações do sr. Vilaça de Braga, que se excedia e esmerava para que não fossem iguais às dos anos anteriores, e, muito de vez em quando, víamos aparecer na vila um carrossel em 8 que representava, como dois e dois serem quatro, a ruína financeira de toda a ganapada. Era uma excitação exacerbada por viajarmos naquele monstro mecânico, que rangia por todos os seus interstícios a velocidade vertiginosa, só lhe faltando cuspir fogo das entranhas com porcas, parafusos e freios, tudo à mistura.

A barraca dos matrecos do Zezinho das farturas fazia questão de estar sempre presente, para gáudio dos seus inúmeros e fieis clientes, provenientes de todas as posições sociais, como o proprietário enaltecia, envaidecido, com inusitados salamaleques, ao receber algum convidado mais ilustre no seu modesto domicílio e ganha-pão.

Para além dos coretos para as bandas, estrategicamente colocados em frente aos Serviços Florestais, à volta dos quais se concentravam magotes de melómanos entendidos, gente que gostava mesmo daqueles compositores com nomes esquisitos como o Manuel de Falla, o Joly de Braga Santos, o Ígor Stravinsky, o Sergei Rachmaninoff  e gente assim esquisita que devia passar os seus tempos livres, na rambóia, a tocar piano até às tantas. Depois, ainda havia a barraquinha da roleta e das rifas com o ratinho da índia, que era tudo uma vigarice pegada pois o roedor, amestrado como era do conhecimento dos mais espertos, ia para o buraco onde a dona pusesse um bocado de queijo. E o prémio saía à casa, claro.

O programa das festividades era, na prática, sempre o mesmo para início; uma salva de morteiros pela manhãzinha para nos acordar, a costumeira arruada com uma banda de música — normalmente a dos bombeiros, que era da terra e por isso mais barata — que aproveita ter de passar pela Praça do Município para apresentar cumprimentos às excelência que estivessem de serviço ao hastear da bandeira. E depois, por aí fora até domingo, era sempre a mesmíssima coisa, pois o dinheiro da comissão de festas não era elástico.

Pelo meio havia uns concursos pecuários organizados pelo Grémio da Lavoura do sr. Aventino Saraiva, uns certames de vestidos de chita a enaltecer a pobreza e a humildade, qualidades que o regime do dr. Salazar acompanhava na exaltação, a evidenciar que a nobre condição de pobre nunca teria sido factor impeditivo para que as raparigas deixassem de andar bem vestidas; uns desfiles etnográficos para mostrar as nossas seculares tradições, os nossos carros de bois aparelhados com montes de tralha em cima, à mistura com um homem a tocar concertina e umas senhoras de Rio Frio a fingirem que fiavam cânhamo, que nada mais é senão canábis, segundo os cânones actuais; na Ínsua, à noite, uns programas de variedades com um ou outro artista famoso, acompanhado por músicos da Orquestra Ligeira da Emissora Nacional, apanhados à sorrelfa a mendigar trabalho na Estação do Rossio ou na de Santa Apolónia em Lisboa, e depois, sempre o mesmo fogo preso na ponte e as serenatas com barcos de remos que nunca ninguém teve a coragem e o bom senso de afundar e nos quais a única coisa que variava, ano após ano, era o tipo de esferovite com que se esculpia a bonecada.

Esgotavam-se as festas. Virava-se a página e lá ficávamos nós à espera que a derradeira folha do calendário mudasse, de forma a que pudéssemos reiniciar o ciclo da liturgia e ficar à espera, na esquina do tempo, das mesmas festas num novo tempo.

Felizmente que hoje tudo é diferente, não é?

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