O Estranho Caso de Windblow

Quis o acaso da vida que uns nascessem em berços de ouro e outros em berços de palha, não somos todos paridos pelas mesmas virgens, e essas há-as mais abastadas e menos abastadas.

Na Casa de Windblow vivia a família Cobles, gente de posses e educação privada, plena de boas tradições e casamentos de conveniência, como de resto o são todos os casamentos. Windblow era um espanto arquitetónico inserido no meio da cidade de Lisboa, numa zona chique da capital portuguesa, tão chique que para suportar a sua elegância proeminente e a das suas 12 assoalhadas, mais águas-furtadas, se fazia servir por 12 lacaios e 6 criadas, isto claro está para servir a aí residente família Cobles, composta pela matriarca Dona Raimunda, já com os seus 80 anos e viúva de Dom Cobles – falecido há umas duas décadas num caso de envenenamento que nunca havia sido esclarecido –; pelo seu filho único Dom Francisco Cobles e sua esposa de conveniência, Dona Sara, uma virgem muito abastada pelos seus 90 quilos de massa procriadora e herdeira de uma fortuna calculada em três prédios na baixa da capital e umas 500 moedas de ouro cunhadas com a sua própria cara e versadas de um brasão adquirido a uns nobres falidos após o regicídio de 1908. Esse metal brilhante teria sido acumulado nos tempos em que os nazis exportavam o ouro dentário para Portugal afim de obter divisa estrangeira que viria a ser utilizada para as megalomanias imperiais que o mundo conheceu nas décadas de 30 e 40 do século XX. O morgado havia sofrido um acidente vascular cerebral que o tinha atirado para uma cama ainda nos seus quarenta e poucos anos, mas, apesar do pouco sexo que Dom Francisco e Dona Sara haviam chegado a praticar, tinham nascido, quase que por obra divina, duas crianças de sexos opostos, Ricardo e Teresa, que como seria de esperar se formaram com distinção na Universidade Privada de Lisboa a troco de umas 50 moedas de ouro que a conveniência do casamento de seus pais havia saldado.

Ricardo, o primogénito, tornara-se Engenheiro Civil, apesar de nunca ter assinado um único projeto de engenharia, e fazia-se orientar com grande habilidade nos meandros da sociedade política lisboeta, mas era um irascível e defendia grandes causas de caridade em favor dos mais desfavorecidos cidadãos da cidade das sete colinas. Havia conseguido imiscuir-se num partido emergente emanado de um grupo de cidadãos, fidalgos do burgo, que apregoavam defender causas de ocasião como a habitação dos periquitos do Jardim da Estrela, das pombas do Alto da Ajuda, da Associação dos Dependentes de Vista Grossa e outras causas em voga por essa altura e que o Engenheiro Ricardo Cobles defendia com acérrima valia e conquista, em sede da Assembleia do Município para a qual havia sido eleito e onde pontificava com discursos de enorme demagogia.

A rapariga, Teresa Cobles, havia emigrado com um canudo de Relações Internacionais, primeiro para a Holanda onde se casou por amor ao dinheiro de um conde em segunda linha de sangue da coroa dos Países Baixos, tendo-se divorciado por conveniência de segundas núpcias com um industrial da Baviera, que não sendo conde, tinha sido bem-aventurado num negócio capitalista de importação e exportação de ovas de esturjão enlatadas com prazos alargados, e enriquecido num negócio privado de gestão de águas e resíduos em regiões atrasadas que lhe garantia um benefício de 5.000 libras de ouro anuais, apesar das despesas de investimento efetuadas em tijolos e pedra com os caciques representantes das localidades que o negócio envolvia.

Por altura do verão do ano de 2018, de vosso senhor Jesus Cristo, o Engenheiro Cobles participou de uma conferência da Associação dos Dependentes de Vista Grossa onde conheceu então uma figura algo peculiar. Sentado na plateia diante de si enquanto discursava pelo direito à habitação das pessoas com problemas de vista grossa, na segunda fila, sentava-se um cavalheiro com uns óculos escuros redondos, bem subidos na cana do nariz, que parecendo à primeira vista cego, via, afinal, muito melhor que a maioria dos presentes. Na sua mão esquerda havia apenas três dedos e dois tocos, bem como uma bengala de madeira com um círculo de diamantes cravados logo abaixo do encaixe do punho, que saltaram à vista do Engenheiro Cobles, assim como se diz das pegas que bicam as pratas, provocando um olhar porfiador no palestrante.

“Senhor Engenheiro, o meu nome é Vincente e sou advogado!”, apresentou-se-lhe o homem da bengala no fim do discurso e após os cumprimentos dos líderes da Associação das Pessoas Dependentes da Vista Grossa a Cobles. “Muito prazer, reparei que se manteve atento durante o meu discurso, Doutor Vincente. Mas ao que vem?”, questionou o Engenheiro Cobles. “Não ouvi uma palavra do seu discurso, as retóricas políticas não me aprazem. Venho-lhe falar de Windblow.”, Cobles franziu as sobrancelhas revelando desconfiança das palavras do Doutor Vincente e com alguma acidez nas palavras inquiriu, “O que tem o senhor a ver com a Casa de Windblow!?”. O Doutor Vincente encostou a bengala cravada com diamantes abaixo do punho a uma cadeira ali próxima, dirigiu a sua mão esquerda com três dedos e dois tocos ao bolso interior direito do seu terno, e retirou um documento dobrado em dois que entregou às mãos do Engenheiro Cobles.

Um parágrafo saltou de imediato aos seus olhos:

“Em caso de minha morte deve ser dividido meu património por entre os dois meus filhos, Francisco Cobles, por mim reconhecido em casamento com Raimunda Cobles, e Vincente Silva, rebento a quem não pude reconhecer filiação em vida, fruto do amor por minha amante e amada Luíza Silva falecida ao dar à luz.”

Antes que o Engenheiro Cobles conseguisse dominar os seus balbuceios, o advogado –  meio-tio pela notícia veiculada –, adiantou, “A assinatura tem reconhecimento notarial, já efetuei toda a certificação legal necessária que pode confirmar por seus meios se assim entender.”, Cobles dominou por fim seus soluços verbais, “Mas que pretende de Windblow? E de mim? Meu pai, a ser verdade seu meio-irmão, está acamado há muitos anos, as partilhas e o testamento estão vistos e revistos faz muito tempo, por morte de meu avô, todo o património é ainda de minha avó Dona Raimunda.”, o Doutor Vincente recompôs o seu terno e voltou a pegar na bengala antes de continuar, “Esse carbúnculo, Raimunda, mandante da morte de minha mãe durante o parto, ao tempo criada em Windblow, e envenenadora de meu pai através de um composto de belladonna e arsénico; morrerá em breve com o choque de minha sobrevivência. De Windblow quero a minha quota parte, metade, seis assoalhadas. Foi para isso que estudei Direito numa Universidade Pública, com o mísero ordenado de um ajudante de carpintaria e à custa de dois dos meus dedos das mãos, para reaver o que não tive em meu berço.”

O Doutor Vincente havia conquistado uma pequena fortuna a defender casos de crianças bastardas deserdadas pelos pais, que eram em muitos casos fruto de adultérios da alta-sociedade, assim permitindo-lhe juntar um significativo pecúlio monetário que lhe viria a permitir alguns feitos filantrópicos um pouco adiante.

Dona Raimunda morreu de raiva ao ver Vincente, que julgava ela perdido para a vida depois de o ter abandonado à porta da Casa do Gaiato. Dom Francisco, permaneceu acamado vegetando por longos anos aos cuidados de uma enfermeira paga pelo Doutor Vincente. Dona Sara fugiu para Inglaterra mais as suas 500 moedas cunhadas com a sua própria cara e o lacaio da décima-segunda assoalhada que lhe satisfazia os seus impulsos virginais. De Teresa Cobles não houve notícias até à sua morte no Natal de 2030 vítima de uma intoxicação alimentar por ovas de esturjão. O Engenheiro Cobles, que nunca chegou a assinar nenhum projeto de engenharia na sua vida, depois de tentar vender Windblow por valores especulativos exorbitantes através de uma agência leiloeira antes que Vincente tomasse a posse predial da sua quota; continuou a sua carreira política defendendo a habitação dos periquitos do Jardim da Estrela, das pombas do Alto da Ajuda, e dando conferências na Associação dos Dependentes de Vista Grossa.

Quanto à Casa de Windblow, foi convertida pelo Doutor Vincente depois de adquirir através de uma procuração a segunda metade da propriedade da Casa de Windblow, ludibriando o Engenheiro Cobles com 1.000 moedas de ouro, que, cheio de ganância, numa altura de forte queda do preço do mesmo que viria a durar 20 anos; acabou por aceitar vender por uma ninharia enquanto procurador de seu pai em estado vegetativo. Aí passaram a viver crianças nascidas em berços de palha, até aos 18 anos, com uma lotação máxima de 24. Era-lhes garantido acesso total a uma biblioteca, uma sala de estudo, uma sala de diversões, uma sala de pintura, um laboratório de biologia e um de química, 3 refeições diárias e trabalho na oficina de publicidade que foi montada nas águas-furtadas de Windblow para o desenvolvimento profissional das crianças na sua fase adolescente dos 16 aos 18 anos, e de onde viriam a sair grandes nomes da arte e da ciência como Sofia Rodrigues, pintora neorrenascentista, e Afonso Neves que viria a descobrir a cura para a estupidez vegetativa no ano de 2046, através de experiências efetuadas em Dom Francisco Cobles, que lhe permitiram voltar a falar apesar de ter permanecido acamado até à sua morte por eutanásia através de monóxido de carbono.

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