(re)nascimento do Rancho Folclórico de Távora Santa Maria e São Vicente

Rancho Folclórico de Távora Santa Maria e São Vicente: O (re)nascimento da vontade minhota subiu ao palco e recebeu estrondosa aclamação do público.

Quando, em 2006, a então Direcção do Rancho Folclórico de Távora Santa Maria e São Vicente deu por findo o seu trabalho e arrumou em caixas os trajes e instrumentos, o grupo formado no início dos anos 80 e que era orgulho da terra nas festas locais e nos festivais em que participava parecia ter o fim anunciado.

Foram precisos 12 anos, o regresso inesperado de um filho da terra e muita vontade popular para que o grupo voltasse a reunir cerca de 50 elementos (dançadores, tocadores e cantores) e espólio novo, atento às tradições arcuenses.

Foto © Jornal AVV / João Martinho

Tudo (re)começou em Outubro de 2017 e foi uma prova “contra-relógio” para que o grupo se apresentasse pela primeira vez ao público que lhe deu força e apoio para poder voltar a pisar as tábuas do palco, na festa da Freguesia, a 27 de Julho, perante um terreiro cheio de entusiastas deste regresso em força.
Mas o percurso até esta noite de aplausos não foi fácil, como nos conta a Secretária da Direcção e dançadeira do Rancho Folclórico de Távora Santa Maria e São Vicente, Sofia Torres. Afinal, foi um recomeço com amarguras de estreia.

“Houve que refazer tudo. O material do antigo Rancho ainda existe, mas está todo danificado por ter estado onze anos fechado dentro de uma sala. Tivemos que comprar tudo de raiz, os trajes e restante material. Ainda não temos as concertinas, mas também não é possível fazer tudo num ano”, conta.
Os instrumentos são dos tocadores participantes do Rancho Folclórico, já a atenção aos trajes foi mais minuciosa e fruto de alguma pesquisa, notou Sofia Torres. “Não foi escolhido por acaso, foi criado com base no livro “Terras do Vale do Vez”, que fala sobre as tradições de Arcos de Valdevez. Foi aí que o Maciel [Araújo, presidente da Direcção] descobriu uma fotografia de um traje típico de Arcos de Valdevez, o traje de ‘domingar’ da lavradeira dos Arcos de Valdevez e que é inédito, nunca em nenhum Rancho em Arcos de Valdevez, que tenhamos conhecimento, foi utilizado”, observou ainda Sofia Torres.

Foto © Jornal AVV / João Martinho

Os últimos anos não têm sido fáceis para a sociedade venezuelana, nem para aqueles que, na busca por melhores condições de vida, partiram para a Venezuela e aí formaram vida e negócios. O regresso de Maciel Araújo à sua terra natal, após quase trinta anos emigrado, não foi por isso voluntária, mas rapidamente voltou a sentir Távora e as causas da terra como suas.

Enquanto dançador do antigo grupo que constituía o Rancho, estranhou por isso neste regresso que tudo não fosse agora mais do que memórias, mas não cruzou os braços nem se resignou. Trazia a vontade das danças minhotas da Venezuela, onde tinha sido ensaiador de um grupo de folclore.
“Tenho aqui amigos que vieram também da Venezuela e que estão aqui para esta apresentação. Vieram de Madrid até Távora só para estarem comigo neste dia”, realça Maciel Araújo.

Foto © Jornal AVV / João Martinho

A vontade era a de que “quando chegasse ao meu país de nascimento, ingressar no rancho”, mas o destino acabou por lhe atribuir outro papel na história das danças minhotas. Mas como apenas “havia vontade, não havia capital”, encetou a missão de recuperação do rancho através de um peditório por toda a Freguesia e a ajuda que agora agradece, foi determinante. Também a emigração “sempre atenta à freguesia, colaborou verdadeiramente e mostrou como gostam do nosso rancho. Só com estas ajudas foi possível comprar este maravilhoso traje”.

“É um honra dirigir este pessoal maravilhoso. Somos uma família. Respeito muito os meus companheiros, a Sofia e o Francisco, porque os três somos um só nesta gestão”, destaca ainda Maciel Araújo, garantindo que esta Direcção “tem vontade de fazer… e de ficar”.

Foto © Jornal AVV / João Martinho

A Câmara Municipal de Arcos de Valdevez, que apoiou este “renascimento” do Rancho folclórico de Távora Santa Maria e São Vicente com 4 mil euros, marcou presença nesta cerimónia de assinatura de protocolos de colaboração, na qual estiveram também presentes o pároco e presidente da Junta de Freguesia.

Este agrupamento que tem o folclore minhoto como causa junta-se assim às “mais de 60 associações” arcuenses que colaboram para o reforço da identidade do concelho, como garante o presidente da Câmara de Arcos de Valdevez, João Manuel Esteves.

“Este renascimento de uma associação é muito interessante e é um grande esforço por parte das pessoas da Freguesia que sentem o rancho, porque é o rancho que faz a passagem entre os usos e as tradições e uma modernidade que se impõe aos mais novos. Para a Câmara é uma satisfação também poder partilhar dessa transmissão de testemunho e reforço da identidade local. E os ranchos fazem isso de uma forma muito particular. Nesta altura em que nos parece que tudo é igual, muitos de nós temos de marcar a diferença a partir daquilo que é nosso, a nossa história e a nossa cultura. E esta passagem de testemunho é óptima”, observou o autarca arcuense.

Os ranchos são o símbolo da identidade minhota

Pela relação de proximidade que o executivo municipal tem cultivado junto das comunidades arcuenses espalhadas pelo mundo, João Manuel Esteves considera que é muitas vezes o folclore minhoto que aproxima as gerações que nasceram aqui, mas também os descendentes, a nova vaga que já não tem o Alto Minho como berço. Por vezes, é nas cantigas que este encontro de gerações se entende melhor.
“Encontrar alguém que foi daqui e vê-los cantar, dançar e vibrar com tudo isto é mais simples porque a saudade cria-nos isso, mas ver aqueles que não têm raiz nenhuma aqui, a não ser aquilo que ouviram dos pais e dos avós, a dançar, a divertirem-se e a cantar – e muitos deles cantam melhor do que mantém uma conversa em português – é surpreendente”.

Foto © Jornal AVV / João Martinho

Talvez esta nova geração, saturada de um mundo ocidental cada vez mais igual, esteja em tempo de premiar a diferenciação.

“Houve um tempo em que estas coisas dos costumes e tradições se escondiam. Hoje é o momento de afirmação e diferenciação e os miúdos que estão fora ficam orgulhosos que, no meio daquilo tudo que que é igual em qualquer lado do mundo, o que comem, o que vestem ou a música que ouvem, têm um género de música e danças que são da terra dos avós e dos pais deles”.

As comunidades emigrantes, verdadeiras “ilhas” de portugalidade em qualquer canto do mundo, são o foco da autarquia, como sublinha ainda João Manuel Esteves. “Queremos criar pontes com essas comunidades, com as associações e os órgãos que nos representam nesses sítios. Muitas dessas pessoas são bem-sucedidas no meio empresarial e é também essa ligação que reforça a nossa presença nesses sítios”.

 

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