Férias? Destinos

Íamos de casa mudada. Em Âncora, onde habitualmente se passava o mês de Agosto, só havia camas e o mobiliário mínimo para se comer e guardar alguma roupa.

Os donos das casas, muitos deles pescadores, mudavam-se com a família para o coté anexo durante a época de veraneio amealhando mais uns trocos que juntavam aos do sargaço e da pesca. E eram as mulheres que comandavam toda esta logística.

Havia uma mala mágica que a minha mãe abria uma vez por ano. Guardava louças, talheres e brinquedos que só se mostravam nesta altura. Bem lá no fundo ficavam sempre uns grãozitos de areia, mas, mal a tampa se abria já pressentíamos aquele cheiro a mar e a vento, a óleo de bronzear e a mexilhões.

Tomava-se banho em grandes bacias e os cântaros iam à fonte da Retorta em romarias diárias como os peregrinos fazem quando vão venerar os seus santos.

Não havia água gelada nem ventanias que nos tirassem da praia, nem sol que nos queimasse. E, à noite, adormecíamos ao som dos comboios, das automotoras, que atravessavam o casario e nos embalavam em sonos profundos.

Fotografia de João Luís Gomes Braga

O rio e as dunas completavam os nossos dias. Descíamos lá do alto em passadas largas, ou, simplesmente, rebolávamos até nos enfiarmos na água ainda doce, morna, à hora da manhã em que o sol reluzia e nos chamava.

As férias são destinos feitos não só de lugares, mas de afetos. Por isso nos deixam as suas marcas recheadas de momentos únicos, irrepetíveis, transportando-nos para além da infância, anos fora. E novos lugares passam a fazer parte da vida.

Fotografia de Sara Pereira – baía de Setúbal

Falo das praias de Setúbal, da serra que cai sobre o mar deixando-nos recantos de areia fina, alguns de difícil acesso, onde o mar não bate, apenas ondula na sua transparência em tons de azul, que se confundem com o céu sem fim.

Falo do cheirinho a peixe grelhado que enche a baixa da cidade, das douradas do mar e do choco frito.

Falo do barlavento algarvio, de Sagres, das praias de Vila do Bispo e dos seus percursos megalíticos, que podemos apreciar nos dias em que o vento arrasa as areias e a urze da serrania.

Falo da rota do Infante, da capelinha de Nossa Senhora de Guadalupe, monumento nacional do século XIII e uma relíquia da arquitetura medieval. Foi um local de culto de D. Henrique onde se orava antes da partida das caravelas.

Fotografia de Teresa Lobato – Cabo Espichel, Sesimbra

Falo das caminhadas pela Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica, dessa viagem através dos milénios que nos antecederam, das pegadas de dinossauros únicas no mundo, criando a lenda da Virgem da Pedra da Mua, da vegetação baixa e luxuriante que o vento rasga lançando aromas irrepetíveis.

E da cataplana de peixe e dos salmonetes grelhados.

E falo das tardes debaixo do alpendre, à fresca, sob a brisa do mar da Caparica, saboreando ainda o pescado de Fonte da Telha. E da rega do jardim. E dos frutos que conseguimos roubar aos melros, às rolas e à demais passarada. Também eles já se aconchegam nesse ninho de afetos, que são as férias, que são os destinos.

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