“O corpo de Bombeiros de Arcos de Valdevez não está minimamente preparado para a realidade industrial do concelho”

Na sequência da recente conclusão da primeira fase das obras de ampliação e remodelação das instalações da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Arcos de Valdevez (AHBVAVV), que tem promovido uma reaproximação dos voluntários ao aquartelamento, quisemos saber ainda que outros projectos preocupam a actual equipa de gestão da corporação, mas também saber da situação operacional dos serviços de socorro.

Em termos de operacionais para o serviço de socorro nas diversas áreas de acção, a corporação arcuense conta com cerca de 70 elementos, somados os novos 19 jovens bombeiros, promovidos a 19 de Julho, e os cerca de 20 bombeiros profissionais, o que coloca este corpo activo, considerada a totalidade de meios humanos e de intervenção, “nos três primeiros lugares das corporações do distrito [de Viana do Castelo] em termos de operacionalidade, a seguir a Ponte de Lima”, assegura o Comandante da Associação Humanitária, Filipe Guimarães.

O novo impulso da actividade e sustentabilidade dos últimos anos deve-se essencialmente, segundo o Comandante, à reorganização dos serviços para o socorro urgente de utentes, mas todas as áreas de apoio estão neste momento a gerar receita que permita a continuidade das equipas de reserva.

No total, as cinco ambulâncias de socorro preparadas para o serviço de emergência médicauma afecta ao serviço do INEM (Instituto Nacional de Emergência Médica) e quatro de reserva, pertencentes à corporação – implicam a disponibilidade de duas equipas de dois elementos cada uma, das 8 às 20 horas, e uma equipa (dois elementos) das 20 às 8h. Também para o piquete do fogo, o corpo de bombeiros tem em disponibilidade imediata cinco bombeiros, cumprindo assim o mínimo necessário para a formação desta primeira equipa de intervenção em caso de emergência.

O voluntariado para os “soldados da paz” está a decrescer ou a participar com inúmeras limitações a função, pelo que o caminho será a “profissionalização”, como explica o Comandante Filipe Guimarães.

“São poucos [bombeiros] para a realidade do concelho e para a exigência dos dias de hoje. O mundo dos bombeiros evoluiu muito, a exigência é cada vez maior e é a mesma para o voluntário e para o profissional. O padrão de formação é igual para todos, por isso a exigência na prestação de serviço também é igual”, notou.

O exercício das funções não se compadece com o voluntarismo e eventual amadorismo de quem presta este tipo de apoio de saúde, como explica ainda o Comandante da corporação. “Para quem necessita de socorro, a melhor coisa que pode haver num momento de aflição é saber que chegou alguém que sabe do que está a falar e consiga passar uma imagem de tranquilidade”.

“Nas fábricas, pode tocar a sirene de dia ou de noite que ninguém deixa sair um funcionário para vir prestar serviço para o corpo de bombeiros”, sublinha Filipe Guimarães. Foto © Jornal AVV / João Martinho

Para que o conhecimento e preparação para as mais variadas situações de emergência sejam assistidas com profissionalismo, Filipe Guimarães diz que são necessárias “muitas horas de formação e instrução ao longo do ano para se conseguirem manter no activo”. Para os que não possam cumprir as horas estipuladas, há penalizações, explicou ainda. “Quem não cumprir, o próprio sistema do RNBP (Recenseamento Nacional dos Bombeiros Portugueses) envia-os para um quadro de reserva onde tem de permanecer pelo período de 90 dias”.

No entanto, fazer voluntariado a troco de nada (além de eventuais vantagens ou reconhecimento municipal) poderá não ser motivador para as novas gerações, deixando apenas na profissionalização do efectivo a solução para a continuidade das corporações. Filipe Guimarães não tem dúvidas de que isso vai acontecer.

“Eu próprio estou ligado à corporação há 20 anos, 19 como voluntário. Actualmente estou a exercer funções profissionalmente porque a exigência é maior e nos dias de hoje, com o estilo de vida que a maior parte das pessoas têm, são poucas as entidades que pagam um vencimento a um funcionário e o deixam sair uma série de horas durante um mês, a troco de nada. Em época de incêndios florestais, há casos em que o combate dura uma semana, qual é o patrão que permitiria a ausência de um funcionário por tanto tempo?”.

 

Instalações da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Arcos de Valdevez (AHBVAVV). Foto © Jornal AVV / João Martinho

Apesar da dificuldade no recrutamento de jovens bombeiros, Filipe Guimarães sublinha que a corporação de Arcos de Valdevez “é a que apresenta mais elementos às escolas de formação de novos bombeiros”, mas por outro lado, a que mais radicalmente perde activos para o mundo do trabalho, com horários incompatíveis à continuidade da acção voluntária. “Perdi 16 elementos para as fábricas. Em 15 dias fiquei sem 16 elementos e dos 70 actuais, há muitas limitações, com disponibilidade condicionada por causa das fábricas e essas, pode tocar a sirene de dia ou de noite que ninguém deixa sair um funcionário para vir prestar serviço para o corpo de bombeiros”.

“O nosso território está ao abandono”

O parque automóvel, minimamente equipado para a intervenção no terreno, sofrem também “um desgaste brutal” a que a difícil geografia do território arcuense os obriga, em período de combate. As políticas de prevenção, que o comandante dos bombeiros arcuenses admite serem “essenciais” para que as ocorrências nos períodos críticos não sejam catastróficas, não se sentem ainda no território florestal local.

“Temos de dizer o que é, não vale a pena estarmos a escamotear a realidade: O nosso território está praticamente ao abandono no que diz respeito às políticas florestais e à manutenção de redes viárias. A rede viária florestal está ao abandono e quando há incêndios, quem sofre são os bombeiros, muitas vezes obrigados a arriscar progredir em caminhos desfeitos, para tentar chegar às frentes de fogo e a submeter as viaturas as desgaste”.

O alerta para o sector florestal não se sobrepõe no entanto à urgência na preparação para as ocorrências na área urbana e industrial do concelho. Filipe Guimarães considera haver um franco desequilíbrio nos meios de combate face à evolução industrial do concelho arcuense.

“Em termos de equipamento, para o combate [de incêndios] urbano é uma desgraça. O único carro de combate que temos é um camião Renault de 1992, oferecido por uma comunidade de emigrantes de Bordéus (França), senão o que tínhamos para incêndios urbanos e industriais era uma Toyota Dyna de 1980, que nem direcção assistida tinha, era lento e a bomba instalada era desajustada para este tipo de incêndios. Nos últimos anos foram instalados três polos industriais no concelho de Arcos de Valdevez e os bombeiros foram completamente esquecidos para esta realidade”.

Bombeiros alertaram a autarquia em 2012

Poderá uma ocorrência numa das unidades industriais do concelho ser uma ‘bomba-relógio’ que a corporação arcuense não sabe desarmar? Filipe Guimarães admite que sim, e considera que não há meios nos bombeiros arcuenses nem nas corporações vizinhas para combater um incêndio nas unidades fabris que operam com materiais químicos de maior perigosidade.

“Se um dia houver um cenário numa fábrica dessas, onde trabalham 300 pessoas, se tivermos de fazer busca e salvamento a todo o perímetro dessa unidade industrial, os sete aparelhos respiratórios que temos são insuficientes para fazer o varrimento, quanto mais para fazer combate”, alertou.

Das unidades a operar nas zonas industriais do concelho que o Comandante dos bombeiros arcuenses identifica como mais sensíveis destaca a multinacional francesa Sarreliber, empresa de transformação de plásticos e metais, para a qual admite que os bombeiros não estão “minimamente preparados” para reagir em caso de incêndio. “É uma empresa que trabalha com cerca de 150 químicos diferentes, materiais perigosos, e nós para essa área estamos completamente a zero, não temos nenhum equipamento. E atrás destas vieram outras, como a Poligal, que é uma fábrica de injecção de plásticos, ou a Eurocast”.

Parque Empresarial de Mogueiras, em Tabaçô. Foto © Jornal AVV

“Eu sei as responsabilidades que tenho e sei aquilo que precisava para conseguir pelo menos segurar a situação até que venha alguém especializado nessas áreas para resolver a questão, porque ali, mesmo que colocasse os meios todos da corporação, não conseguiríamos resolver nem com todos os meios do distrito. Há necessidade de fazer o accionamento de equipas próprias especializadas em matérias perigosas. Temos alguns elementos que tem formação em matérias perigosas, eu próprio tenho formação nessa área, de nível 4, mas de que me serve a formação se não tenho meios para operar?”, atirou Filipe Guimarães, reconhecendo que apenas algumas equipas do centro do país ou do Porto estarão preparadas para lidar com estes casos específicos que envolvem componentes químicos.

O Comandante dos Bombeiros de Arcos de Valdevez assegura já ter alertado o executivo autárquico, pela responsabilidade na área da protecção civil que o órgão municipal também assume, mas até ao momento ainda não teve resposta concreta a esse assunto.

“Não será por falta de manifestação desta preocupação junto de quem tem responsabilidade na Protecção Civil municipal, aliás foi das primeiras coisas que fiz enquanto Comandante, já em 2012, junto do poder político local. Alertei para o facto de que o corpo de Bombeiros de Arcos de Valdevez não está minimamente preparado para a realidade industrial que existe no concelho”.

No caso na Sarreliber, a multinacional francesa que tem unidade fabril no Parque Empresarial de Mogueiras, Filipe Guimarães diz que o alerta também já foi feito aos responsáveis da empresa, que partilham de alguma desta preocupação, “mas não querem estar a investir”.
“Já manifestamos também essa preocupação aos responsáveis da empresa, que é onde fazemos todos os anos um simulacro e sempre que reunimos com eles explicamos que nem nós nem os meios que existem aqui estão preparados para aquela realidade. Eles têm alguma preocupação, reconhecem a necessidade mas não querem estar a investir”.

No entanto, o histórico recente da empresa não protege esta visão descomprometida dos responsáveis, como sublinha Filipe Guimarães com recurso a um caso ocorrido em França. Segundo o Comandante, “há uns anos tiveram um incêndio na ‘fábrica-mãe’, na sede, onde curiosamente existe um corpo de bombeiros em frente e ardeu toda, inclusive o próprio quartel de bombeiros teve de ser evacuado”.

Uma realidade que o responsável operacional pela corporação arcuense não quer ver por cá, mas quer estar preparado para enfrentar. Para tal, assegura, tem de haver comprometimento da Câmara Municipal de Arcos de Valdevez nesta tarefa. “Há legislação que obriga a Câmara Municipal a dotar o corpo de bombeiros com determinados meios quando autoriza a instalação de unidades industriais desta natureza, coisa que aqui não aconteceu”.

Autarquia diz que estão a ser cumpridos planos de segurança e evacuação

Questionado pelo AVV sobre esta preocupação relativamente à segurança e prevenção em áreas industriais, o presidente da Câmara Municipal de Arcos de Valdevez, João Manuel Esteves, considera não se verificar “nenhuma situação de emergência” e que os planos de emergência necessários estão a ser cumpridos e operacionais. “O que temos de ter é os planos de evacuação das zonas industriais, e cada uma das unidades também tem de ter os seus”, reiterou.

No entanto, o edil arcuense manifestou a disponibilidade da autarquia em apoiar a corporação local no caso de a Protecção Civil não possa garantir esta “necessidade especial” dos bombeiros.
“A Câmara, dentro daquilo que são as suas competências e na preocupação de garantir a segurança das pessoas e bens, irá colaborar com os bombeiros”, notou, assegurando que manterá a frança colaboração com a corporação, como de resto se verificou num apoio recente da autarquia à associação num valor superior a 20 mil euros, para compra de um autotanque.

Assim, o autarca sublinha que, em caso de “necessidade especial e que a Protecção Civil não garanta por alguma razão, aquilo que quero relevar é que a autarquia poderá, numa circunstância dessas, dar o seu apoio”.
Uma participação que João Manuel Esteves considera ser de colaboração entre organismos que zelam pela segurança das populações. “Nunca entendi isso como obrigatoriedade”, frisou.

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