Há Festa Na Aldeia

Jacques Tati (Jaques Tatischeff (1907-1982)) é um dos ícones do cinema de comédia europeu que se inicia nos meandros cinematográficos no fim da era do cinema mudo. Realizador, argumentista e ator, Tati surge no cinema francês na década de 30 com alguma visibilidade, mas é no pós-guerra e com a chegada das tentativas de influência americanas que Tati emerge para o sucesso e reconhecimento artístico com o filme burlesco Jour de Fête (1949), ganhando no Festival de Veneza o Leão de Ouro para o melhor argumento, traduzido para português com o título Há Festa na Aldeia.

Resumidamente, o filme tem como pano-de-fundo uma pequena povoação durante a anual época festiva por onde deambula François, nem mais nem menos que o próprio Tati, o carteiro do pequeno burgo sempre montado ou acompanhado de sua bicicleta, personagem central do filme, apatetada e desdenhada pelos locais, que atrasa e demora as entregas postais por displicência enquanto se vai divertindo e ajudando na montagem da festa, provocando queixas dos seus concidadãos relativamente ao serviço que presta à comunidade.

Entre carrosséis, tendas de tiro e outros elementos que compõem as festividades, François visita um cinema ambulante onde assiste a um filme documental que retrata os serviços postais americanos, demonstrando a rapidez e efetividade à americana, e que afetam luminosamente a mente de François. Daí em diante passa a andar com a expressão “L’Amerique, L’Amerique!” na sua boca por onde quer que vá, imbuído de um espírito competitivo que se opunha ao seu jeito relaxado anterior. Nas peripécias que se seguem, François torna-se um autêntico velocista postal, passando a fazer as entregas com enorme rapidez, ainda que tropeçando aqui e ali na sua ânsia de se equivaler ao supostamente exemplar serviço à americana. Uma das imagens marcantes do filme é François a ultrapassar um pelotão de ciclistas na sua pasteleira, como se nada fosse, a fim de demonstrar o quanto é capaz de progredir.

Cartaz: Jour de Fête (1949)

A época do filme obriga-me a relembrar as resistências que existiam nesses tempos, nomeadamente em França, quanto ao American Way, tempos em que em França se faziam anúncios a rebaixar a água-suja-do-capitalismo em favor do tradicional vinho tinto, enquanto os Americanos tentavam impor a sua cultura e modus vivendi aos europeus. O que François prova, no entanto, é que apesar da sua falta de meios comparativamente aos americanos que na altura já iam de mota, ele consegue ser rápido e eficaz, apesar de parodiar essa mesma eficácia.

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O Paralelismo na Perpendicular

“L’Amerique, L’Amerique!”, cá como lá: “Na França é que é!”; leva-me a uma curta reflexão sobre as festas da nossa aldeia e o que elas representam e no que se tornaram, ou melhor, no que não se tornaram. As ruas da Vila de Arcos de Valdevez voltaram a ficar pejadas de caravanas em lugares de estacionamento automóveis, açambarcando espaços de estacionamento rotativos, sem quaisquer condições de salubridade, atropelando os passeios com estendais de roupa, sendo despejadas cassetes de saneamento pelos bueiros de rua que seguem diretos ao rio (ao fim de 6 anos de avisos tudo na mesma, fora os de berço), além de outras situações clandestinas que parecem ter sido identificadas; continuam a utilizar-se milhares de copos de plástico, quando noutros locais já se assumiram soluções de copo único; a programação da Ínsua do Vez mete dó e não evolui coisa alguma há pelo menos oito anos; a poluição sonora infestante e exacerbada que atropela os residentes durante uma semana inteira; o ambiente noturno muitas vezes de confronto entre fações alienígenas; tabaco vendido acima dos preços de lei em locais afetos ou alugados à organização, desconhecendo eu, autor deste texto, se esses valores são definidos pela mesma como consta serem os preços de diversas bebidas alcoólicas, mas avançando desde já essa questão entre outros problemas velhos que as Festas Arcuenses insistem em não resolver porque tudo o que conta é o dinheiro em caixa. Teremos que ficar à espera que o François, o carteiro, vá ao cinema ambulante ver como se faz na França, na América ou na Barca? Ou oferecemos ao François um espelho para pôr em casa antes do dia de festa de 2019?

Post Scriptum: Quantas prestações das obras do quartel dos bombeiros pagariam os foguetórios que se fizeram na festa da aldeia?

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