“A Banda Arcuense tem sabido acompanhar os tempos”

José Domingos Costa, colunista do Jornal AVV, esteve à conversa com um dos músicos da Banda da Sociedade Musical de Arcos de Valdevez, Victor Domingos, trombonista e membro da banda há mais de 20 anos.

Infelizmente, fugiu-nos a oportunidade de assistir ao concerto de Verão que a Banda da Sociedade Musical de Arcos de Valdevez levou a efeito no Anfiteatro do Trasladário (Pedrosas, talvez fosse mais próprio chamar-lhe) às 22 horas da noite de 9 de Agosto, como uma espécie de arranque oficial das Festas do Concelho.

Diz quem viu, termos perdido soberana oportunidade de presenciar a actuação de uma banda madura, bem estruturada, superiormente dirigida, com executantes de primeira água. Em suma, um exemplar concerto que ao melómano, mesmo dos mais renitentes e empedernidos, não deixaria de extasiar.

De qualquer forma (e isto será mesmo uma questão de preferência pessoal ou deformação cognitiva), tivemos o enorme prazer de ver e ouvir a banda actuar durante a procissão da senhora da Lapa, ambiente que em nosso entender se ajusta melhor ao espírito de filarmónica em que as bandas se integram e com os quais ainda melhor interagem.

Pensamos já estar longe do tempo em que as bandas tocavam com instrumentos velhos e gastos, comprados muitas vezes em segunda mão a herdeiros de músicos falecidos há muito, quase já improváveis de afinar, com oitavas ou dissonâncias impossíveis de arrancar e cuja linha melódica não era viável emparelhar com outros instrumentos irmãos.

Fundada em 1 de Dezembro de 1880, a Banda Arcuense iniciou a sua actividade sob a regência do Maestro Cristina, representando a culminar de uma longa tradição musical que varreu a Europa a partir da Revolução Francesa e das suas conhecidas consignas de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

A 30 de Dezembro de 1974, oito meses volvidos sobre o 25 de Abril, foi formada a Sociedade Musical de Arcos de Valdevez que representou a institucionalização de uma estrutura destinada a proporcional a instrução musical, cultural e de recreio aos seus sócios e familiares e na qual a Banda Arcuense foi integrada.

Um colectivo de 65 músicos, tantos quantos são os elementos que compõem a banda arcuense, regida por Gil Magalhães, maestro e professor, tem necessariamente de ter idiossincrasias em tal número que exigem alguma maleabilidade na sua gestão bem como apurado sentido para coordenar tão ecléticos perfis.

Com o fim de nos fazer uma abordagem mais precisa sobre estas e outras questões existentes no agrupamento, estivemos à conversa com Victor Domingos, trombonista, integrando a banda há mais de 20 anos, e curiosamente, também colunista neste jornal.

Quisemos saber, para começo, quais as diferenças que destacaria entre uma Banda de Música de hoje e aquela onde, há mais de uma vintena de anos, deu os primeiros passos.

«Ao longo destas décadas», começou Victor Domingos por dizer-nos, «assistimos a um conjunto de mudanças significativas, particularmente no aumento do nível de complexidade das partituras, em boa medida pelo facto de haver mais músicos com mais formação académica».
«A nossa banda», continuou, «está hoje em dia muito melhor equipada em termos de instrumentos. Nos anos 90, quando entrei, ainda era frequente haver instrumentos velhos, alguns em mau estado, e modelos ou antiquados ou de gama baixa. A secção de percussão, por exemplo, era composta por pouco mais do que os instrumentos que usávamos nos arruados. Aos poucos, foi havendo uma renovação, e hoje em dia tocamos com instrumentos ao nível do que se usa nas orquestras sinfónicas. Uma vez mais, basta olhar para a secção da percussão em palco e comparar com o que tínhamos na altura, para perceber rapidamente essa diferença. Mas até nos instrumentos mais pequenos se nota. Temos músicos a usarem instrumentos pequeninos, por exemplo flautas, que custam para cima de 10 mil euros».

Questionamos o músico sobre recursos humanos: Há mais executantes? Estarão hoje melhor preparados?

«Actualmente, uma boa parte dos nossos músicos estuda ou estudou música a nível superior». Esclarece-nos o trombonista. «Alguns são professores de música, outros são músicos profissionais, tocando em diversas formações, de vários tipos. De vez em quando, vemos algum colega nosso na televisão num dia, a dar, por exemplo, um concerto em Lisboa com alguma orquestra, e no outro dia estão ali a tocar connosco».

Victor Domingos refere-se, de seguida, a uma questão pertinente: “Amor à camisola”, traduzida pelo mais genuíno amadorismo, ou profissionalização. O que prevalece?

«Quanto à questão do amor à camisola, claro que ainda prevalece. Temos muitos músicos para quem a música é uma profissão, mas temos muitos outros para quem isto é uma segunda família, uma actividade que se cultiva nos tempos livres, seja pelo gosto da música ou do ambiente à sua volta».

Sem se deter, continua: «É inevitável, ao fim de 20 ou 30 anos… Como eu digo às vezes, já “vimos” nascer alguns destes músicos, e os filhos de alguns deles, alguns chegámos a tê-los no colo. Já os vimos a começar a namorar, a casar… Comemos à mesma mesa, brincamos, discutimos, bebemos juntos. Já fomos a enterrar alguns familiares deles, e mesmo alguns amigos e colegas nossos. Por isso, para muitos de nós, acaba por ser uma espécie de família».

Questões que quem aprecia filarmónicas muitas vezes levanta estão relacionadas com a criação do seu acervo musical, que se constitui como um património imaterial que se vai compilando e organizando de forma paulatina mas consistente, estabelecendo, no fundo, como que uma marca identitária da banda.

Há hoje mais compositores a escrever para bandas? Há mais partituras disponíveis?

«Quanto a compositores, talvez haja mais, mas não sei. Há alguns bons compositores, contudo, que têm escrito para banda filarmónica. O valenciano Oscar Navarro, por exemplo, é um compositor contemporâneo muito em voga».

«O repertório das bandas em geral, e particularmente da Banda Arcuense», prosseguiu Victor Domingos, «continua a ser bastante eclético. Tocamos um pouco de tudo. Desde as típicas marchas de rua, marchas militares, marchas de procissão e rapsódias de música tradicional portuguesa… até aos clássicos, que os músicos mais velhos costumam chamar de “calhaus”, de compositores como Wagner, Tchaikovsky, Liszt, Borodin. Tocamos também música… cinemática, por assim dizer. Temas de filmes, como os Piratas das Caraíbas».

Mas chamam-lhes calhaus porque não gostam, estão muito gastos, ou para tipificar?

«Não sei bem. Talvez por serem obras mais “sérias”, ou mesmo difíceis de tocar em condições. Mas algumas é capaz de ser mais pelo facto de serem tão antigas que já se tocavam há 30 ou 40 anos, e provavelmente ainda se tocarão daqui a mais 50 anos, tipo “1812”, “Tannhäuser”, “Capricho Italiano”, “Guilherme Tell”, “Príncipe Igor”, etc.».

«Tocamos também música ligeira», quis complementar o músico, «que vai do rock português — Rui Veloso, GNR, etc.— a músicas bem conhecidas de grupos e cantores estrangeiros, como os Scorpions, Queen, Elvis Presley…»

«Como dizia o maestro António Victorino de Almeida», rematou Vítor Domingos, «as bandas filarmónicas destacam-se pela sua polivalência. Tocamos um bocado de tudo, e em praticamente qualquer contexto. Ora estamos a tocar numa missa, procissão ou funeral, ora estamos num arraial nocturno, ora estamos num concerto sinfónico em auditório, ou numa parada solene a tocar o hino nacional».

Concerto do dia 9 ou procissão do dia 12? O que é mais entusiasmante para um músico da banda? Serão aspectos diferentes da mesma paixão? O que é que se enquadra melhor no espírito tradicional de uma filarmónica?

«Eu este ano não pude estar no concerto, apenas na procissão. Mas diria que são diferentes faces da mesma moeda. Há alturas na vida, ou mesmo alguns serviços em particular, em que preferimos uma ou outra vertente. Há sempre uma música de que gostamos mais durante algum tempo, e talvez depois de muito a tocar cheguemos a enjoar dela durante uns meses ou uns anos».

«No caso das procissões e arruados em geral, por vezes são complicados, especialmente para os músicos que levam os instrumentos mais pesados, tipo bombo, tubas, etc. Pessoalmente, gosto das procissões. Mas com o calor, e o facto de por vezes serem percursos bastante longos, por vezes é muito duro. E nem sempre há um cuidado de delinear percursos mais “humanos”, ou de colocar duas bandas juntas, para uma poder respirar um pouco enquanto a outra toca por uns minutos, ou de escolher horários de menos calor».

«É curioso que nos serviços que por vezes fazemos na Galiza, as procissões são todas muito curtinhas, apenas uma voltinha no adro, ou pouco mais. É um contraste muito grande com a nossa realidade».

Em conclusão, não sabemos se a Banda Arcuense, com os seus cento e trinta e oito anos de existência e com a música que executa, poderá ser considerada um diamante por lapidar ou uma jóia rara em vias de o ser. A certeza, por aquilo que nos foi dado ouvir, é que a sua música tem algo de transcendente e sublime. De celestial, será?

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