O “negócio” das ruas

Quando, há cerca de uma vintena de anos, comecei a investigar o passado dos Arcos — principiando, naturalmente, nas suas origens e avançando para o paulatino crescimento da sua malha urbana —, estes factos proporcionaram-me aceder aos períodos de maior desenvolvimento da vila e a algumas das razões que estiveram por detrás dessa mesma evolução. Deparei-me, na altura, com alguns factos curiosos relativos à sua toponímia.

Se, durante o último quartel do século XIX ainda se verificava a existência de nomes de ruas na vila com enorme carga afectiva, quiçá por mexerem com o imaginário colectivo das pessoas — como é o caso das ruas da Amargura, Formosa, de Cima, dos Quartéis, da Estrada, de S. João, do Espírito Santo, travessa das Viuvinhas e por aí fora —, com o aproximar do novo século e o crescimento sem precedentes da vila, assiste-se à emergência de um novo paradigma na toponímia arcuense, a favorecer os ilustres da política e das letras, nem sempre filhos da terra.

Poderemos considerar, até onde os registos nos permitem chegar, que nos últimos duzentos anos a vila passou por três períodos de crescimentos distintos. Antes porém, contextualizemos os momentos que antecederam e até impediram o avanço dos Arcos e a sua consolidação como complexo urbano: quase todo o século XIX foi marcado por acontecimentos que abalaram profundamente as estruturas da sociedade portuguesa, mormente devido às contradições existentes no seio do sistema monárquico, incapaz de dar resposta aos gravíssimos problemas económicos e financeiros que conduziam velozmente o país para um beco sem saída. 

Logo no início, foi a fuga da Corte para o Brasil empurrada pelas Invasões Francesas; foi o triunfo do liberalismo no início da década de 20, o que forçou o regresso inopinado da Corte a Lisboa e, como consequência, a independência da colónia, com catastróficas consequências para as já periclitantes finanças do país; foi a guerra entre liberais e miguelistas que se digladiaram durante seis anos a fio; foi a Revolta da Maria da Fonte que, com o apoio explícito da hierarquia católica, pôs o Minho em armas contra o ministério de Costa Cabral, como forma extrema de reverter a proibição dos enterramentos nas igrejas, decretada como sensata medida de saúde pública. Dobrou-se a metade do século com a rainha D. Maria II a impor o rotativismo, em que progressistas e regeneradores trocavam entre si o poder, sistema importado de Inglaterra como fórmula mágica de governo e panaceia para todos os males que afligiam o país. 

Só quase ao findar o século é que Portugal e, por consequência, os Arcos, puderam respirar um pouco aliviados e atravessar um hiato de acalmia propício ao primeiro período de desenvolvimento referido, que se consubstanciou num surto de construção de grande pujança e a edificação de obras de considerável volumetria, como o Teatro Teixeira Coelho, o Hospital de S. José, a ponte sobre o Vez, a remodelação profunda do edifício da Câmara Municipal, que vieram definir a circunscrição clara do seu perímetro urbano; a seguir, foi o período de finais da década de 50 do passado século, que, para além de permitir o descongestionamento do tráfego do centro da vila, apetrechou-o com outro tipo de acessibilidades, decorrente da construção, a montante e a jusante, de duas variantes que circundam a vila e o rio; finalmente, o boom da especulação imobiliária dos anos 80 e 90, durante o consulado de Francisco Araújo, em que a vila praticamente duplicou a sua área edificada, em boa parte em terrenos que a Santa Casa da Misericórdia, sua proprietária, negociou, seguramente com rigor e bom proveito, contribuindo para que a urbe crescesse, talvez em contra-ciclo com as suas reais necessidades, o que estaria na origem, segundo voz corrente na altura, de uma acentuada agiotagem no sector, cujas condições de natural hermetismo em que se desenvolvia, propiciaram o aparecimento de uma conjuntura ideal para o florescimento, como arroz em terreno alagadiço, de situações de questionável transparência.

Poderemos, pois, sintetizar a evolução da vila arcuense da seguinte forma: um primeiro momento que teve no processo de abertura da rua do Lira, em 1876, o início de consolidação da sua malha urbana na modernidade; um segundo, em meados do século XX, com a criação de uma cintura rodoviária que lhe permitiu novas acessibilidades e, finalmente, já em finais do século, uma especulação imobiliária quase incontrolada — se não apoiada pelo menos consentida pela edilidade  —, que conduziu a um aumento  desmesurado do perímetro urbano com a consequente abertura de, pelo menos, 18 arruamentos novos, a representarem cerca de 35% das artérias abertas até então. Arruamentos esses a que era preciso dar nomes e a pedirem a intervenção da Comissão de Toponímia da Câmara Municipal.

Se até à década de 30 do século passado as coisas eram resolvidas sem grandes ondas, com a moda dos beneméritos (Conde de Ferreira primeiro, Cerqueira Gomes — que destronou o marquês de Pombal na rua Direita — , Amorim Soares, Soares Pereira depois) e dos militares (general Amilcar Mota, alferes Barros Cerqueira e general Plácido de Abreu) a verem recair nos seus nomes as tomadas de decisão, durante o regime do Estado Novo apenas D. Luis I veria o seu nome banido daquilo em que se veio a tornar o Jardim dos Centenários e o Campo Almirante Reis a retomar a sua anterior designação de Trasladário. Poderemos ainda registar um caricato episódio passado em 1949, numa acesa sessão de Câmara, na qual o vereador António Pereira Barbosa propôs substituir o nome do general Amilcar Mota (figura grada aos «senhores» da Casa da Andorinha) pelo do ditador Oliveira Salazar, o que foi liminarmente recusado pelo presidente José dos Santos ao remeter a proposta para o limbo da «altura mais conveniente».

Com o aproximar do fim do século, da explosão imobiliário da era Francisco Araújo, da abertura daquele inusitado número de artérias, assiste-se a uma Câmara Municipal, dominada deste o 25 de Abril pelo poder laranja, a fazer vir claramente ao de cima os seus interesses de classe e até uma descarada misoginia que, nunca sendo verdadeiramente assumida, sempre se viu reflectida nas escolhas para os nomes das ruas. 

A prová-lo está a circunstância de os 18 nomes escolhidos para o baptismo das novas artérias, nenhum deles ser de mulher. Aliás, reforço, nenhuma das 52 ruas existentes na vila mereceu, dos homens que estão e estiveram por detrás dessas escolhas, nunquinha da silva, o nome de uma mulher.

Refira-se, por outro lado, que das 18 alegadas vias, nenhuma delas se digna perpetuar uma figura saída da população comum, da gente humilde, como um artesão, por exemplo, um operário, um sacristão, um bombeiro. São tudo nomes de parentela da classe que rodeia o poder laranja ou que com ele se mancomuna. 

Doutores são nove, engenheiros dois, generais um, repescado por razões que agora não vêm ao caso mas que adivinho quais sejam. Sem qualquer título académico há um cineasta, um presidente de Câmara, por ser o primeiro depois da ditadura, um escritor (do regime), um quadro superior da  administração local (do regime, mas do anterior) e um industrial. Finalmente, um rei, o que deu o foral aos Arcos.

De todas estas figuras, há as que merecem, bastando para isso confirmar no estudo das suas biografias, dissecar os seus passados; os que não são carne nem peixe e nem no quadro de honra do Alegrense Futebol Clube deveriam merecer lápide; aqueles a quem as suas próprias mãezinhas teriam vergonha de reconhecê-los em público e, por último, todos os que nunca fizeram nada pela terra, mas viram o seu nome inscrito numa tabuleta de rua, provavelmente como paga de algum favor que fizeram aos do poder, ou, o que revela ser bem mais eloquente, por terem, com a sua influência, ajudado a encobrir alguma malfeitoria. Digo eu, não sei…

Concluo da seguinte forma: até para dar o nome a uma rua é preciso ter competência. Nos Arcos, principalmente.

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