A Rua do Lira e o Mundo

Antes de haver as camionetas do Salvador, muito antes dos carros de praça invadirem o nosso quotidiano e antes mesmo de qualquer outro tipo de máquina diabólica ter surgido no horizonte a ameaçar a tranquilidade do dia-a-dia das pessoas, a Valeta era o centro do mundo, uma roda viva de gente, uma autêntica metrópole de trocas e de comércio, só comparável à Ribeira das Naus em dia de chegada de barcos da Índia.

E o exagero da comparação será desculpável, dada a necessidade de exemplificar com alguma exuberância o bulício, a agitação permanente em que a Valeta vivia, enquanto centro nevrálgico do burgo e, em simultâneo, núcleo distribuidor do povoamento da vila que haveria dali avançar mansamente.

E a razão desse frenesim era simples: era por aí que a vila se abastecia, era pelos pontilhões que entrava grande parte dos cereais que as mós da zenha transformavam em sustento, era no matadouro que pereciam às mãos do carrasco de serviço as vacas e os cabritos trazidos pelos homens dos montes. Era por aí que entravam os porcos para a feira do Cristina, as galinhas para cativeiros fedorentos de quintais mal amanhados à espera do seu juízo final, o leite fresco que nos dava os bons dias, o carvão de Vila Boa que nos aquecia e alimentava os fogões das nossas casas.

Era, como apontei no meu livro O Senhor Major, onde «proliferavam os alfaiates, os sapateiros, as modistas, os latoeiros. Toda uma casta de artesãos que, com o saber da sua arte, davam forma aos tecidos, aos couros, ao metal. Coexistiam com ferradores, doçarias, azeiteiros, funerárias, mercearias e tabernas. Era o coração da vila a pulsar».

E nós nascemos ali, naquele faroeste indómito, desenfreado e rebelde, entre peles vermelhas e caras pálidas que ora se aporfiavam ou digladiavam bravateando por suas razões, ora selavam entre si tratados duradoiros de paz que lhes permitissem vantagens mútuas, mas só pelo tempo preciso dos seus interesses. Foi ali, nessa atmosfera indisciplinada e insubmissa que nós fomos moldados, que aprendemos a espreitar o mundo, a abraçar todos os amanhãs que sabíamos ir percorrer dali para a frente.

Quem conhece a Valeta sabe que, sem a rua do Lira, a alma da vila viveria sufocada entre a colina do Espírito Santo e a correnteza do rio, espartilhado entre dois acidentes naturais que condicionavam a expansão para que a sua pujante e febril actividade apontava.

Disso se apercebeu a Câmara dos longínquos anos 70 do século XIX e o próprio António Lyra Prego que, como adiante se verá, haveria de dar os passos necessários para que a artéria, que vindo a tomar o seu nome, por fim se rasgasse.

Embora discreta, funcionando quase como escapatória ou fuga de uma zona complexa e agitada como a Valeta, a rua do Lira, aberta em 1876, foi, com efeito, uma das mais importantes artérias com que a vila contou na época, pois veio permitir-lhe uma circulação radial, que fez com que se encurtassem distâncias e se ganhasse uma nova dinâmica em termos de expansão urbana.

A propósito da abertura desse novo arruamento, José Cândido Gomes, no seu livro «As Terras de Valdovês», volume II, página 62, escreve o seguinte: «Em 6 de Abril [1876] é presente um ofício em que António Costa Lyra Prego declara ceder à Câmara o terreno para a abertura desde a Estrada Real ao Largo do Pelourinho. A Câmara resolveu agradecer ao referido cavalheiro e deu o nome de rua do Lyra à referida rua, como prova de consideração ao ofertante».

Por diversas vezes, em circunstâncias anteriores, me referi às origens desta rua, baseando-me nas considerações que Cândido Gomes teceu a propósito, por reputá-las como exactas, escudando-me no conceito de confiabilidade em que tinha e continuo a ter o trabalho daquele historiador.

Tive, entretanto a oportunidade de consultar, no Arquivo Municipal, algumas actas do século XIX, entre as quais aquela que Cândido Gomes refere, a de 6 de Abril de 1876, como sendo a que trata da cedência do terreno à edilidade arcuense para nele ser aberta uma rua destinada a ligar a rua da Estrada, actual Soares Pereira, ao Largo do Pelourinho, conhecido desde 1895 como Largo da Valeta, altura em que o monumento que lhe dava o nome, ter sido transferido para junto da igreja matriz, por ordem do então presidente da Câmara dr. Pedro de Brito.

Pude constatar, numa pesquisa preliminar que fiz à documentação levantada, que existem pelo menos duas actas que tratam desta questão do terreno: a primeira, datada de 6 de Abril de 1876, em que descrevem em pormenor os contornos da mudança de mãos do terreno, e a do dia seguinte, 7 de Abril, na qual a Câmara, reconhecida, agradece a Lira Prego (Lira com «i» como está nas actas, contrariamente ao «y» que a grafia na altura obrigava e que Cândido Gomes se limita a seguir), a cedência do terreno que, como a própria Câmara afirma naquele documento, constitui «um notável melhoramento material da localidade».

O que há então de diferente entre o que dizem as actas e o que Cândido Gomes escreve?

Em primeiro lugar — e isso é facto aí documentado — é que Lyra Prego se fez representar nessa sessão camarária por um procurador, Manuel Bento da Rocha Gomes, que o credenciava perante a autarquia, para negociar com ela o terreno em questão. E quando emprego o verbo negociar é por considerar tratar-se de uma transacção mercantil, não de uma cedência ou oferta, como, desavisadamente, se poderá inferir do relato de Cândido Gomes, que trata Lyra Prego como ofertante, faço-o por ser em termos de permuta que a acta se refere, constando inclusivamente nela os termos precisos em que o negócio é feito e ao que cada uma das partes se obriga.

Vejamos o que diz a acta do dia 6 nas suas passagens mais relevantes: «[…] por ele procurador foi dito que […] cedia à Câmara o terreno parceiro para a abertura de uma rua, da estrada nova à Valeta, pelo campo do Pinheiro, pertencente ao seu constituinte […]; e em troca deste terreno a mesma Câmara cede ao dito seu constituinte o terreno que tem junto à mesma estrada nova, entre esta e o dito campo do Pinheiro, ficando a poente deste, bem como o terreno que constituía a servidão ou carreiro que vai da estrada à Valeta e com as condições mais que a Câmara fica obrigada a vedar à sua custa, por paredes, o campo dito do Pinheiro e desterrar, também à sua custa, aquele terreno que cede de modo a que fique a nivelar com o mesmo campo, de modo a que possa regar e aquele terreno fique em estado de cultura e finalmente de lhe fazer servidão da estrada para o campo dito, de carro e a pé, para o serviço de cultura […]. Condições estas a que a Câmara se sujeita e por isto houveram este contrato de troca por feito, obrigando-se um e outros ao seu cumprimento».

Desta acta se conclui, portanto, de forma irrefutável, ter a Câmara celebrado um contrato de permuta de terrenos com António Lyra Prego, através do seu procurador Manuel Rocha Gomes, no qual se expressa claramente e sem qualquer margem de dúvida, o que a cada um dos interventores cabia.

Muito embora esteja lavrado na acta do dia seguinte, dia 7 de Abril, ter o vereador José Maria de Azevedo declarado ter Lyra Prego «cedido gratuitamente a esta Câmara o terreno para a abertura de uma rua da estrada em direcção à Valeta», motivo pelo qual propôs um voto de louvor e agradecimento pelo seu gesto, fica claro, porque explicito na primeira acta, tratar-se de uma permuta de terrenos e não uma cedência gratuita de apenas um contraente.

Finalmente, em nenhuma das actas se fala na atribuição do nome de Lyra à rua, com prova de consideração pela gentileza do monçanense. Era prática na altura, como agora, de resto, designar-se uma artéria pelo nome completo, ou parte significativa dele, da figura que se queria homenagear. Nunca pelo seu último nome ou apelido. Não há na vila, tirando este, nenhum outro exemplo disso.

Numa interpretação pessoal, tudo me faz crer que foi o povo da Valeta que deu o nome à rua, tanto mais que ela veio substituir, ampliando-o, o carreiro que atravessava o campo do «Lyra», objecto da permuta. E rua do Lyra ficou, não restando outra alternativa à Câmara senão corroborar e oficializar aquilo que o povo já havia determinado.

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