O IMPÉRIO

No meu texto «Os Reis do Mambo», publicado neste jornal há cerca de um mês, formulei um conjunto de apreciações ao trabalho da associação Folia, apreciações essas que não poderão ser desligadas da minha experiência de muitos anos como animador cultural, da minha vida de empregado, de patrão, daquilo que aprendi e sempre aprendo nos livros, nas ruas, a observar as pessoas, o mundo. Nunca na televisão, que são óculos que não uso.

Muito embora essas notas críticas tivessem como razão primeira a falta de preparo daquela associação para tocar uma partitura que é complexa, para a qual não tem objectivamente, em minha opinião, quer estofo quer apresto cultural, não podemos deixar de imputar o grosso das culpas para quem efectivamente as tem: o executivo camarário.

No seu afã de assalto à estrutura do poder, em toda a sua extensão e nas mais variadas vertentes, o partido laranja deixa para trás aspectos essenciais com que qualquer sistema de cúpula tem de se apetrechar, esquecendo que é preciso ter quadros competentes, chefias engajadas e voluntariosas; esquecendo que é necessária uma galvanização permanente — não apenas em épocas eleitorais —, a fim de evitar o insano esforço de ter de se usar a massa encefálica até ao limite do humanamente aceitável para promover festas e festiúnculas a propósito de coisas que nem ao diabo lembram, a exemplo dessa questão tão descabelada como a bênção das concertinas na festa da Peneda.

O concessionário exclusivo

A Folia é, como se sabe, a concessionária da realização das festas do concelho e de outros eventos de menor dimensão, que a Câmara Municipal de Arcos de Valdevez lhe encomenda há já 17 anos. Por adjudicação directa e sem fim à vista. 

Não se questiona a legalidade de eventual tranquibérnia, a moralidade desta espécie de jigajoga burlesca. Não vale a pena. Desde há muito que o cidadão arcuense se acostumou a que, quando interpelada em sede própria ou juízo público sobre matérias de rigor processual, a Câmara não responda ou fuja a sete pés do assunto como o diabo da cruz. 

E a Folia, longe de ser o meu bombo de festa, funciona aqui, diga-se em abono da verdade, como mero exemplo de uma miríade de agremiações, desguarnecidas até à medula de equipas capacitadas e estimuladas, que só funcionam na cabeça de um presidente de Câmara que da realidade apenas conhece o peso e o alcance de algumas das suas palavras como quando diz — a 10 de Agosto ao Notícias Arcoenses — que «estamos a construir um concelho mais amigo, inclusivo e com mais oportunidades para todos». Frase bonita, de fino recorte, mas oca como as borbulhas da seven-up.

Um poder que tritura e arrasa

Como disso toda a gente tem conhecimento, o poder nos Arcos, desde a manhã redentora do 25 de Abril — Ah, como estas expressões libertadoras lhes doem! —, não conheceu outra cor que não o laranja, não experimentou outro sistema que dificilmente não poderá deixar de ser confundido com o compadrio e o arbítrio, não usou outras roupas que não o negro manto do antigamente.

O poder laranja arcuense arrasa e tritura todos os que ousem fazer-lhe frente, sem ter a honestidade intelectual de reconhecer que poderão existir outras alternativas mais consistentes que as soluções que propõe, sem nenhuma vez procurar o diálogo, situação própria de quem nunca dominou o verbo com a sagacidade e a subtileza de um poeta, de quem nunca sentiu, em síntese, a necessidade de escrever uma carta de amor que fosse.

Da Rádio Valdevez ao Notícias Arcoenses

É nessa linha do inaceitável, em que se esbanjam arranha-céus de dinheiros com eventos que não acrescentam nada à indigência cultural a que a Câmara tenta votar os seus munícipes — e já nem sequer me pronuncio sobre essa coisa abstrusa que se chama Doc’s Kingdom, uma festa de elites para meia dúzia de gatos-malteses, que vai na mesma linha financeira do extinto Concelho de Estado, e os seus barquinhos de papel, do sr. comendador Francisco Araújo, constituindo-se como formas exclusivistas de delapidação do erário público — e é nesse linha, dizia, que se vê uma Rádio Valdevez que faz tudo menos rádio, que não promove assembleias gerais nem quando os seus estatutos determinam, que não apresenta contas nem realiza eleições para os seus corpos sociais;

Uma rádio onde o animador mais conhecido, para quem o comboio do Tua e a biblioteca de Timbuktu serão rigorosamente a mesma coisa, que se disfarça de Hitler num cortejo de carnaval sem ter a mínima noção da repulsa que esse títere ainda hoje provoca na humanidade, e naquilo que de mais hediondo teve para contrariar a salvaguarda dos valores da vida;

Uma rádio onde o animador principal faz da sua programação orgânica — com critério de mais que duvidosa importância e qualidade para a estação — transmissões dos inúmeros festivais onde se limita a anunciar, para o telemóvel, quem vai entrar em palco e outras monumentais vacuidades; onde os programas de sexta-feira à noite, nos quais passeia a sua presunção para umas poucas dezenas de indefectíveis, e onde, na mais descarada ilegalidade, atropela, de forma indecorosa, a justa e elementar defesa dos direitos dos autores, admirando-se, indignado, que o facebook lhe corte as emissões;

De um Notícias Arcoenses onde a boa-vontade e o esforço de alguns não é suficiente para esconder as exiguidades em matéria de línguística, articulação de ideias, capacidade argumentativa, para não falar já das insuficiências notórias da forma como estruturar um jornal. É natural que o desaparecimento entretanto ocorrido de Alberto Silva, homem influente na estrutura quer da Rádio Valdevez quer na do Notícias Arcoenses, e face à previsibilidade dessa ocorrência, esteja nos últimos tempos a obrigar a Câmara a encontrar uma solução conjunta para a direcção daqueles dois órgãos, tudo apontando para que essa escolha recaia num homem da cor e só depois, como é habitual nestas andanças da edilidade, nas suas capacidades para o desempenho dos cargos.

Finalmente a Folia. Que é a Folia evidentemente, pelo que nada mais haverá a acrescentar àquilo que há um mês aqui foi dito, sob pena de andarmos daqui até à eternidade sempre a bater no ceguinho.

Ao mais puro estilo vaticanista

Independentemente de terem ou não razão, o que é certo é que nos Arcos o PPD/PSD comanda toda a frente associativa, sob a batuta da Câmara Municipal e o dinheiro, repita-se, o dinheiro de todos os munícipes, qualquer que seja a sua coloração partidária.

Podendo, entretanto, considerar-se, dadas as suas especificidades, os casos dos Bombeiros Voluntários (Germano Amorim) Cruz Vermelha (Pedro Silva) e Santa Casa da Misericórdia (Francisco Araújo) como cenários particulares de domínio laranja a merecerem estudo autónomo, as agremiações culturais são avassaladoramente dominadas, ao bom estilo vaticanista, pela teocracia reinante.

Incluem-se neste número as já referidas Folia, a Rádio Valdevez e o Notícias Arcoenses, o Notícias dos Arcos, In.Cubo, Aciab, GEPA, o nascituro Clube de Cinema de Arcos de Valdevez e, preparando-se para completar o controlo do espectro audiovisual, numa operação sigilosa e com gastos, ao que tudo indica, para lá de vultuosos, a criação de uma TV arcuense.

Quando se menciona aqui o Notícias dos Arcos como fazendo parte do universo laranja, temos de ter presente a crise que nos anos que antecederam 2014 este jornal viveu, em grande parte provocada pela própria Câmara Municipal que, ao apadrinhar o surgimento do Notícias Arcoenses — e, dado ser um jornal de distribuição gratuita, seria bom que se dissesse donde vem o oxigénio que o faz respirar , cumpriu o desígnio de retirar ao decano das publicações do concelho muitos dos seus anunciantes, base estrutural da sua sobrevivência. Com a saída de Mário Pinto e a entrada de Paulo Castro para a direcção do jornal — naquilo que tudo leva a crer ter sido uma jogada cozinhada pelo poder —, passou a haver, e não vale a pena negá-lo, um controlo editorial do quinzenário por parte do PSD, que fez com que os anunciantes regressassem, e a grave crise do Notícias dos Arcos fosse aparentemente superada.

Entregues à bicharada

A juntar a todo este domínio tentacular, quase famigliano diria, poderemos, com o à vontade que a realidade nos mostra, acrescentar ainda repartições públicas como finanças, centro de emprego, tribunal, onde os homens e mulheres de mão do partido laranja chefiam verdadeiras bolsas de poder que o sistema se encarrega de perpetuar.

Para tornar ainda mais desusada a situação, para eternizar a iniquidade da conjuntura, haverá que considerar a importante variável do emprego, como factor de estabilidade ou instabilidade social. A simpatia e militância partidárias funcionam aqui, arriscando-me a escrever «sempre», como factor de preferência, e a Câmara, o maior empregador institucional da vila, a operar como catalizador e agregador da cor laranja na instituição e no concelho.

No seu livro «Tudo o que não escrevi» aconselha Eduardo Prado Coelho que «devemos combater sem tréguas esta ideia de uma cultura sem esforço, sem resistência, sem atrito…». Ora é exactamente contra esta «cultura sem esforço» que é promovida pela Câmara dos Arcos que nos deveremos insubordinar.

Se se fizer um levantamento — que nem valerá a pena ser exaustivo — daquilo que a nossa edilidade leva a cabo, sem esforço verificaremos que, na linha do que Prado Coelho nos insta a combater sem tréguas, está a «cultura» que é promovida por pessoas que, reconheça-se, tiveram acesso à educação, sabem ler e escrever mas, por infelicidade, nunca souberam exercer.

Estaremos condenados, para concluir, a viver eternamente sob a opressão da mediocridade, na tirania do vazio?

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