“Este mundo está cheio de ignorantes cheios de certezas e estudiosos cheios de dúvidas”

Num blogue de um amigo, li este comentário que me suscitou o tema para a actual crónica (e futuras). De facto, atendendo às circunstâncias, uma “crónica” como esta que agora publico periodicamente no Jornal AVV, não passa de um conjunto de “bitaites” escritos por alguém que tem a “lata” para os tornar públicos e expor-se à condição de ler alguns comentários positivos e agregadores, outros contestatários, outros até, excedendo a razoabilidade da urbanidade. Claro que quem me conhece, sabe que desde sempre defendo que a evolução nasce da contraposição de ideias e não do unanimismo. A minha deformação profissional de engenheiro e prática de técnico de desenvolvimento, implica que as ideias “fora da caixa”, são as mais interessantes, são as que propõe acções de mudança. Debatam-se ideias, não pessoas. Aquilo que aqui procurarei fazer será sempre nesta linha, ainda que eventualmente – porque errar faz parte da condição de realizar – possa falhar nesse desígnio.

Posto isto, e a propósito do título, há algumas temáticas a que assistimos contemporaneamente em que tenho visto escritos, ditos e veementemente defendidos, muitos fundamentalismos que correspondem à propalação de ideias que se moldam a certezas sem qualquer fundamentação técnica e científica. São o caso recente de algumas incríveis inverdades acerca do “glifosato”, mais conhecido por “roundup”, o risco acrescido de algumas espécies florestais na dinâmica dos fogos, os malefícios do consumo de carne, o movimento anti tauromaquia ou a defesa militante dos animais. Que o discurso político faça vingar uma ideia ideologicamente distorcida sobre alguns temas, estamos habituados e, até no limite, acharei legitimo.

Que algum jornalismo, com responsabilidade histórica alinhe em propaganda sem declarar interesses, é uma condição aviltante. Na actividade jornalística não existem factos mas apenas a perspectiva da sua interpretação. Ou seja, não há jornalismo inodoro ou incolor. Todo o jornalista tem uma interpretação sobre o que publica, apenas não expressa objectivamente a sua opinião (há países, como aqui a vizinha Espanha, em que a linha editorial do jornal é publicamente assumida, inclusive do ponto de vista ideológico). Os jornalistas ajudam a fabricar as “fake news” por falta de ética e deontologia profissional, porque publicam notícias mal fundamentadas, ou de todo não fundamentadas. Sei que são pressionados pelas redacções e pelos conselhos de administração para saírem com a “notícia de primeira mão”, mas tal não justifica a desinformação consequente de uma abordagem descontextualizada ou destituída de fundamentação técnico-científica. Não é o caso desta crónica, em que não sendo eu jornalista, expresso apenas a minha opinião, a minha leitura da realidade e não tenho pela redacção ou editor qualquer pressão neste ou naquele sentido, pelo contrário.

Esta construção aplica-se agora também e de uma forma mais grave, aos “bloguistas”, ou pura e simplesmente às opiniões expressas, partilhadas e reproduzidas milhares de vezes nas redes sociais, de uma forma acrítica (irreflectida também). Uma boa parte dessas opiniões são “certezas” de ignorantes (porque não conhecedores), até por vezes bem-intencionadas, mas a maioria delas sem qualquer fundamento científico. De seguida sobrevêm a “teoria da conspiração” e a suspeição sobre os “todos poderosos poderes instituídos da indústria e da grande finança”. Contudo, todos se esquecem que quando a fundamentação é razoável, credível, assente em pressupostos fortes e consequentes, os poderes instalados não resistem. Veja-se o caso dos clorofluorcarbonetos (CFC) e o seu impacto na camada de ozono. Do DDT, o insecticida milagroso dos anos 40 e 50 do século passado no combate aos vectores da malária (que nós mais velhos ainda usamos para matar os piolhos) mas com fortes efeitos colaterais cumulativos e residuais nas cadeias tróficas. Foram banidos sem grande resistência, porque as provas eram irrefutáveis. Outro caso mais recente, diria contemporâneo, é a substituição da lâmpada incandescente pela lâmpada LED, que trouxe uma significativa baixa de consumo de energia, quer no consumo directo, quer no indirecto, por não produzir calor.

Hoje, existem uma série de “modas” que para se tornarem credíveis, quiseram transformar hipóteses em certezas, fazendo afirmações que contrariam alguns pressupostos científicos de há muito provados. Contudo, poderiam seguir outras vias, essas credíveis, e que podem levar ao mesmo resultado. É o caso dos movimentos “anti-carne”, que agitam fundamentos a favor por exemplo do veganismo, querendo fazer o mesmo erro que os zootecnistas fizeram nos anos 70 e 80 do século passado ao transformar ruminantes, logo herbívoros, em carnívoros. E deu no que deu, com a crise das “vacas loucas”! Hoje, querem transformar o ser humano, um omnívoro, num herbívoro! Não quer dizer que o consumo de carne como fonte de proteína não deva ser diminuído. Claro que sim! Não quer dizer que não devamos regressar mais ao consumo de proteínas vegetais, como o fazíamos até há um século atrás. Claro que sim! Agora não queiram fazer crer que o consumo apenas de fontes vegetais é equilibrado, porque não é! As fontes naturais de vitamina D, muito necessária á prevenção de doenças cardiovasculares, osteoporose, diabetes, cancro e várias patologias auto-imunes, são provenientes das carnes, dos peixes – como salmão, sardinha e carapau -, dos mariscos, e de alimentos como ovo, leite, fígado, queijos e cogumelos. Apanhando sol, a nossa pele também proporciona a síntese de Vitamina D, mas não de forma bastante.

Referindo as vias credíveis anti-carne, são a destruição de matas e florestas na Amazónia ou na Indonésia, para aumentar a produção de gado vacum, com a redução dos sumidouros de carbono e o aumento incremental da produção de metano, um dos gases produtores do efeito de estufa, causador das alterações climáticas que vivemos. Outro, é transformação de proteína vegetal em animal através da alimentação de animais por exemplo com produtos transformados á base de soja, com gastos e perdas enormes no circuito alimentar. Estas por si só são razões fortes para reduzirmos a produção de carne, aumentando a eficácia e a disponibilidade da proteína para alimentarmos a crescente população mundial.

Deixarei para outras crónicas, até porque esta já vai longa, a abordagem de outras “certezas” tão insensatas quanto as referidas, mas que exigem uma abordagem mais aprofundada, porquanto algumas dela implicam uma discussão mais alargada, nomeadamente sobre as implicações na alteração dos princípios éticos que lhes estão subjacentes.

Deixo desde já e para memória futura, a minha manifestação de interesse, ao invocar a minha condição ética de formação católica (ainda que não praticante, religiosamente falando). Reconheço à minha latinidade de formação e vivência, uma forte influência na forma como penso e nos valores que defendo. A isso não é alheia a formação académica que tive, profundamente enraizada na influência francesa, ainda que posteriormente a minha actualização profissional e empresarial fosse mais americana e alemã.

Aaahh! Alerto para que os investigadores (estudiosos) continuam com dúvidas e procuram sempre por em causa as certezas que o conhecimento passado nos trouxe!

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