Memórias I

Assim nasci e cresci, lá para o Minho, entre casas de quintais onde habitavam diversas espécies de folhagem e de bicharada.

Corriam serenos os dias, nesse tempo. Não me consigo lembrar da chuva que prolongava o inverno, num vale pequeno, meio afunilado, que via o sol desaparecer às três, quatro da tarde. A memória parece ter apagado os dias cinzentos e só me revejo em tardes claras, límpidas de preocupações, quer brincando com as figuras imaginárias que projetava no jardim, quer sentada numa pequena cadeira de costura ouvindo as histórias que a velha tia-avó tinha para me contar.

 

– Queres que te conte uma história?

– Quero! – Retorquia prontamente, sabendo, de antemão, o que me esperava.

– Não é quero! Queres que te conte uma história?

– Quero! – Repetia com mais vontade.

E estes desconcertos prolongavam-se por algum tempo – porque nessa altura não havia tempo – até a velha tia ter pena de mim e lá começar, então, uma história com pés e cabeça.

Histórias havia muitas, sempre houve, mas não daquelas corriqueiras que se trazem da rua e se espalham pelo silêncio das casas, envenenando o estuque que cobre as paredes velhas e cansadas. Eram histórias que saíam de dentro dos livros e que enchiam a sala fria e quieta e que, mesmo antes de saber ler, já imaginava. Era o tempo dos finais felizes, daqueles moldados ao e foram felizes para sempre.

 

– Nestes livros não mexes, só nestes.

Ora bem, mais curiosa ficava, mas o velho avô, que não era de muitas falas, nunca explicou o motivo daquela ordenança, que eu, não raras vezes, desrespeitei, num ato que me pesava na consciência e me fazia questionar se teria de o relatar em confissão ajoelhada frente ao padre Amaro.

Tinha encontrado, já nessa altura, uma forma de me libertar desse peso.

Senhor padre, desobedeci ao meu avô.

Eu sabia que aquele padre, que era um santo, não me perguntaria nunca qual tinha sido a desobediência. Assim, ficávamos os dois libertos de qualquer irregularidade ditada pelas santas normas da igreja: ele, porque desconhecia, eu, porque poderia, durante mais uns tempos, vasculhar os livros que se erguiam, solenes, nas estantes proibidas, sem ter qualquer peso na consciência.

O padre, esse continuaria a olhar para mim como uma menina bem comportada, educada dentro da fé católica. Poderia ir às novenas de maio, entrar na procissão da Senhora do Castelo e declamar no palanque exterior da igreja matriz, toda vestida de branco, no meio de outras tantas meninas cujos pecados não eram mais do que os meus.

Sobre esse tempo só posso marcá-lo em vocábulos que se desprendem das mãos, em pedaços, retalhos dos livros que li, dos que ainda não li e das velhas histórias da velha tia-avó, que, no intervalo das efabulações, ainda dava uns passos de rumba, cantarolando baixinho uma música que nunca identifiquei.

Lembras-me a primavera precoce dos
rosários não contados
a essência do cerume
já queimado.
Oravas?
Eu marcava o tempo
fingido em cada dedo gotejado
e era o sino que agitava
a noite (não o incenso).
Perdemos essas contas
abrolhadas e ficou-me
a aresta de granito
que o canto da cigarra contornou.

 

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