Emigração em AVV. Entre a coragem de partir e o medo de ficar

Arcos de Valdevez é historicamente um ponto de partida de portugueses, desde há mais de um século. Vagas de emigração para o Brasil, França, Canadá, Estados Unidos e para os quatro cantos do Mundo esvaziaram sistematicamente o concelho. Nas últimas décadas esta realidade foi especialmente grave porque a saída de arcuenses, na sua maior parte jovens em idade activa, coincidiu com o período da História portuguesa em que os números da natalidade são os mais baixos desde que há registo. Isto é, enquanto nos anos sessenta saíram cerca de 100 ou 120 000 portugueses por ano para a emigração ou exílio, esta sangria era compensada com nascimentos de mais de 200 000 crianças por ano. Em contrapartida, em 2017, saíram 81 000 emigrantes portugueses e nasceram apenas 86 000 crianças. Este é o drama demográfico nacional: poucos nascimentos e muitas saídas de população activa. Um problema que é ainda mais evidente em territórios como o de Arcos de Valdevez mas que é, aliás, também europeu e de quase todo o Mundo Ocidental.

O desafio para esta e próximas gerações arcuenses é este: garantir que daqui a 100 anos Arcos de Valdevez não estão transformados numa vila fantasma. Onde existam tão poucas pessoas que até já se pondere construir uma barragem em Paçô que alague tudo até à Peneda. Arcos de Valdevez reduzido ao estatuto de território para regadio. Uma previsão absurda mas ilustrativa.

Há muito a fazer nos Arcos para garantir condições a quem quer ou pode ficar e a quem quer voltar. Muitas dessas condições escapam ao nosso controlo e dependem muito mais de estratégias nacionais e condicionantes internacionais. Mas existe algo que está em nosso poder concretizar porque antes das condições económicas, existem questões de justiça social e distribuição de riqueza que são basilares na construção da sociedade, que vão desde a educação que damos aos nossos filhos e os valores que lhes incutimos, até às decisões que tomamos ou que permitimos que tomem por nós.

Arcos de Valdevez, se pretende ser uma terra próspera para as gerações vindouras tem de deixar de ser uma terra de futuro apenas para os predestinados a quem estão reservadas as oportunidades ou para os corajosos que teimam em fazer dos Arcos o seu mercado de actuação, sujeitos à bênção do poder instalado se conhecerem as pessoas certas, à indiferença se voarem abaixo do radar sem levantar muito a crista, ou ao ostracismo se tiverem alguma actividade cívica que choque com o status quo.

Antes da coragem para partir, Arcos de Valdevez precisa combater o medo de ficar dos jovens, garantindo oportunidades justas, concursos transparentes, valorização do mérito acima do cartão de militante. Arcos de Valdevez precisa que o espírito jovem, essencial ao progresso do concelho não se submeta a vícios velhos de caciques caducos.

O que se espera de um jovem, aliás, aquilo de que qualquer comunidade precisa, é que o dinamismo e até a postura desafiante da sua camada mais jovem, questione, agite as águas, levante as pedras. Atire as pedras…

Se os jovens arcuenses lutarem por isto, podem até não conseguir inverter totalmente o saldo demográfico mas vão, com certeza, contribuir para uma sociedade baseada no mérito do trabalho e na competência, onde será mais fácil para os seus filhos encontrarem uma oportunidade justa, na sua terra.

0 comentários