“Uma história triste” motivou Carlos Pontes a fotografar o Lobo-ibérico. Hoje é uma convivência feliz

Carlos Pontes cresceu em Ponte da Barca, um dos concelhos do Parque Nacional Peneda-Gerês que mais se imerge no único parque nacional do país. Já conhecia o lobo ibérico e a sua história de perto, mas um dia, um lobo em particular e “uma história triste” levaram-no a estudar com afinco e a observar e perto este mítico animal selvagem.

Desde cedo começou a fazer fotos de outras áreas da região minhota, no entanto, como o próprio admite, é nos cinco concelhos que compõem a área do PNPG onde passa inúmeras noites e madrugadas a vigiar a vida selvagem que não raras vezes desfila sem receios bem perto da sua objectiva.

“O lobo foi o animal que me ‘empurrou’ para a compra da minha primeira máquina fotográfica. Nos primeiros dois anos fiz recolha de amostras para estudos científicos numa alcateia do Alto Minho e desde então tenho seguido a reprodução de cinco alcateias e apostado em duas para seguir mais de perto e poder fazer registo deste acompanhamento em fotografia e vídeo”, explica Carlos Pontes.

“Acompanhar e observar de perto esta espécie é um trabalho árduo e contínuo, são anos de trabalho, dias e noites longas. Vivo a cerca de quarenta quilómetros das alcateias que acompanho, o que significa menos horas de sono, quando não pernoito nos locais”, nota ainda o barquense que não reconhece as fronteiras administrativas dos concelhos minhotos quando se trata de perseguir as alcateias que fazem do Parque Nacional Peneda-Gerês a sua casa.

“Arcos de Valdevez tem o dobro das alcateias”

Desde 2009 que não lhes perde o rasto, e o diagnóstico é registado ao pormenor, daquilo que consegue testemunhar. “Em qualquer condição atmosférica tenho de lá estar, observar e aprender, o mínimo que seja é mais um dado a apontar. Fazer um seguimento fotográfico de uma espécie nos vários estágios requer conhecimento, mas, acima de tudo muita paciência, determinação, paixão e preparação física”.

Ameaçado de extinção, a campanha de sensibilização para a protecção do lobo-ibérico, associada à mudança do modo de vida das populações, menos dependente do pastoreio, deram alguma trégua à antiga guerra entre o homem e este animal, mas por cá ainda há muito a resolver para que a convivência seja pacífica. Afinal, perante a falta de presas naturais, o lobo continua a ser um animal selvagem sem pejo em descer até bem próximo das povoações para manter a sua dieta alimentar.

“Em relação à diminuição drástica de presas naturais do lobo, o problema não existe só dentro do Parque Nacional, mas em toda a região Norte, e deve-se principalmente à escassez ou à falta de gestão na caça. Se houvesse uma boa gestão cinegética, todo o sector ganhava com isso, haveria maior disponibilidade de presas para o lobo e menor prejuízo para os criadores de gado. Muitos deles são também caçadores e compreendem isso”, atira o fotógrafo.

A mensagem serve para todas as entidades e associações do sector na região, mas sobretudo para as que operam nas zonas de caça de Arcos de Valdevez, uma vez que o território do concelho alberga “o dobro das alcateias presentes nos outros concelhos”.

O lobo não é um produto turístico,
mas é garantia de qualidade do PNPG

Nas melhores brochuras sobre o PNPG ou sobre o Alto Minho enquanto destino turístico, o lobo surge como uma das riquezas naturais do território. Sendo pouco provável o encontro do turista ocasional com este habitante das serras minhotas, a imagem do lobo-ibérico é quase um selo de ‘garantia de qualidade’ da natureza em que se insere. Mas, e se o encontro acontecer? Carlos Pontes, que já registou muitos desses momentos em vivas cores, diz que nada há a recear.

“Toda esta área é riquíssima em fauna e flora para ser explorada pelo turismo, obviamente que com moderação e salvaguarda das espécies. Ninguém deve recear qualquer contacto com animais selvagens, desde que os respeitem e não os molestem ou persigam. Ter um encontro com um lobo em que este esteja perto é muito raro, pois normalmente os seus sentidos estão sempre alerta e dificilmente deixa que nos aproximemos, mas mesmo que aconteça, deve-se aproveitar o momento, que por certo será muito breve”, esclarece.

Algumas das imagens que nos enchem o olho nas redes sociais do fotógrafo já foram também mote para exposições. E cumpre-se o objectivo de mostrar que este animal selvagem não é o “lobo-mau” das histórias com que muitos de nós crescemos.
“O principal objectivo das minhas imagens é conseguir passar às pessoas aquilo que existe no meio envolvente através da forma como vejo e sinto, sensibilizá-las para o meio frágil que todos nós temos que preservar. No caso do lobo, o grande objectivo é desmistificar a falsa ideia do “lobo mau” e tentar mostrar às pessoas, através da fotografia e histórias, o lado real deste magnífico animal”.

 

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