Entre lírios e escarpas

Sebastião da Gama, poeta e professor-pedagogo, entrou no meu mundo em finais dos anos setenta, durante o ano de estágio, através da sua obra Diário.

– «Tens muito que fazer?

– Não. Tenho muito que amar.»

Seguiu-se uma paixão pela descoberta dos seus poemas e outros textos em tempos onde nem se sonhava com a internet e nos refugiávamos na biblioteca pública para assim se vasculhar a vida e a obra dos nossos autores de referência.

Assumindo a pergunta e a resposta do poeta tentei percorrer os anos que se seguiram. Tinha-me apaixonado por aquele homem, sem sombra nem dúvida e nem sonhava que, um dia, iria viver onde ele viveu, iria deslumbrar-me naquelas alturas a que ele chamou de Serra-Mãe, iria pasmar os olhos naquele penedo com vista para o mar infindo.

Fazia todo o sentido querer que os meus alunos fossem felizes, felizes com o que escreviam, felizes com o que liam, felizes com a vida.

Em Cabreiros a escola era uma velha casa onde trabalhavam cerca de dezassete professores. Tocaram-me, nesse ano, apenas turmas de Português, que arrastaram consigo uma boa centena de alunos que ainda hoje recordo pela sua singularidade e pela sua pureza de alma.

Quando as aulas começavam, às oito e meia, já o João tinha ido soltar as vacas e a Lúcia dado de comer a coelhos e galinhas. O Romeu já tinha cegado erva e a Luciana encaminhado as “micas”, vulgo, ovelhas e cabras, para a pastagem.

– Senhora, estão a trupar à porta!

– Estão o quê?…

– A trupar à porta!

O meu estatuto era, então, o de senhora. Uma senhora como se de uma vénia se tratasse, eloquente e terno. Porque todos eles eram ternos e felizes.

Mal a primavera arribou encheram-me de ramos de flores campestres que apanhavam pelo caminho e os seus olhos brilhavam na alegria daquela oferta. Faziam fila e eu retribuía com tudo o que tinha para dar.

Anos mais tarde, por escolas da Arrábida, analisávamos a Fada Oriana, de Sophia de Mello Breyner, obra ímpar que sempre li com os meus alunos, na certeza de que todos cresciam depois de aprofundar a sua leitura.

A agitação era justificada: quem podia ficar indiferente àquela fada? Quem não lhe perdoava as fraquezas? Quem não se deliciava quando o poeta lhe pedia para encantar a noite? E ela encantava…

Porém, uma questão mantinha-se em aberto desde o momento inicial da leitura: afinal havia ou não havia fadas? Se, à primeira impressão, alguns tinham manifestado o seu descrédito a verdade é que todos se tinham rendido a uma evidência indiscutível. Sim, havia fadas! Todos, exceto o Luís, pequenito e de cara redonda, que era o desmancha-prazeres da turma: não, ele não acreditava em fadas! E nada que os colegas tivessem argumentado o fez voltar atrás.

Procurei manter-me imparcial limitando-me a gerir a discussão e anotando de memória os argumentos de uns e de outros. Toca para sair. Todos começam a arrumar os seus materiais e o Luís, que estava ali mesmo à minha frente, demora-se mais do que o habitual. Guarda um livro, depois outro, vai olhando para os colegas até que acaba por ficar só. Só ele e eu. Espero. Vem ter comigo e desabafa:

– Ó professora, eu sei que não há fadas, mas… se houvesse, de que tamanho é que seriam?

O Luís deve estar agora um homem. Na voz em sussurro do tempo que nos separa continuo a dizer-te, Luís: do tamanho que tu quiseres, meu querido, do tamanho que tu sonhares…

Ficaram-me as flores, em ramos secos, que disperso pelas paredes de casa, que solto na paisagem ora verde ora escarpada dessa serra cantada por Sebastião da Gama. Subia-lhe ao cimo e daí via o mundo em todos os seus elementos. Também aí, nesse lugar ermo, eu podia cantar os versos de Nelson Vilela: Minha terra é outra, lá longe/Onde, serra acima, ovelhas e neve/bordam tudo de brancura./Onde Deus, sem mar, inventou mastros e caravelas/E onde pedras e estrelas dormem à mesma altura./…

– És uma mulher do norte!…

Sou uma mulher das alturas, uma senhora, uma andarilha entre a serra que me pariu e a que me guardou, meio perdida, entre lírios bravos e escarpas.

0 comentários