Rui Henrique Alves (Bruxelas)

“O mais difícil foi horário de inverno e falta de qualidade de diversos serviços”

A rubrica Arcuenses pelo Mundo arranca no Jornal AVV com a entrevista a Rui Henrique Alves, ex-Presidente da Assembleia Municipal de Arcos de Valdevez (1997-2013), que reside em Bruxelas, na Bélgica, há cerca de cinco anos.

Com meio Século de vida, este arcuense de coração, que nasceu em Ponte da Barca, é Conselheiro Técnico Principal e Coordenador do Núcleo de Economia e Finanças da Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia (REPER), cargo que o levou a terras belgas. Também foi professor auxiliar da Faculdade de Economia do Porto (FEP) e é autor de vários livros e artigos científicos, e investigador nas áreas da Economia Europeia e Macroeconomia.

À conversa com o Jornal AVV conta como está a correr esta sua aventura por Bruxelas, o coração da União Europeia, deixando o seu olhar à distância sobre os Arcos.

 

Jornal AVV – Como é que foi parar a Bruxelas?

Rui Henrique Alves – No verão de 2013, fui questionado sobre a disponibilidade para assumir as atuais funções [na REPER] e achei um desafio interessante.

Em termos genéricos, quais são as suas funções na REPER e qual é a “missão” desta entidade?

A REPER é a representação permanente de Portugal junto da União Europeia. Trata-se de uma estrutura composta por diplomatas, conselheiros técnicos e pessoal administrativo, que, sob a direção do Embaixador Representante Permanente, representa os interesses nacionais, definidos pelo governo português, junto das instituições europeias. Em particular, assegura a representação do país nos diversos grupos de trabalho no Conselho da União Europeia, onde se preparam decisões de caráter legislativo e não legislativo por esta instituição. Estas, após passagem no Comité dos Representantes Permanentes (COREPER), são depois adotadas a nível político pelos Ministros e, dependendo das situações, eventualmente negociadas ainda com o Parlamento Europeu. Em termos de estrutura, a REPER mimetiza de algum modo a do governo: assim, temos pessoas ligadas às questões das Finanças, da Economia, da Agricultura, da Energia, etc. No meu caso, coordeno um grupo de 8 pessoas que tratam das mais diversas questões que, em Portugal, são competência do Ministério das Finanças. Estamos assim a falar de tópicos associados à política orçamental, ao orçamento da UE, à tributação, aos mercados e serviços financeiros, à área aduaneira. 

O que foi mais difícil na sua adaptação a Bruxelas? E o que foi mais fácil?

Diria que o mais difícil terá sido habituar a duas coisas: ao horário de inverno (entre meados de novembro e meados de janeiro) – às 16:30 horas já é de noite; e à falta de qualidade de diversos serviços (para alguns dos quais em Portugal se calhar nos queixamos). O mais fácil: ao novo trabalho, contando com um ambiente bem agradável e rodeado de gente muito competente.

Como é que os portugueses são vistos em Bruxelas?

Acho que de forma idêntica ao modo como são vistos em outras partes do mundo, sobretudo como gente afável, honesta e trabalhadora.

Quais as principais diferenças entre as culturas portuguesa e belga?

Os belgas são claramente um povo mais fechado e desconfiado…

Já assimilou alguma mania dos bruxelenses?

Sinceramente não sei… Como já gostava imenso de “frites” [as famosas batatas fritas belgas] e de chocolate…

E que tradições ou hábitos arcuenses ou portugueses gosta de manter no seu quotidiano?

Tenho de confessar que não sou muito agarrado a tradições…

Emigrar, compensa? 

Tenho alguma dificuldade em responder a esta pergunta. Noto que, no meu caso, não se tratou (felizmente) de uma emigração por necessidade ou por uma opção profissional mais permanente, mas antes para desempenhar funções públicas de natureza temporária. Quanto a estas, posso dizer que claramente compensa, tratando-se de uma experiência única, sobretudo de ver no concreto o modo como funciona a integração económica e política na Europa, isto depois de muitos anos a “ensinar” sobre isso.  

Os seus planos, a médio e longo prazo, passam pelo regresso aos Arcos? Ou pretende continuar a viver em Bruxelas?

Não sou muito de fazer planos, menos ainda a médio e longo prazo. Por agora, estou nas funções que referi. Depois logo se verá, sendo o regresso à Universidade e à minha profissão habitual (professor) sempre uma das opções mais prováveis.

Tem perspetivas de voltar à vida política ativa no concelho dos Arcos?

Embora não se deva dizer “nunca” quando se fala do futuro, cá vai… Se a pergunta se refere à política partidária, a minha resposta é claramente negativa: esse é um capítulo encerrado na minha vida e é bom voltar a ser independente. Já no que respeita à política enquanto arma nobre da cidadania (por definição), é algo que nunca abandonarei.

À distância, como é que olha para o momento atual de Arcos de Valdevez? Política, social e economicamente?

– Compreenderá que não me queira pronunciar sobre a situação política. Quanto à questão económica, é claro o desenvolvimento que o concelho conseguiu garantir ao longo de vários anos. O que não invalida que subsistam problemas de natureza económica e social e que deva continuar a trabalhar-se para melhorar.

Se pudesse, o que é que mudava ou fazia nos Arcos para beneficiar o concelho e os seus residentes? 

O que veria como mais importante seria garantir a união de forças de todos em prol da tal melhoria contínua que importa promover. Num concelho relativamente pequeno em população, todos são poucos para construir o futuro.

E do que é que um arcuense a viver em Bruxelas sente mais saudades (sem ser o óbvio: a família e os amigos)? O que é que lhe faz mais falta dos Arcos?

Sem ser a família e os amigos…. Difícil… Talvez um bom caldo verde, um ainda melhor bacalhau e, a terminar, uns charutos dos Arcos!

0 comentários