Slow food, uma forma de estar e viver

SLOW FOOD, MAIS QUE UM CONCEITO, UMA FORMA DE ESTAR E VIVER, UM CONTRIBUTO PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTADO DE TERRITÓRIOS RURAIS

O sector primário, enfrenta um processo de globalização e industrialização que está na origem de uma indústria alimentar que produz alimentos pré-confecionados, iguais em todo o mundo, e a preços muito baixos. Hoje em dia, consegue-se uma refeição exatamente igual em ingredientes, sabor e preço, no mesmo instante, quer estejamos em Lisboa, em Nova Iorque ou em Pequim. 

O sistema agroindustrial, agora predominante, é um sistema intensivo, de grande escala, baseado em monoculturas, no uso e abuso de produtos químicos (fertilizantes e fitossanitários) e em sementes patenteadas, propriedade de um reduzido número de gigantes multinacionais. Assistimos ao aparecimento de monopólios que controlam os nossos sistemas agroalimentares: as cinco maiores empresas mundiais, controlam atualmente mais de 60% do mercado mundial de sementes comerciais e mais de 75 % do mercado de agroquímicos.

Todos nós somos consumidores de produtos alimentares, mas apenas alguns de nós são produtores. Se é verdade que a qualidade dos produtos e a incorporação de agentes nocivos à saúde é da responsabilidade dos produtores, não é menos verdade que todos nós enquanto consumidores deveríamos estar atento ao que compramos, ao que consumimos e ao que servimos à mesa de nossas casas.   

Quem de entre nós, quando vai às compras, se preocupa em saber a origem dos produtos, de quem os produziu, que sistemas de produção foram utilizados, que aditivos, químicos ou fatores de produção foram incorporados?   

Cabe a cada um de nós zelar pela qualidade do que comemos e do que disponibilizamos aos nosso familiares e amigos, cabe a cada um de nós tornar-se um co-produtor. 

Como refere “Carlo Petrini”, “Um co-produtor é um consumidor que conhece e compreende os problemas da produção de alimentos: qualidade, economia, processamento, aspeto culinário. Não é somente alguém que consome. É alguém que quer saber.” 

“Carlo Petrini”, é fundador e líder da organização Slow Food, uma associação internacional sem fins lucrativos, fundada em Itália em 1989 como resposta aos efeitos padronizantes do fast-food; ao ritmo frenético da vida atual; ao desaparecimento das tradições gastronómicas regionais; ao decrescente interesse das pessoas na sua alimentação. 

Hoje, com mais de 100.000 membros espalhados por mais de 160 países, trabalham para garantir o acesso a um alimento bom, limpo e justo, para todos.

Um alimento Bom: significa apetitoso e saboroso, fresco e capaz de estimular e satisfazer os sentidos.

Um alimento Limpo: significa que foi produzido respeitando o meio-ambiente, o bem-estar animal e a saúde humana.

Um alimento Justo: significa o pagamento justo para todos os envolvidos no processo, desde a produção até a comercialização e consumo. 

O movimento Slow Food, acredita que os alimentos estão ligados a muitos outros aspetos da vida, incluindo a cultura, a política, a agricultura e o meio ambiente. Acredita igualmente, que todos nós, através das nossas escolhas alimentares, podemos influenciar, coletivamente, a forma de como os alimentos são cultivados, produzidos e distribuídos, contribuindo assim, para a mudança do paradigma atual.

Pessoalmente, acredito que os produtos são um dos principais instrumentos das estratégias de desenvolvimento rural sustentado, podendo contribuindo para: preservar os territórios de onde provêm, as suas culturas e tradições, promover a dignidade das profissões tradicionais, propor um modelo diferente de economia e de futuro.

Quando se recuperou o “feijão terrestre” ou a “carne de cachena”, o objetivo não estava apenas centrado na recuperação da semente ou da raça. Sendo este aspeto importante, sem dúvida, mas o que estávamos a iniciar era uma estratégia de desenvolvimento sustentado para um território assente nos seus principais recursos endógenos e inimitáveis. Recursos, que se adaptaram e desenvolveram ao longo de séculos de história, pela intervenção cuidada do homem, a um território agreste mas deslumbrante. O objetivo desta iniciativa era gerar atividade económica capaz de sustentar e manter o território de montanha de Arcos de Valdevez, vivo e dinâmico. 

A responsabilidade pela manutenção dos sistemas tradicionais e dos territórios rurais, não é da exclusiva responsabilidade das instituições públicas ou coletivas, mas de todos nós enquanto cidadãos responsáveis e solidários. Como pode, cada um de nós, contribuir para a sustentabilidade do território?, pois de uma forma muito simples, adquirir nos mercados locais e aos produtores locais os seus produtos de qualidade. Quando falamos em produtores locais, geralmente falamos em pequenos agricultores, na agricultura familiar, cuja capacidade de entrar nos grande mercados e nas grandes cadeias de distribuição é reduzida, pelo que a alternativa passa pelo escoamento dos seus produtos em cadeias curtas de comercialização.

A aposta nas cadeias curtas de comercialização, como os mercados e eventos locais, pode ser um dos elementos-chave da agricultura sustentável, garantindo um rendimento digno para os agricultores e ao mesmo tempo preços acessíveis para os consumidores, respeitando a diversidade cultural e as tradições.

Comprar nos mercados locais, permite:

– Acesso a produtos Frescos no sabor: produtos sazonais, colhidos na época da maturação e variedades adaptadas ao local;

– Produtos que percorreram Menor distância: menos transporte, menos embalagens, significa menos poluição; 

Maior conhecimento e controlo sobre o que comemos e como é produzido; 

– Assegurar a sobrevivência de sistemas tradicionais e sustentáveis de produção, raças autóctones, espécies e variedades de produtos; 

Preservação e proteção da paisagem local e da regionalidade. 

Relembrando “Carlo Petrini”, toda esta ideologia e estratégia só funciona se todos nós, enquanto consumidores, contribuirmos e nos envolvermos como autênticos e genuínos CO-PRODUTORES.

 

 

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