Agir por ignorância versus na ignorância

Ignorância é o acto que caracteriza uma pessoa que não tem instrução, que ignora, que revela falta de saberdesconhecimentoimperícia, ou num sentido mais pejorativo que é estúpidotoloinepto ou imbecil. Também pode qualificar uma pessoa ou atitude como inocente ou ingénua. Ou ainda, quem ostenta comportamentos incivilizados e rudes.

Citando Popper: “a ignorância não é a ausência de conhecimento, mas a recusa em adquiri-lo”.

Remete este carácter para a atitude de alguém que não conhecendo uma coisa, um fenómeno ou uma realidade por a não ter estudado, se atreve a decidir ou agir sobre ela.

Ainda assim existe a diferença entre agir por ignorância e agir na ignorância. Agir por ignorância é agir por falta de conhecimento, de forma involuntária, forçada se quisermos. Agir na ignorância é actuar deliberadamente, de forma voluntária, consciente do desconhecimento do que está em causa e persistindo em decidir ou agir, logo com muito pouca civilidade.

Do mesmo modo, perante a crítica ignorante, estamos perante a ausência de conhecimento, de fundamento sustentado. As críticas maliciosas, as opiniões infundadas, as notícias falsas, a maledicência resultam de uma acção na ignorância, deliberada, que quando bem articulada, pode causar danos irreparáveis no visado.

Logo, ignorância não caracteriza pessoas que não tiveram acesso à educação. De facto, há pessoas que nunca tiveram acesso á instrução formal, mas fruto da sua observação, da sua experiência empírica são detentoras de um conhecimento profundo, são profundamente sábias. É comum encontrarmos este tipo de pessoas entre os habitantes do mundo rural, ou entre os “mestres” das profissões artesanais. Pelo lado oposto, podemos encontrar entre académicos, cientistas e políticos pessoas profundamente ignorantes.

Por outro lado, a ignorância assenta muitas vezes em preconceitos, superstições, ideias sem fundamento ou ideias falsas (hoje as tão na moda “fake news”). A ignorância leva à construção de um mundo falso, pleno de mentiras ou ideias distorcidas da realidade e do seu contexto, criando barreiras por vezes intransponíveis á real leitura dos factos.

A ignorância cria barreiras à dúvida, à reflexão, logo à criação de conhecimento. Para criar conhecimento é necessário estudar, pesquisar, reflectir e discutir sobre o assunto em causa. Tem que saber-se ouvir, tem que se saber argumentar e auscultar outras alegações, para sensatamente tomar uma decisão fundamentada ou sábia. É o contrário da decisão ignorante.

O que faz a diferença na tomada de decisão é a sabedoria a sensatez e capacidade de avaliar correctamente o que está em causa. Se abordamos um qualquer acto de forma rígida ou preconcebida, rejeitando tudo o resto, corremos o risco de estarmos a adoptar uma atitude ignorante.

Alguém que pensa que já sabe tudo, não tem motivação para aprender e para evoluir. Alguém que não ouve opinião divergente revela acima de tudo, uma atitude ignorante.

A ignorância não sendo uma doença, poderá ser equiparada a tal, porque os seus efeitos são tão incapacitantes que impedem a pessoa de crescer, enriquecendo-se com novas perspectivas. A armadilha da ignorância é que ela envolve a pessoa de forma tão cómoda e aconchegante que nem a deixa percepcionar que está prisioneiro da inflexibilidade de seu próprio pensamento.

Existem estudos que apontam para apoiar a ideia de que indivíduos com mais conhecimento se preocupam mais do que os demais e vivem ansiosos. Ou seja, ter mais conhecimento dá trabalho, exige esforço e não garante uma vida melhor. Não ser ignorante não é garantia de satisfação pessoal, mas pode ajudar.

Infelizmente, as decisões na ignorância têm consequências nefastas para todos nós e até para a natureza. Vide os casos das consequências das decisões de alguns dirigentes políticos globais ou até locais.

A decisão por ignorância, apesar de bem-intencionada, não deixa também de fazer os seus malefícios. Assim, antes de decidir devemos sensatamente ponderar e tomar consciência se estamos capacitados para o acto que vamos concretizar.

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