Uma Flor no Deserto

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças. 

Assim começa um dos mais belos poemas de Miguel Torga, História Antiga, que nos leva não só para a época natalícia como para uma chamada de atenção a valores que deveriam nortear a vida. É bem verdade, ao longo dos tempos serão infindas as histórias que nos falam do nascimento e da vida de um Menino, seja em verso, seja em prosa.

Ora conta-se que, certa vez, num reino distante, entre palmeiras ressequidas nas areias do deserto despontava um cardo, flor que não é flor, flor que sempre lutou pela vida, entre pegadas de dromedários exposta ao sol dos dias e ao gelo das noites.

As dunas percorriam aquele espaço infinito que não tinha nem começo nem destino, onde as únicas estradas eram marcadas pela inclinação do sol e pelas rotas das estrelas. Conhecedores destes saberes poucos se aventuravam por ali, guerreiros e berberes, nómadas sem casa nem poiso, mas em terras que eram suas desde o começo de tudo.

Quando por ali passava um sultão com a sua coroa de rubis e diamantes, de safiras e de esmeraldas parava junto do cardo e suplicava por uma gota de água que fosse.

– Dou-te estas pedras preciosas se me deres uma lágrima que seja para matar a minha sede, ó pobre flor. Levo-te para o meu reino e invento um jardim só para ti.

Mas o cardo, conhecedor da pequenez dos homens, permanecia seco e mudo.

Passavam guerreiros de sabre em punho vestidos de sangue e pó e faziam o mesmo pedido ao cardo.

– Dá-nos uma gota da tua seiva, uma gota que seja, para podermos continuar as nossas batalhas. Dar-te-emos metade das terras que conquistarmos, tudo só para ti.

Mas o cardo, conhecedor do brilho cego das espadas, sabedor da cor do sangue, permanecia seco e mudo.

Passavam comerciantes montados nos seus camelos carregados de malas e de sacos, que guardavam finos tecidos, brocados e véus e também eles paravam junto ao cardo.

– Mata-nos um pouco a sede e montaremos um mercado só para ti, junto à cidade mais populosa destas paragens. Em pouco tempo ficarás rico.

Mas o cardo, conhecedor da riqueza desmedida, permanecia seco e mudo.

Sucedeu, porém, que, certo dia, já o sol se escondia por detrás das dunas, três reis montados nos seus camelos seguiam por aquelas paragens guiando-se apenas por uma luz muito brilhante que se erguia bem ao longe, no céu.

Cansados da viagem que já ia longa ajoelharam-se junto ao cardo e suplicaram-lhe:

– Ó flor do deserto, vamos não sabemos bem para onde em busca da Paz e do Amor que uma criança trará ao mundo. Mata-nos a sede, ó doce cardo, e para sempre te ficaremos gratos. E para sempre te lembraremos nas nossas orações.

E o cardo tremeu, tremeu e num instante se encheu com uma corola de cor violeta e sobre as mãos dos reis depositou inúmeras gotas de água, puras e divinas.

Assim os magos seguiram o seu destino rumo a uma cidade que viria a ser chamada de santa e onde os cardos, ainda hoje, enfeitam pátios e jardins.

(Este conto servirá de singela homenagem a Guerra Junqueiro, autor do poema A Lágrima.)

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