Das t-shirts ‘revolucionárias’ às sapatilhas Sanjo: A arte de Mutes cativa a geração irreverente do século XXI

Em 2018, o pintor arcuense Mutes colocou os ‘pontos nos is’ relativamente à sua arte. O Descubismo, que assina e é sua imagem de marca, foi motivo para a apresentação do “Retrospectiva 2000-2018”, um livro/catálogo dos seus 18 anos dedicados à pintura. A cerimónia decorreu na Casa da Cultura (falamos dela e desvendamos um pouco a história do autor em texto que pode recordar aqui), espaço privilegiado para expor as suas telas e onde até já foi convidado a ‘ilustrar’ algumas paredes.
Mas voltamos a Mutes (ou César Amorim) a propósito da sua vontade em levar a arte a todos, inclusive aqueles para quem é impensável disponibilizar “quinhentos, mil ou dois mil euros” para comprar uma tela assinada pelo artista.

As t-shirts são o melhor veículo de mensagens, estados de espírito e gostos musicais de quem as veste e Mutes – que não dispensa vestir a sua t-shirt de manifesto “anti-culambismo” sempre que vai a eventos de cariz político – não quis ficar de fora desta nova forma de veicular a arte da pintura.

Tudo começou devido ao impulso dos amigos que, gostando da sua pintura descubista, se confrontavam com formas mais acessíveis de poder fazer parte deste movimento e levar as cores e o estilo criado por César Amorim ao peito. Literalmente.

“Hoje em dia, qualquer mensagem que se queira passar, mete-se numa t-shirt”, considera César Amorim, que faz questão de ser utilizador do método e admite criar um lote de mensagens artisticamente criativas e que guarda para si próprio. A t-shirt que usa à altura desta conversa (a do anti-culambismo) é o melhor exemplo disso. Ressalvando que, nesse mesmo dia, já tinha passado pelo presidente da Câmara. Mas não é destas que quer fazer bandeira: “Estas são só para mim, que eu faço questão de usar quando vou a eventos políticos”.

Todas as suas telas podem ser estampadas em t-shirts, e não há aqui margem para amadorismos. Todas as camisolas estampadas serão certificadas por assinatura digital, tornando por isso qualquer tentativa de outros um género de ‘pirataria’, além de que o artista garante que as estampagens feitas pelas empresas com que contacta têm em conta as especificidades do cliente. É dada atenção ao tamanho (para que a ‘tela’ replicada não perca a proporção se estampada em S ou XXL) mas também ao tecido que serve de suporte à arte de Mutes, para que a mensagem perdure mesmo após muitas lavagens. Contudo, é um processo que pede algum cuidado, inclusive na passagem a ferro.

“A arte, a música, existe em várias vertentes, que são focos para poder tocar na ferida”, sublinha César Amorim. E se na música já há muito que se toca na ferida – O GAC já em 1975 dizia que a cantiga era uma arma – na pintura ainda há muito a fazer para que essa ‘revolta’ passe para o uso e costume comum.

Mas, além das t-shirts, a arte de Mutes (que é também um blog que pode seguir aqui) também já esta noutra peça que é, para as gerações mais novas e irreverentes, um suporte de arte: o calçado.
Depois de uma linha exclusiva de sapatilhas Converse All Star®, personalizadas com algumas das suas telas mais emblemáticas, poderá estar para breve uma linha de sapatilhas Sanjo. O mesmo conceito, mas numa marca portuguesa, que o artista privilegia e que diz que estarão à venda a preços mais equilibrados.

Mas não se julgue que a arte de Mutes vai aparecer em lencinhos ou em bonés das festas. “Já tive propostas para fazer em rolo, para casacos e coisas de verão, mas não quero. Não quero ser conhecido como um pintor de peças de roupa. Aquilo que eu faço, é na tela. A partir daí posso fazer outras coisas, mas uma pequena parte. O meu ponto fulcral é fazer arte”, esclarece.

Para os interessados em tornar a sua presença mais ‘artística’ pode perguntar directamente ao artista directamente nas redes sociais, e escolher que tela gostariam de ver estampada na t-shirt personalizada e devidamente reconhecida pelo artista. Porque é certo que o Descubismo de Mutes, depois das muitas e reconhecidas galerias de arte do país e da Europa, vai encontrar novos caminhos para estar ao peito e ao serviço da irreverência e de algum espírito pop da geração do século XXI.

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