Carlos Afonso (Paris)

Coletes Amarelos não são “aguaceiro que passa”, mas “tempestade” que vai mudar a V República

Carlos Afonso, natural de Sistelo, partiu para França há 11 anos “por impulso de partir” e empurrado pelas circunstâncias financeiras que se viviam em Portugal. Licenciado em Sociologia na Universidade do Minho, define-se como um “nómada” que retorna a Paris regularmente. Nesta conversa com o Jornal AVV, fala-nos em primeira mão do movimento dos “Coletes Amarelos”, certo de que “chegamos a um ponto de não retorno”, e com um olho no regresso a casa, espreita para Sistelo que se tornou um destino “desafiante”. 

Jornal AVV – Há quanto tempo está a viver em Paris e como é que foi aí parar?

Carlos Afonso – 11 anos. Mas passo pouco tempo em Paris (ou na zona).  É apenas o sítio onde regresso aos fins-de-semana, quando tal sucede. Sou um nómada, ando por toda a França. Como parece óbvio, conheço melhor este país do que Portugal.  E agarrou-se-me à pele e entrou-me no coração. 

Emigrou por escolha ou por necessidade financeira e/ou falta de emprego em Portugal?

Por tudo isso e por impulso de partir. Tinha de ir. No início só queria ficar durante dois anos, mas a crise de 2007/ 2008 alterou tudo. E a partir daí fui ficando a observar a evolução das coisas.

Como está a viver este movimento dos protestos dos Coletes Amarelos? E o que acha da forma como se estão a desenrolar os protestos?

De forma ambivalente, a baloiçar entre o entusiasmo e a inquietude, como a maior parte das pessoas, parece-me. A situação é complexa e séria. A revolta parte de problemas concretos, alimenta-se do ´auto deslumbre` do presidente (que agora parece ter percebido que tem os pés na terra) e das incautas decisões que tomou, e ancora-se no mal-estar existencial profundo que afeta a sociedade francesa há muito tempo.  E irrompeu de maneira brutal, como um vulcão. Não terá resolução fácil e está para durar.  Não é um aguaceiro social que logo passa, é uma tempestade persistente. 

Que tipo de consequências prevê que o movimento possa ter em termos políticos e sociais?

Imensas e imprevisíveis. Estou convencido que dentro de alguns meses teremos outra camada de encolerizados a embrulhar-se nesta: as empresas que vão ir à falência por não aguentarem os prejuízos destes dias afogueados, os que vão perder os empregos por causa disso e por aí fora. É por isso que é difícil traçar pistas quanto à direção que o movimento vai seguir. Podemos especular em torno de algumas hipóteses que andam no ar, mas não mais do que isso. Há muitos intelectuais a discutir o assunto e a apontar caminhos: Luc Ferry, Michel Onfray, Valérie Charoles, Frédéric Gros, Bernard Stiegler, Chantal Delsol… O debate é intenso e as vias de saída indicadas são muitas e dispares. Todavia, creio que estamos no ocaso da V República. E que algo irá surgir no seu lugar. Talvez uma VI muito mais próxima do modelo americano. Não sei.

Há especialistas que dizem que a extrema direita francesa está a acicatar os protestos para ganhar votos. Quais são as suas expectativas para as próximas eleições europeias em maio?

Sim, seguramente, não iria perder tal oportunidade. Por agora, os coletes teimam em não se deixar enquadrar. Por agora. Mas há muita gente, de muitos quadrantes, a tentar tirar proveito desta situação explosiva. É um jogo tenaz. Perder, no imediato, perdem aqueles que sofrem diretamente com a violência e os danos colaterais que acarreta. A título de exemplo, a cadeia portuguesa de restaurantes Pedra Alta, um caso de enorme sucesso, tem três estabelecimentos dentro de Paris.  E esses estão com quebras mensais de 20% a 25% e de 90% nos sábados.  Não fossem os outros restaurantes que possui na periferia da capital e, em breve, estaria com sérios problemas. Isto dá uma panorâmica da tensão que se vive na cidade. Na estratégia bem desenhada e amplamente conseguida desta cadeia portuguesa, a erupção deste movimento é um “cisne negro”, um elemento não previsto, impossível de antecipar e controlar. Para concluir, parece-me que a Le Pen irá obter bons resultados em maio. Será um aviso de que chegamos a um ponto de não retorno.

Em Portugal, tem havido uma replicação muito tímida dos protestos dos Coletes Amarelos. Como explica que o movimento não esteja a ter o mesmo sucesso por cá?

São sociedades muito distintas, com percursos, vivências e problemas de natureza diferente. Não interessa explorar isso agora.  Pegue-se apenas na rama. Em França, os grandes partidos estão destroçados. O PS é um cadáver moribundo que só convence os mais indefetíveis. O Les Républicains não está melhor. Quanto ao En Marche de Macron estamos conversados: não tem passado e muito dificilmente terá futuro. Restam os extremos: France Insoumise de Jean Luc Mélenchon (esquerda) e Rassemblement National de Marine Le Pen (Direita). É isto o que há de mais relevante na paisagem política. E não é particularmente animador.

E a nível europeu, acha que os Coletes Amarelos podem ter reflexos noutros países?

Não sei. Sabemos que o descontentamento e o populismo nacionalista galopam pela Europa. Mas seria demasiado pretensioso predizer isso. Cada sociedade tem as suas características e a sua forma de reagir. Sinto que o carácter identitário francês é fortemente moldado pela Revolução de 1789. Mesmo que pareça um acontecimento distante, eles sabem que foi terrível, duradouro e sangrento e que permitiu escancarar as portas da modernidade tal como a conhecemos. No fundo, é como se sentissem que têm de honrar esses antepassados que ousaram afrontar e derrubar a mais poderosa e consolidada monarquia europeia do Século XVIII. Não o fazer é ser cobarde. É esta a minha interpretação.

A União Europeia (UE) como ideal político já viveu melhores dias. O que acha do momento presente da UE e o que espera para o futuro próximo?

Muitas incertezas, muito nevoeiro no horizonte. Desde já vamos esperar pelas eleições de maio. E até lá desejar que da nebulosa dos “Gilets Jaunes” irrompa alguma figura desempoeirada e progressista semelhante à Alexandria Ocasio Cortez [ativista norte-americana eleita por Nova Iorque para a Câmara dos Representantes dos EUA]. Alguém capaz de canalizar aquela energia e de a desviar do negrume extremista.

Como é que os portugueses são vistos hoje em dia em Paris?

Muito bem. Em todo o país. E o interesse por Portugal e pelos produtos portugueses amplificou-se largamente nos últimos anos. Por motivos suficientemente conhecidos.

Quais são as principais diferenças entre as culturas portuguesa e francesa?

Muitas, seguramente, se descermos ao nível micro e começarmos a explorar pormenor a pormenor. Mas no contexto geral não vejo nada que nos afaste irremediavelmente.  Gosto da maior parte das características deles. Talvez seja por isso que nunca me senti deslocado. 

Já entranhou alguma mania dos franceses?

Talvez o rigor organizacional e o trabalho metódico. Gosto disso. Liberta tempo, atenua pressões e evita muitos disparates.

Que tradições ou hábitos arcuenses ou portugueses gosta de manter no seu quotidiano? 

Não me ocorre nada. Ia dizer o café, mas eles têm o mesmo hábito. No entanto, é raro conseguir-se beber um bom expresso, como estamos habituados aí.  Nunca me consegui adaptar a isso.

E emigrar, compensa?

Depende de muitos fatores. E depende de cada um e de cada experiência. No meu caso, se tivesse estado sempre na região parisiense teria uma perceção diferente daquela que tenho. Pior, certamente. Há sempre uma multiplicidade de elementos a condicionar a nossa perspetiva e a forma como sentimos. Por isso é que temos de ser modestos quando fazemos avaliações pessoais e caímos na tentação da generalização. No entanto, em termos particulares, pesando o bom e o mau, o resultado é positivo.  

Os seus planos, a médio e longo prazo, passam pelo regresso aos Arcos ou a Sistelo? Ou pretende continuar a viver em França?

Passa por regressar, sim.  Sistelo tornou-se desafiante. É um verdadeiro laboratório para o ecoturismo, o turismo rural e os produtos locais.  É um laboratório de onde podem surgir projetos pioneiros, sustentáveis, de vanguarda ou… aberrações.  Num laboratório é assim.  Mas acredito que a primeira hipótese vai vingar.

À distância, como é que olha para o momento atual de Arcos de Valdevez? Em termos políticos, sociais e económicos?

Não estou suficientemente atento nem informado para responder de forma satisfatória.  Mas se me fixar na superfície já é diferente. E, nesse âmbito, enquadro sempre Arcos de Valdevez numa perspetiva mais alargada: Minho e Galiza. Por pura paixão. E sinto que a atratividade e a interação desta continuidade geográfica (e cultural) tende a intensificar-se. E isso é extremamente vantajoso. A vila de Arcos de Valdevez é lindíssima, com as curvas do rio, as igrejas, a localização, o panorama envolvente, a luminosidade ao cair do dia, os reflexos e a neblina matinal. Um sítio onde apetece viver, estar e trabalhar. E o concelho tem muitos atrativos.

E como vê o “boom” turístico que Sistelo vive nesta altura?

Aconteceu. Está lá.  É bom e mau, em doses desiguais, depende do posicionamento do olhar. A partir desta constatação é preciso aprender a gerir esse “boom” da forma mais inteligente possível.  De modo a ir minimizando os incómodos e potenciando a parte boa.  É um trabalho paciente e exigente que pede muito diálogo, partilha de ideias, implicação e colaboração.

De que forma se pode e deve aproveitar esta procura turística tão grande por Sistelo?

Sistelo pode ser uma preciosidade que perdure no tempo. O que se fizer nos próximos anos condicionará tudo. Poucos podem fazer muito, se descobrirem uma orientação comum e souberem colaborar. É por isso que estou apostado em participar ativamente nesse processo. 

Se pudesse, o que é que mudava ou fazia nos Arcos e/ou em Sistelo para beneficiar o concelho e os seus residentes? 

Seria imodesto da minha parte querer dar lições ou tecer considerações mal sustentadas. Mas gostaria, por exemplo, que aproveitássemos devidamente o “feijão Tarrestre”, uma leguminosa com um potencial excecional, e que em torno dele surgisse toda uma gama de produtos locais. Que se tornasse um produto símbolo.  Para tal socorro-me de um exemplo francês (e os franceses são exímios a este nível): a castanha de Cévennes. Cévennes é uma zona montanhosa relativamente próxima do Mediterrâneo. Por acaso, também é Parque Nacional.  A castanha desta zona passou de produto rústico sem particular interesse a iguaria sofisticada, com valor acrescentado. E a partir dela surgiram múltiplos derivados.  É um produto de “terroir” por excelência. Para isso houve um percurso, uma estratégia e um trabalho rigoroso e meticuloso. E, agora, estão a seguir o mesmo caminho com uma variedade de cebola cultivada de forma artesanal, em pequenos talhões, numa zona limitada e que já beneficia do estatuto de Denominação de Origem Controlada e de Denominação de Origem Protegida. É isso que gostaria de ver por aqui. Já seria um grande avanço.

E do que é que um arcuense/sistelense a viver em Paris sente mais saudades (sem ser o óbvio: a família e os amigos)? O que é que faz mais falta dos Arcos e/ou de Sistelo?

O rio Vez, a luminosidade, os aromas, a limpidez do céu estrelado, a opulência, os contrastes e as formas da paisagem… O festim sensorial, digamos.

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