Paulo Falcão Teixeira (Luanda)

“Luanda foi projetada para 600 mil habitantes e tem hoje mais de 7 milhões”

Paulo Falcão Teixeira está em Angola desde 2013 e confessa que já tem o seu coração dividido entre Luanda e Arcos de Valdevez. A trabalhar como Gestor de Recursos Humanos na Teixeira Duarte, S.A. na capital angolana, este arcuense natural da freguesia de S. Salvador, Vila Fonche e Parada chegou ao país africano impulsionado pela crise e pela “curiosidade de conhecer outras realidades”. Depois de ter sido coordenador de Formação na CEVAL – Confederação Empresarial do Alto Minho entre 2011 e 2012, não se arrepende da escolha feita e diz que “Angola é um país incrível”, apesar das dificuldades sociais que continua a enfrentar. 

Jornal AVV – Como é que foi parar a Angola? Foi uma escolha profissional ou houve motivações financeiras associadas?

Paulo Falcão Teixeira – Na verdade, ambas. Foi uma opção a pensar no futuro. O ambiente económico em Portugal, em 2013, era complicado e, na altura, com 25 anos não senti que existissem grandes oportunidades de desenvolvimento profissional e pessoal a curto e médio prazo. Adicionalmente, sempre tive curiosidade de conhecer outras realidades, sair da zona de conforto. Como tenho nacionalidade angolana, a escolha mais óbvia foi Angola.

A perceção que se tem em Portugal é que Angola, no geral, continua a ter muitas lacunas, nomeadamente em termos de infraestruturas básicas…

Não é apenas uma perceção, é uma realidade. Angola passou por uma Guerra Colonial (1961-1974) seguida de uma Guerra Civil (1975-2002). Foram cerca de 40 anos de guerra que provocaram imensos danos. 

Como foi a adaptação à realidade angolana? Imagino que seja muito diferente daquilo a que estava habituado por cá…

Todas as mudanças implicam ajustes. Há situações que em Portugal temos como garantidas, como água ou luz, que em Angola funcionam de forma um pouco diferente. Há algumas falhas no abastecimento, mas nada que com um pouco de paciência não se ultrapasse. Luanda é uma cidade que, apesar de bastante cara, tem muita oferta para a vida social: restaurantes, bares, discotecas, cinemas, salas de espectáculo, centros comerciais e até parques de diversão para crianças. O resto do país, contudo, não está tão desenvolvido. Em termos de lazer, para além do que já referi, há a vantagem do clima. É verão praticamente todo o ano e há praias fantásticas com água quente. Por outro lado, a nível social, há muito a ser feito e é uma realidade que choca. Pobreza extrema, crianças de rua, sem-abrigo, escassez nos cuidados de saúde e na educação para a generalidade da população, vastos bairros sem condições de habitabilidade e falta de apoios sociais para tudo isto…

 A população imigrante também sente dificuldades neste âmbito ou vive em condições diferentes das da população local?

A população imigrante escapa um pouco desta realidade porque as empresas acabam por assumir a responsabilidade das condições de permanência, na maior parte dos casos, e as condições de alojamento são na sua maioria boas, com instalações semelhantes ou até melhores do que encontramos em Portugal. Quando isto não é possível por questões laborais, muitas vezes as próprias empresas promovem obras de requalificação e garantem as condições básicas através da instalação de geradores ou tanques para assegurar o fornecimento de energia e água quando os serviços públicos não o conseguem fazer. Ainda relativamente à degradação e falta de infraestruturas, convém também ter em conta que, no caso de Luanda, é uma cidade que foi projetada para 600 mil habitantes e que, hoje em dia, tem mais de 7 milhões – intervencionar uma cidade com esta densidade populacional não é fácil. Uma das soluções passou por criar cidades-satélite ao redor de Luanda (começaram a surgir há cerca de 4/5 anos) para que se possa descongestionar e intervencionar o centro, e aos poucos as coisas vão melhorando. Só estou cá há 6 anos, mas tanta coisa está diferente (para melhor) do que quando cheguei… Ainda assim, estas condições pioram quando não falamos de Luanda. As províncias são pouco desenvolvidas, e têm ainda menos estruturas. Há muitas comunidades sem acesso a redes de água potável ou energia elétrica, sem acesso a escolas ou postos de saúde e que vivem de culturas de subsistência.

A chegada de João Lourenço à presidência de Angola e as mudanças que ele tem implementado sentem-se no dia-a-dia, nomeadamente no quotidiano dos imigrantes que aí trabalham?

As mudanças que o Presidente João Lourenço está a fazer são sobretudo no sentido de credibilizar o País e as suas instituições junto da comunidade internacional e também do próprio povo. E, efetivamente, está a consegui-lo através da transparência da sua atuação, quer internamente, pelo combate à corrupção, quer pela abertura de Angola ao resto do mundo através do incentivo ao turismo ou ajuste do sector bancário aos critérios internacionais que permitem outro tipo de acordos e financiamentos. É também notório o incentivo ao investimento privado (interno e externo). Claro que estes (e outros) serão processos lentos, mas já se sentem algumas melhorias. As medidas previstas pretendem a melhoria das condições de vida da população angolana e a sustentabilidade do país e, pela primeira vez em muito tempo, as pessoas estão otimistas, incluindo a mão-de-obra expatriada, apesar de esta não ser diretamente afetada pelas medidas.

Quais são as principais diferenças entre as culturas portuguesa e angolana?

Existem muitas similaridades, mas também algumas diferenças. A cultura angolana é muito alegre, muito social, com um sentido de humor muito apurado e – aquilo que mais aprecio – respeita imenso os mais velhos e a família. Em Angola, os primos são “irmãos”, a mãe de um amigo é “tia” e o pai é “tio”, a senhora idosa com quem se cruza trata-se por “mamã” ou “mãe” e o senhor idoso por “papá” ou “pai”. Para quem não tem contacto com a cultura isto pode parecer um pouco estranho, mas na verdade são termos carinhosos que são muito bem recebidos. Há valores muito importantes que foram sendo preservados com o tempo e que julgo que em Portugal se foram perdendo. Em Angola, se se entrar num espaço público e não se cumprimentar (um simples “bom dia”), as pessoas ficam ofendidas. 

Já entranhou alguma mania ou hábito dos angolanos?

Não há propriamente manias ou hábitos diferentes. A cultura angolana foi muito influenciada, a todos os níveis, pela presença portuguesa e esta interacção – que é recíproca, histórica e actual – promoverá uma aproximação cada vez maior entre ambas. Não é por acaso que, por exemplo, a música angolana é tão ouvida em Portugal, que existem tantos portugueses a trabalhar em Angola e que os angolanos vêem em Portugal o destino de eleição para férias, saúde ou ensino. 

E em termos culinários, há algum prato angolano a que já não resiste?

Algo que aprecio desde que cá estou é a culinária tradicional angolana. Mufete (peixe grelhado com batata doce cozida, feijão de óleo de palma e banana) e Muamba de Ginguba (galinha cozinhada em molho de amendoim) são dois pratos deliciosos e que faço questão de comer com regularidade.

Que tradições ou hábitos arcuenses ou portugueses gosta de manter no seu quotidiano? Se mantém algum…

Os pontos de contacto entre as culturas são tantos, a começar pela Língua, que não há algo em específico que se possa dizer que faça a ponte com Arcos de Valdevez ou Portugal. Em termos gerais, os hábitos alimentares, desportivos e de lazer são muito semelhantes aos que se têm em Portugal. Na maior parte dos dias, nem nos lembramos que estamos num outro país. Só quando a saudade se faz sentir é que se pensa nos 6000 km que nos separam.

Como é que os portugueses são vistos hoje em dia em Angola?

Em termos gerais, os portugueses são muito bem vistos em Angola, quer em termos laborais, quer sociais. No entanto, segundo vários amigos angolanos que tenho cá, os portugueses nortenhos são mais sociáveis e simpáticos do que os do sul.

Tem-se falado muito do racismo em Portugal… Em Angola, sente-se também racismo, mas ao contrário? Como minoria branca e estrangeira, sente-se um tratamento diferenciado?

O racismo provém da ignorância, do desconhecimento. Nunca senti em Angola algum desconforto racial. Angola é um país multicultural (sobretudo em Luanda), desde há muito habituado a receber visitantes de todas as partes do mundo – e esta é uma realidade que escapa à maioria das pessoas que nunca esteve em Angola. Cá encontram-se muitos portugueses, mas também chineses, franceses, ingleses, brasileiros, filipinos, guineenses, cabo-verdianos, são-tomenses, congoleses, sul-africanos, moçambicanos, russos… E, provavelmente, muitas outras nacionalidades. E as pessoas convivem e colaboram, independentemente da sua nacionalidade. Obviamente que, pontualmente e tal como em qualquer outra parte do mundo, poderá haver um relato de um ou outro caso isolado, mas não é uma preocupação que tenhamos, para ser sincero.

Nos últimos dias, surgiram notícias sobre o assassinato de empresários portugueses em Angola. A insegurança é um problema que se sente entre os imigrantes que vivem no país?

Antes de mais, importa também referir que num dos casos que refere, o que gerou o assassinato de dois “empresários” foi um negócio ilícito que correu mal. Angola é um país incrível, com um povo extremamente acolhedor. Como país em vias de desenvolvimento tem problemas sociais, como já referi anteriormente, que geram alguma delinquência e, sobretudo, tendo a minha família comigo, obviamente temos alguns cuidados para evitar surpresas desagradáveis, mas fazemos uma vida normal. Todos os dias vamos trabalhar, o meu filho vai para o infantário e vai para casa na carrinha da escola, com total confiança. Por outro lado, todos os dias acompanho os canais noticiosos portugueses e, frequentemente, me deparo com uma realidade criminal tão ou mais grave do que vejo em Angola, e não é por isso que vejo alguém a dizer que Portugal é um país perigoso ou inseguro, apesar de também haver zonas “menos aconselhadas”.

Emigrar, compensa? 

Tudo depende das expectativas e da experiência de cada um. Quando se emigra, deixa-se a zona de conforto e muito daquilo que consideramos importante para nós, sobretudo emocionalmente. Mas quando o fazemos, descobrimos que muito do que acontece em relação à arte, ao desporto, ao país em si, também acontece em relação à força laboral: somos mais valorizados fora do que dentro de portas e o nosso crescimento profissional é também mais rápido, desde que mostremos a qualidade e atitude necessárias para que tal aconteça. 

Emigrar é bom em termos profissionais e até em termos de desenvolvimento pessoal. Obriga-nos a reajustes mentais e amplitudes de pensamento diferentes. Mas em termos familiares / sociais acaba por causar muitas perdas. Estou em Angola há 6 anos e o meu filho mais velho (que vive em Portugal) já tem 12. Desde que estou em Angola, o único casamento a que fui, foi o meu. Perdi imensos aniversários do meu filho, do meu irmão, dos meus amigos, dos meus familiares. Falo disto, mas vou de 3 a 4 vezes por ano a Portugal. Por isso, enquanto emigrante, até me sinto um privilegiado. Tenho muitos amigos que, tal como eu, saíram do país para tentar a sua sorte e vão a Portugal uma vez por ano. Isto para dizer que não há situações perfeitas e que todas as decisões têm os seus prós e contras. Há momentos que são perdidos com amigos, com família, que não são recuperáveis. Veremos se futuramente poderão ser compensados.

Os seus planos, a médio e longo prazo, passam pelo regresso aos Arcos? Ou pretende continuar por Angola?

Tanto eu como a minha família estamos perfeitamente integrados, gostamos de cá estar e, por isso, não temos prazo para sair de Angola. Quando isso acontecer, também não temos como certo que o regresso será para Arcos de Valdevez. Naturalmente, gostaríamos de regressar às raízes e estabelecer-nos no concelho de onde ambos somos provenientes, até por razões familiares. Tenho um filho com 12 anos que vive no concelho vizinho, tenho outro com quase 2 anos que, neste momento, está em Angola comigo e gostava que crescesse de uma forma semelhante à minha, que considero que foi muito feliz. Mas isso depende da existência ou não de desafios estimulantes para que prossigamos as nossas carreiras. No entanto, a situação ideal para mim seria uma vida dividida entre Luanda e Arcos de Valdevez, por serem dois locais que verdadeiramente adoro.

À distância, como é que olha para o momento atual de Arcos de Valdevez? Política, social e economicamente?

Em termos políticos tenho alguma dificuldade em comentar. Nunca fui ligado à política nem afiliado a nenhum partido e, adicionalmente, não estou em permanência no concelho há mais de 10 anos, se tiver em conta que aos 18 anos saí para estudar, trabalhei em Viana do Castelo e Valença, mas nunca em Arcos de Valdevez, e ia a casa (dos meus pais) apenas ao fim-de-semana. Portanto, revelo até algum desconhecimento sobre esta questão. Contudo, é visível o trabalho que tem sido feito pela autarquia nos últimos anos. Temos um concelho fantástico, com muito boas estruturas, seguro, limpo, organizado, com oferta desportiva e cultural e que consegue captar empresas com alguma dimensão que, por sua vez, oferecem postos de trabalho aos habitantes da região, o que permite que estes se possam fixar. Tenho de confessar que falo muitas vezes de Arcos de Valdevez com amigos e conhecidos (penso que é o nosso papel também ser um pouco “embaixadores” do concelho), sendo que muitos acabaram por visitar o concelho e mais do que uma vez até. Há três grandes elogios que fazem: ser de facto muito bonito e organizado; o segundo é a fantástica gastronomia; e o terceiro, a comunidade acolhedora que encontram. 

Se pudesse, o que é que mudava ou fazia nos Arcos para beneficiar o concelho e os seus residentes? 

Criava um Pólo Universitário, sobretudo com áreas de ensino que interessassem à indústria que já se estabeleceu no concelho. Traria mais população jovem para o concelho (passível de se fixar no final do curso através do emprego), estimularia o comércio e daria oportunidade aos jovens locais que querem estudar, mas que não têm possibilidades económicas, para o fazerem com menos custos, poupando em gastos de deslocação e permanência em outros locais.

E do que é que um arcuense a viver em Angola sente mais saudades (sem ser o óbvio: a família e os amigos)? O que é que lhe faz mais falta dos Arcos?

A vista do Penedo do Castelo, o passeio a pé pela vila com passagem obrigatória junto ao Rio Vez, ver o pôr-do-sol no Jardim dos Centenários e os Charutos dos Arcos.

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