Repensar tudo a partir da raiz

Antes de entrar convém anunciar ao que se vem. Desafiaram-me a escrever neste jornal e disse que a ideia não me desagradava se a temática fosse Minho e Galiza, a minha segunda pele, numa perspectiva muito sensorial. Como não houve nenhuma oposição, cá estou. Este primeiro texto tem carácter introdutório e espero conseguir transmitir o sentido que para mim aparenta ter.  Se assim não for, assumo a minha incompetência e peço desculpa.

Em entrevista ao jornal Público de 27 de Janeiro passado, Ulrike Guérot, politóloga alemã fundadora e directora do European Democracy Lab, numa tentativa de desmontar alguns preconceitos solidamente alicerçados, afirma que as grandes divisões socioeconómicas no seio da União Europeia não se verificam entre os do Norte e os do Sul, mas sim entre os centros e as periferias de cada país. É aí que residem as principais assimetrias geradoras de atritos, distanciamentos e exclusões.

É claro que há países mais equilibrados, como a Alemanha, e outros menos, como parece ser o caso da França.  Aqui a taxa de desemprego raramente descola dos 10%. Todavia, a sua distribuição territorial é bastante desigual. Na região de Paris e Lyon, as duas grandes áreas urbanas, esse índice cai para os 4%, desviando-se substancialmente da média. E este desfasamento seria  mesmo o principal factor explicativo da ira dos Coletes Amarelos, movimento surgido na órbita  periférica. Haverá outros elementos, seguramente, mas é provável que esse seja o centro gravitacional em torno do qual gira a totalidade do descontentamento.

No entanto, se nessas duas zonas a situação de pleno emprego devolve uma imagem de robustez e dinamismo, sabemos que uma parte substancial é precário e mal pago.   E ao confrontarmos este aspecto com o custo do alojamento, que tem tendência a inflacionar nas áreas densamente povoadas, e as restantes despesas fixas mensais dos indivíduos ou agregados, facilmente intuímos que deve haver muita gente a viver no limiar da pobreza. E que sem a redistribuição social existente a vida seria ainda mais tensa e dura do que já é.  Ou seja, num país de 66 milhões de habitantes, o congestionamento de duas grandes zonas, por mais animadores que os indicadores aparentem ser, pode não ser a mais sensata das estratégias.

Mas deixemos o centro e focalizemo-nos na periferia rural e numa discussão que aqui e ali vai fazendo o seu caminho: a remuneração dos habitantes pelos serviços ambientais prestados e pela sua colaboração na sustentabilidade dos ecossistemas. Quer dizer, por um serviço prestado a todos nós, partindo do princípio que acreditamos que as alterações climáticas, o elemento que ameaça condicionar tudo o resto, são muito mais do que uma fábula negra. E por falar em fábula, aqui fica uma dica: “E Subitamente na Floresta Profunda”, Amos Oz.

No Verão passado, o Hugo Novo, biólogo e criador do projecto 5ª Lógica, em Sistelo, falava-me deste assunto e explicava-me a diferença objectiva entre subsídio e remuneração.  É tudo uma questão de dignidade e de reconhecimento da superior importância desses serviços cujo valor nem sempre nos parece evidente. Muito a propósito, na   Alternatives Economiques do mês anterior, Marc Dufumier, engenheiro agrónomo e investigador no AgroParis Tech, aprofunda com clareza e minúcia esta ideia e insiste na pertinência da proposta entrar na discussão da próxima reforma da Política Agrícola Comum ( PAC).  Precisamos de mudanças drásticas, assevera ele.

É óbvio que tal medida seria enquadrada por contratos, obrigações e responsabilidades, mas o fundamental seria o deslocamento da percepção: o pequeno agricultor, o pastor, o artesão ou o que seja não seria um subsidiado, mas sim alguém remunerado justa e condignamente pelo desempenho de algo essencial.  Para além do mais, essa remuneração, ao garantir uma base estável e permanente poderia e deveria servir de propulsor ao desenvolvimento de novas actividades produtivas e ser um atractivo para quem se queira implantar em meios rurais.

É provável que isto pareça fantasista. Mas talvez não seja assim. Se estivermos atentos ao rumor do mundo e não apenas ao estridente ruído diário, percebemos que há uma mudança de fundo a acontecer, ainda um pouco difusa, é certo, mas já com alguns contornos claros.  Na França, os Coletes Amarelos não vão ceder sem que algo de verdadeiramente substancial mude na paisagem política e económica. Para o bem ou para o mal.  E já que falamos da França,  que seria dela sem os seus “terroirs”, sem o esplendor das suas paisagens rurais,  sem a diversidade de todo o tipo?  Um pesadelo sem graça nem interesse.

Nos EUA, se entretanto nada de terrífico acontecer, talvez Trump deixe um enorme legado: sem ele duvido que víssemos emergir esta jovem e desafiante geração de mulheres que está a regenerar o partido democrata e que teima em atacar os valores e as premissas que desde sempre moveram o país do super-capitalismo. Vivemos num tempo em que tudo deve ser repensado. A partir da raiz. É isso que Ocasio Cortez e companhia parecem querer transmitir.  E talvez nos façam entrar a todo o vapor na meta-modernidade. A ver vamos.

E na sequência disto, atrevo-me a perguntar. E nós?  O que queremos para o nosso futuro? Não, não estou a referir-me a Portugal, seria pura desmesura, mas sim à nossa região, ao Minho. Ou reduzindo ainda mais a escala, o que queremos para o Alto Minho ou mesmo para Arcos de Valdevez? Seria bom que este jornal fosse um ponto de encontro de ideias, sugestões, intenções e uma ponte para estabelecer laços, aproximações e eventuais colaborações.

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