Tempos difíceis ou a arte da Genealogia

Tempos difíceis estes. Queremos falar, queremos escrever e não sabemos sobre o quê nem por onde começar. Não pela falta de temas, antes pelo seu excesso. E não são tempos de alegria, não, são tempos em que impera a injustiça social, a incompreensão, a desigualdade, a falta de humanismo, de generosidade, de partilha. Tudo atos na falta de amor.

Olhamos em redor e procuramos uma nesga de sol, um farrapo de céu azul para que a vida faça sentido e possamos continuar. Queremos transmitir esperança, contentamento, mas cada vez é mais difícil dar algo que não temos dentro de nós. Onde está o porto seguro? Como será este mundo amanhã?

Sempre tive um fascínio pela história da minha estória. Quem sou eu, de onde vim? Por onde andei antes de chegar aqui? Tanto quanto a minha memória consegue retroceder fui feliz, cresci feliz. E antes de mim?

Há sete anos atrás iniciei a minha busca. Fiz muitas pesquisas sobre a Genealogia enquanto ciência exata, apetrechei-me de elementos e ferramentas necessários e lá fui eu, numa viagem não contra o tempo, mas contra as dificuldades de um caminho que me trouxe de séculos passados até aqui e agora.

Pensava eu que iria encontrar apenas nomes, registos, datas, locais, mas não. Cada nome, cada folha de papel amarelecida e gasta apontava-me sempre para outros caminhos, outras estórias que tento agora reinventar. Afinal o que é um nome?

Curiosamente, começando pelos Arcos, onde nasci, aí regressei inesperadamente volvidos mais de três séculos quando encontrei o registo de Catarina de Araújo, nascida em 1627 no lugar da Igreja, em Cabana Maior.

Tinha viajado já por Melgaço, Viana do Castelo, Ribeira de Pena, Amares, Póvoa de Lanhoso, Ponte da Barca, Lisboa. Tudo muito perto… já que não havendo alfas pendulares o tempo media-se pelo rodar cadente das carroças e das carruagens, pelo trotar com cavalos ou ainda pelo passo lento dos burros e das mulas.

Vasculhando arquivos paroquiais deparei-me ainda com situações curiosas de antepassados que não os meus: exorcismos, batismo de anjinhos (crianças nadas mortas), outros batismos sem a aplicação dos santos óleos por os não haver, registos de crianças filhas de mães naturais (solteiras), achados e recolhas em casas da roda, colocadas à porta de amas, enfim um sem número de estórias que transcendem os apelidos atribuídos.

Porquê mergulhar no passado? E o futuro, descuida-se? De forma alguma. Estas buscas revelam-nos as nossas raízes e atam-nos mais à terra, mostram-nos que aqueles nossos ancestrais viveram por algum motivo e por isso mesmo hoje estamos aqui dando continuidade à espécie a que pertencemos.

Também eles viveram, por ventura, tempos difíceis e marcantes. Foram sobreviventes e legaram milhares de descendentes que hoje se encontram um pouco espalhados pelo mundo. Consegui já, estabelecer contactos com descendentes em linha direta na Alemanha, no Brasil e em Moçambique. E o que mais virá.

Continuo na minha senda. A última descoberta foi Catharina Dominguez, natural do Reino da Galiza, casada em Cristóval, Melgaço, nascida pelo ano de 1748. Terei agora de me debruçar sobre os arquivos galegos disponíveis e tentar descobrir qual a sua estória.

Tenho agora consciência de que o meu trabalho será infindo. Paro em cada caso que me desperta a atenção, algo que me dará mais uma estória ainda que um pouco efabulada por este desejo da busca pelo belo, pelo amor. Afinal vivemos não pelo nosso apelido, mas por qualquer destino que nos foi atribuído e que nos pôs nesta terra.

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