Lameiros e prados de lima

Todos os anos o famoso anticiclone dos Açores rege a orquestra atmosférica na Europa Atlântica. Quando as frentes polares provenientes da Sibéria descem, as temperaturas mínimas atingem recordes, produzindo geadas intensas. Mas as geadas nesta época do ano são bem-vindas, benéficas para as plantas, mais ainda para as culturas da primavera que se aproxima. Porque as temperaturas negativas matam pragas e doenças, aumentam os açúcares das plantas como um método anticongelante e, em espécies como as macieiras, por exemplo, influenciam a diferenciação dos gomos em gomos florais, aumentando a sua produção. Por exemplo as pencas, nomeadamente as de Chaves, ficam mais saborosas, mais doces e com uma textura mais tenra. 

No entanto, a chegada iminente de ar frio e seco de origem polar, aumenta a probabilidade de ocorrência de um fenómeno que causa estragos nas plantas com folhagem perene: a geada negra. Este fenómeno ocorre quando as temperaturas alcançam valores abaixo de zero, mas a geada não se forma. Ocorre nas zonas de montanha e nos vales fundos e húmidos onde a circulação do ar não acontece. 

Felizmente, o conhecimento empírico das populações, nomeadamente das de montanha do Norte de Portugal, dispõe de um sistema simples, mas muito eficaz, para combater os efeitos das temperaturas extremas: os lameiros, ou prados de lima. O sistema permite que a circulação da água actue como um anticongelante. Sem ele a imagem verdejante de uma das sete maravilhas de Portugal Aldeias, Sistelo, (por isso impropriamente chamada de pequeno Tibete!!!) não existiria. Também paisagens como as brandas de Soajo ou Gavieira, os socalcos da Miranda ou de Rio Frio para que se mantenham e sempre verdes e pujantes, perdurando do ponto de vista da biodiversidade e da paisagem, necessitam de água de inverno. Na Europa da cultura, são já considerados um património cultural, uma marca de civilização centrada na água, que temos que aprender a apreciar e a agregar valor.

Apesar de se desconhecer claramente o período onde historicamente poderemos situar o início deste sistema, alguns historiadores propõe que ele exista desde a alta Idade Média. Implica a existência de um rego simples, não muito profundo nem largo, mas com declive suficiente para que mantenha a água corrente quando a temperatura ambiente ultrapassa os zero graus. Depois, a um ritmo de metro a metro, rasgam-se pequenas aberturas, as “tólas”, que permitem regar por gravidade as pastagens e prados. Chama-se a esta acção regar com “água de lima”, ou seja, manter sempre disponível uma lámina de água à superfície do terreno. Obviamente se não mantiver a água corrente e esta estagnar, a congelação ocorrerá. Este sistema de rega, por este conjunto de razões é muito mais exigente no consumo de água que a rega no período de verão, pelo que nos sistemas de regadio tradicionais, as levadas, não eram dimensionados para o consumo de água de verão, nomeadamente para o milho x feijão, ou batata, mas para o inverno. 

Normalmente, no inverno, as águas provenientes das nascentes são mais quentes que a temperatura do ar envolvente. Estas águas são também carregadas com minerais favoráveis às culturas forrageiras. Segundo o Padre Hymalaia, as águas de lima, depois de uma descarga eléctrica provocado por uma trovoada, ficam carregadas com azoto, tão necessário ao equilíbrio da adubação dos terrenos. Trata-se assim de um sistema sustentável, uma vez que não utiliza fertilizantes, antes as propriedades minerais das referidas águas.

O revestimento herbáceo que cobre os terrenos é semi-natural, composto por raras leguminosas (Trifolium) e algumas gramíneas,  vivazes, numa associação vegetal com um certo equilíbrio (e.g.  azevém (Lolium perene) língua de ovelha (Plantago lanceolata),  algumas bolbosas conhecidas como a “cebolinha” (Arrhenetherum elatius subsp. bulbosum  – muito apreciada pelos javalis que fossam os terrenos em sua busca) permitindo fixar a fina camada de solo que reveste os terrenos e relacionado substancialmente com o tipo de maneio a que é submetido. Utilizados como pastagens de Inverno de grandes e pequenos ruminantes (vacas, cabras e mais recentemente ovelhas) os lameiros são mantidos ao abrigo do gado no início da Primavera para proporcionarem um corte para feno no início do Verão. 

Fornecem não só forragem de corte de elevado valor nutritivo, mas protegem o solo contra os efeitos da erosão, que de outra forma seriam arrastados pela água das escorrências nas zonas de maior declive.  Os socalcos de prados de lima ou os lameiros quando são abandonados e deixam de ser regados, imediatamente começam a ganhar cobertura de colonizadores como a giesta e os codeços. As giestas e codeços não são bons protectores dos solos, porque através do ensombramento eliminam a cobertura herbácea deixando áreas de solo nu e, nomeadamente no que respeita às grandes chuvadas de outono e o solo está ressequido pelo rigor do verão, possuindo uma fina camada salina induzida pela radiação solar. Quando as primeiras chuvas outonais chegam, a cobertura arbustiva ajuda a criar grandes gotas que caem no solo com impacto e dissolvendo os sais, atingem escorrências de grande densidade e poder erosivo e destrutivo. As águas de lima, ao “dissuadirem” as plantas arbustivas de se instalarem, permitem manter uma protecção do solo que apenas o coberto florestal conseguiria melhorar. 

Ainda de realçar que do ponto de vista da biodiversidade, estes ecossistemas humanizados são riquíssimos, já que os solos ainda que delgados, são habitat para muitos insectos, invertebrados e outros habitantes das galerias do solo, que por sua vez fazem parte da cadeia trófica das aves e outros predadores que habitam nas árvores e bosques das bordaduras.  

A rede de levadas, poças, adufas, regos, “tólas”, moinhos, azenhas, fulões, serrações e lagares de azeite que o sistema de rega permitiram construir no nordeste português é um autêntico trabalho homérico de engenharia. Formado a partir de captações em pequenos córregos, ribeiros ou rios de montanha através de canais que atingem por vezes extensão de quilómetros, levam água de localizações mais húmidas e frescas e muitas vezes expostas a norte, para regiões mais secas e expostas a sul levando a água até à vegetação que se deseja proteger, tirando proveito da sua força motriz e permitindo trilhos de pé-posto muito fáceis de usar. 

Por outro lado, os lameiros e prados de lima fazem um trabalho perfeito de filtragem e contenção de inertes, prevenindo inundações.

Estamos perante um tesouro projectado pelos nossos antepassados para tirar proveito de um recurso particularmente abundante no nosso território: a água resultante da forte pluviosidade. No contexto das alterações climáticas este é um sistema que volta a assumir uma importância relevante e que ao qual nós os cidadão e a ciência deverão dar maior relevância, retomando o seu estudo.  

Do ponto de vista do desenvolvimento, o abandono do espaço rural irá persistir, contudo o seu efeito mais devastador será mais contido se soubermos redireccionar para outros usos os recursos, estruturas e equipamentos que já dispomos no território. É obrigatório olhar as nossas pesqueiras, os nossos moinhos, as nossas levadas, as nossas poças com um olhar diferente. Os socalcos só sobreviverão se a água lá continuar a chegar. A paisagem que nos caracteriza é feita pela disponibilidade de água, mas no sítio certo. A fruição para fins turísticos é plausível (desejável até, desde que não tenda a “folclorizar” os espaços e destrua os habitats) e agrega valor à paisagem.  

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