- O Ministério do Ambiente e Segurança Energética anuncia a atribuição de quase 800 milhões para comunidades de energias renováveis.
- Na realidade trata-se de um corte face aos 2,2 mil milhões que estavam previstos no Pnrr.
- A redução de verbas ocorre pouco antes do prazo final para solicitações ao Gestor de Serviços Energéticos.
Nos últimos dias, o governo italiano celebrou a aprovação pela Comissão de uma nova revisão do Plano Nacional de Recuperação e Resiliência, financiado pelo mega fundo de quase 200 mil milhões de euros (apenas para Itália) destinado a apoiar a recuperação dos países europeus após a pandemia de 2020-2021. Boas notícias? Na verdade não, porque dentro desta modificação há uma forte remodulação para baixo dos fundos do PNR destinados às Comunidades de Energias Renováveis (Cer) – passou de 2,2 mil milhões para 795,5 milhões de euros, uma redução de 64 por cento – o que representa uma das reduções mais significativas das políticas energéticas dos últimos meses. Uma escolha que o Governo defende como uma “operação responsável”, mas que o mundo da energia generalizada considera um retrocesso num momento crucial para a transição ecológica.
Por que a Itália corta as comunidades de energia renovável?
O corte foi anunciado ao Ministério do Ambiente e Segurança Energética (Mase), com a motivação oficial de focar na necessidade de realinhar o orçamento às necessidades reais dos projetos, evitando o risco de perda de recursos europeus. O ministro Gilberto Pichetto Fratin garantiu que a redução não comprometerá o cumprimento das metas de energias renováveis nem o desenvolvimento de comunidades de energias renováveis, definindo a escolha como “prudencial”. Uma posição que, no entanto, não convenceu quem trabalha na área. Municípios, empresas e associações tomaram conhecimento da notícia com surpresa. Muitos já haviam iniciado os procedimentos técnicos e financeiros com base na dotação original do Pnrr, considerados essenciais para o lançamento de comunidades energéticas, especialmente em cidades pequenas.
O dado mais emblemático é o do Gestor de Serviços Energéticos (GSE): a 23 de novembro de 2025, os pedidos de acesso a fundos já tinham chegado 864,6 milhões de eurosexcedendo efetivamente a nova disponibilidade. Significa que uma parte significativa dos projetos corre agora o risco de ficar sem cobertura, com repercussões nos canteiros de obras e no crescimento das RCE, muitas vezes apontadas como um dos pilares da transição energética “de baixo para cima”.
Para os operadores “um banho frio”
O setor reagiu duramente. A Legambiente e outras associações ambientalistas definiram o corte como um “banho frio” (ou no máximo quente, mas graças ao gás ou ao petróleo) para milhares de sujeitos que, há meses, aguardam clareza sobre as regras e os prazos de aprovação das candidaturas. Muitos operadores sublinham que a redução dos fundos ocorre pouco antes do prazo para pedidos ao GSE num contexto já marcado por atrasos, incertezas interpretativas e investigações ainda lentas.
Mas, de uma forma mais geral, esta remodelação corre o risco de enfraquecer a confiança num modelo – o das comunidades energéticas – que começava a construir dinâmicas participativas e de autoconsumo partilhado em todo o país: até à data, segundo dados publicados pelo próprio GSE e atualizados a 31 de maio de 2025, existem 421 comunidades energéticas presentes em todo o território nacional. A potência total instalada é de 43 mil kW (43 MW). Uma escolha considerada perigosa, porque as comunidades energéticas continuam a ser uma ferramenta fundamental na estratégia de descarbonização: permitem a produção de energias renováveis, reduzem custos para famílias e empresas e criam valor social diretamente nos territórios. Mas a redução de 64 por cento nos recursos Pnrr corre agora o risco de abrandar a sua propagação, num momento em que a Itália enfrenta o desafio da autonomia energética e da resiliência climática.